Ricardo Düren 21/03/2021 10h13

É tempo de ter fé

Desta vez, Ágatha não tem demonstrado apreensão com o risco de o Coelho não aparecer daqui a duas semanas. Concluiu que pode colocar fé nele

Já se passou quase um ano desde que escrevi, nesta coluna, sobre uma séria preocupação que nossa caçula, Ágatha, demonstrou no período da Quaresma de 2020.

– Pai? – chamou-me, na ocasião. – Será que o Coelho da Páscoa pega coronavírus?

A apreensão da traquinas tinha lá suas justificativas. Uma vez que o Coelho estivesse isolado, de quarentena, a entrega dos ninhos estaria comprometida. Contudo, na manhã de Páscoa, os ninhos com guloseimas foram encontrados aos pés da árvore pascalina – um galho caprichosamente adornado pelas gurias com cascas de ovos pintadas à mão. E, ao redor, podiam ser vistas as pegadas que o Coelho deixou ao circular pela sala – estranhamente, ele pisou em alguma coisa, talvez em uma poça de tinta branca, antes de entrar. Guloso, ainda deixou por ali uma cenoura parcialmente roída.

Pelo visto, ou o Coelho é imune ao vírus ou toma os devidos cuidados.

***
Lembro que, na época, ainda estávamos nos acostumando com a ideia da quarentena e nutríamos a impressão de que a pandemia acabaria logo adiante. Nem nos passava pela cabeça a possibilidade de atravessar uma segunda Quaresma sob a ameaça da Covid – muito menos com índices muito piores de doentes e vítimas.

Mas a Páscoa, vale lembrar, é tempo de esperança, de mudança, de vida nova. Se na Páscoa de 2020 tínhamos uma mera impressão, ainda fantasiosa, de que a pandemia não iria durar até o ano seguinte, agora é preciso acreditar com todas as forças, com todo o nosso coração, que venceremos o vírus nos próximos meses. Afinal, a fé move montanhas – e nos move a grandes realizações. Paradoxalmente, no caso da pandemia, a grande realização passa por atitudes simples: usar a máscara, lavar as mãos, usar o álcool gel, abdicar das festas e aglomerações. Não parece tão difícil.

***
Falando nisso, gostei do primeiro discurso do médico Marcelo Queiroga, o futuro novo ministro da Saúde. Em tempos de tanta divisão política e ideológica, inclusive no que toca ao combate à Covid, Queiroga adotou um tom conciliador. Ao mesmo tempo em que defendeu a manutenção da atividade econômica, corroborou o que diz a ciência e conclamou a população a fazer sua parte: apelou para o uso da máscara e para a atenção às regras de higiene e distanciamento. Deixou subentendido que uma coisa está vinculada a outra – ou seja, para que fábricas, lojas e restaurantes possam ficar abertos, a população precisa se cuidar para valer.

Do contrário, acontece o que vimos em nosso Estado em fevereiro e agora em março: após um clima de oba-oba, com praias e praças abarrotadas, festas clandestinas e máscaras esquecidas, as UTIs lotaram, vidas se perderam em ritmo assombroso e o comércio teve que fechar. Que essa dura experiência nos sirva de lição daqui para a frente.

Enfim, coloquei fé no Queiroga, que demonstrou ser um sujeito equilibrado e com visão sobre os dois lados da moeda. Espero, contudo, que tenha pulso firme para acelerar a vacinação dos brasileiros, que ainda se arrasta de maneira frustrante.

***
Desta vez, Ágatha não tem demonstrado apreensão com o risco de o Coelho não aparecer daqui a duas semanas. Pelo visto, concluiu que pode colocar fé nele. Suas preocupações têm girado em torno do tradicional almoço de Páscoa. A caçula defende que deveríamos bolar algo diferente neste ano. Como anda fascinada com os animes do Naruto, sugere um almoço ao estilo japonês.

– Poderia ser comida japonesa, com hashi ao invés de talheres…

Hashi

– Siiiim, paiii. É o nome dos pauzinhos que os japoneses usam para comer.

Eis mais um desafio para nós, pais. Os hashi exigem uma técnica apurada de manuseio, que eu não domino – o que me deixa em risco de passar fome na ocasião. Além disso, não faço ideia de como é a Páscoa no Japão, país de tradição budista. A única certeza que tenho é que, lá, a Páscoa começa 12 horas mais cedo. Tá aí mais uma coisa a se aprender.

LEIA TODAS AS COLUNAS DE RICARDO DÜREN