Cultura e Lazer

A arte de Eduardo Vieira da Cunha ajuda a contar a história

Até o dia 28 de fevereiro, a Casa das Artes Regina Simonis apresenta a exposição Fotografia e Pintura, 50 anos de pesquisa. A mostra celebra a prestigiada carreira do desenhista, fotógrafo e pintor Eduardo Vieira da Cunha. É a oportunidade para o público apreciar o resultado de cinco décadas em quadros e fotos. 

Nascido em 6 de março de 1956, em Porto Alegre, Eduardo é filho mais moço de Liberato Salzano Vieira da Cunha, que foi prefeito de Cachoeira do Sul, deputado e secretário da Educação do Estado. Seus pais morreram em 1957, em acidente aéreo, quando ele tinha um ano de idade.

Seu trabalho como fotojornalista iniciou-se no Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, em 1970. No decorrer da década, trabalharia ainda nos jornais Folha da Manhã e Folha da Tarde, além de atuar na sucursal de O Globo. Entre as imagens presentes na exposição, estão registros históricos dos grandes eventos do Rio Grande do Sul.

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Ainda na década de 1970, Eduardo ingressou no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na qual também lecionou. A pintura ganhou força em 1987, ao cursar mestrado na Universidade de Nova York. Eduardo teve como professor o pintor gaúcho Fernando Baril. Nos anos seguintes, seus trabalhos viriam a se destacar em premiações. Já na década de 2000, fez doutorado em Paris, na Sorbonne. 

A arte de Eduardo viajou o mundo, sendo exibida em lugares renomados, desde a Westbeth Gallery, em Nova York, à Galeria Debret, em Paris, e à Galeria Fisher-Rohr, em Basel, na Suíça. Recentemente, participou da exposição retrospectiva “Percurso do Artista”, marcando 30 anos de arte, em Porto Alegre. 

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Em entrevista à Gazeta do Sul, Eduardo narra as cinco décadas de carreira na fotografia e na arte plástica. Ao analisar passado, presente e futuro, contextualiza seu trabalho e o legado como artista.

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O fotógrafo que viveu e registrou grandes eventos do Brasil

Obras de Eduardo Vieira da Cunha ficam na Casa das Artes Regina Simonis ao longo deste mês | Foto: Rodrigo Assmann

Entrevista – Eduardo Vieira da Cunha, pintor e fotógrafo

  • Gazeta do Sul – No decorrer da carreira, o senhor foi fotógrafo, pintor e desenhista. O que veio primeiro?

Eduardo Vieira da Cunha – Foi a fotografia. Comecei o curso de artes plásticas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1974. Comecei a trabalhar, precisava me virar sozinho porque meu pai morreu muito cedo. Consegui um emprego no departamento fotográfico dos jornais Folha da Manhã e Folha da Tarde. Em paralelo, comecei a fazer desenhos, todos em preto e branco. Devo muito à universidade pública por me proporcionar isso. Demorei mais de 12 anos para terminar o curso, porque eu trabalhava.

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Atuei no Museu de Artes do Rio Grande do Sul, depois na sucursal do jornal O Globo, em 1978. E assim me aproximei das duas coisas. Anos depois, em 1987, pude ir para Nova York como bolsista, inicialmente para fotografia, e conhecer os museus e a arte. Eu já havia feito mestrado e foi aí que comecei a pintar. Ainda na década de 1980, fiz minha primeira exposição, em Porto Alegre. E a resposta fez com que eu começasse a trabalhar com pintura seriamente. 

  • De que maneira o interesse pelas artes plásticas influenciou o trabalho como fotojornalista?

Me ajudou, por exemplo, a entender a composição e a luz. O fotojornalismo era em preto e branco. E nós, fotojornalistas, trabalhávamos em condições muito precárias. Tem que fazer das tripas coração e resolver as coisas rapidamente. O fotojornalismo requer agilidade, mudança de ponto de vista e se posicionar. Comecei a usar algumas fotografias que havia feito para os primeiros desenhos. E houve uma espécie de intercâmbio de linguagens. 

  • Chama a atenção nas fotografias do senhor o uso do preto e branco…

Gosto muito do preto e branco pela questão do contraste e da dramaticidade. A fotografia já é uma abstração da realidade. Você vai retirando elementos como, por exemplo, a cor, o movimento e o cheiro, até chegar a uma síntese. Ela tem que ser o mais eficaz possível. E, às vezes, a fotografia dá outro sentido, sendo um exercício muito interessante para buscar a essência do acontecimento.

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E a vivência com a arte me trouxe isso. Através dela, consegui fazer com que uma série de imagens fossem publicadas na primeira capa do jornal O Globo. Recebi muitos incentivos, até um convite para trabalho no Rio de Janeiro. Então, houve um diálogo entre a arte e a fotografia.

  • Atualmente, não há necessidade de carregarmos equipamentos fotográficos. Basta ter um celular. Como o senhor avalia essa mudança? Acredita que trouxe impactos positivos ou negativos?

Ambos. Porém, continua a mesma questão do olhar. É o mais importante, assim como a capacidade de compor dentro do quadro. Claro que a digital trouxe uma série de vantagens em relação à fotografia analógica. Havia o fator de trabalhar com filme de 24 ou 36 poses e precisar contar uma história nesses poucos negativos.

Mas há outras questões. Havia uma espera até essas imagens serem reveladas. E isso traz um aprendizado, porque não imaginávamos como as imagens ficavam até serem reveladas. Tínhamos que fazer isso com a maior agilidade possível. Eu revelava tudo no quarto de hotel, montava um laboratório lá para mandar para o Rio de Janeiro no mesmo dia.

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Guardei muitos negativos até serem reveladas novamente e ganharem vida nova. Porque hoje o armazenamento muda a todo instante, do disquete para o CD e daí para o pendrive. E nesse caminho acaba se perdendo muita coisa. E o negativo está lá, como uma espécie de uma matriz que podemos retomar. 

  • Temos testemunhado o esvaziamento dos fotojornalistas das redações gaúchas. A Gazeta do Sul, por exemplo, ainda conta com uma equipe de fotografia, mas isso se tornou exceção no interior do Estado. Como avalia esse movimento?


Sem dúvida. Aqui no Rio Grande do Sul, tivemos uma escola de fotojornalismo muito forte. Tivemos fotógrafos renomados, como Lemyr Martins e Ivan Pinheiro Machado, editor da LP&M, e Assis Hoffmann.

E o fotógrafo precisa ter um olhar diferente e uma disponibilidade diferente do repórter. O repórter tem que se preocupar em entrevistar as pessoas e, muitas vezes, não tem o tempo de espera e atenção que a imagem necessita para prepará-la melhor. Às vezes isso é atropelado.

Fiz ambas as coisas lá em O Globo uma época e via que era muito difícil fazer ao mesmo tempo. Uma acaba atrapalhando a outra. É necessário também uma certa distância que é requerida na fotografia. 

Comecei como fotojornalista no Jornal do Povo, em Cachoeira do Sul. Na época, em 1970, havia um grupo que ficava disputando para ver quem fazia a melhor foto. Havia essa competição entre os grandes nomes que fizeram fotojornalismo na época, e que hoje em dia a gente não vê.

  • As fotografias do senhor se transformaram em registros históricos do País. Qual foi o momento mais marcante?

Representou uma possibilidade nova, principalmente por viajar por todo o Estado, por Santa Catarina e também por Uruguai e Argentina. Foi a possibilidade de estar ali, junto do acontecimento, enquanto ele se encontra na ponta do lápis. Me marcou muito a questão agrária, quando fiquei com os índios em meio às brigas por terra, marcada por assassinatos. Uma vez fiquei preso na aldeia indígena de Miraguaí até que a Funai autorizasse minha saída. Era uma briga entre fazendeiros e índios na região do norte do Rio Grande do Sul, que vivi na flor da pele. 

Em 1979, viajei de carro até Florianópolis para acompanhar um discurso do então presidente João Figueiredo. Havia ocorrido um temporal, fechou o aeroporto e os demais fotógrafos que acompanhavam a comitiva não puderam chegar. Eu estava praticamente sozinho lá para registrar o fato. E o Figueiredo, em seu discurso, elogiou o Floriano Peixoto. E os estudantes começaram a vaiar e ele tentou revidar. Ficou furioso. Eu saquei a câmera e fotografei. Quem aparece na frente dele na imagem é o segurança do presidente, tentando segurá-lo após perder as estribeiras. 

Foram acontecimentos que marcaram muito a minha trajetória. Houve ainda eventos esportivos e políticos, mas foram os eventos sociais que mais me envolveram.  A fotografia me permitia extrair o drama e o sentido deles. É um exercício de síntese, de buscar isso em poucas imagens ou em uma única. 

  • Os quadros presentes na exposição parecem trazer o olhar do senhor sobre a sociedade e o ambiente urbano, sobretudo os que retratam Nova York. São imagens muito impactantes sobre nossa relação com o planeta. Quais temas inspiram o senhor na hora de pintar?

Realmente, Nova York foi muito significativa para mim. Pude estar numa boa escola na City University e tinha uns bons professores que me incentivaram muito, gostavam do meu trabalho. Um dos quadros é uma imagem sobre as antigas torres gêmeas, que acabaram caindo. Eu fui lá em cima, fiz esboços e fotografei.

Depois, quando fui para Paris, tive outras ideias e um outro olhar. Aprendi muito nos museus. Quando falo aprender, é porque nós aprendemos a trabalhar vendo outras imagens, não a realidade. Os grandes mestres aprenderam mais indo a museus do que olhando a natureza em si. Eles viam como outro artista fazia. Toda essa peregrinação por museus, exposições, também me ajudou muito. E a vivência na metrópole, com outras pessoas, acabou transformando o meu olhar. Tanto que parei de atuar como fotógrafo, porque a pintura ainda absorvia muito tempo. 

  • Também chama atenção a presença de aviões e dirigíveis nas pinturas. O que esses símbolos representam para o senhor?

Eu queria uma reflexão sobre o transporte com a possibilidade de estar em outro lugar. O tempo do transporte em si, da viagem, e o que ele traz pra gente. Há uma série de obras de escritores, principalmente latino-americanos, nas quais a condição é estar em viagem, estar em algum lugar. Ou estar no exílio, talvez. 

E essa condição exige mais dos sentidos. Quer dizer, eu tenho um processo de adaptação que vai te aprimorar os sentidos. Isso é um desafio. Tem um outro lugar que tu não conheces, então surgem outros desafios de como se achar. Enfim, a viagem também é um processo de deslocamento em si.

Talvez os aviões, os trens, os meios de transporte em geral tragam essa ideia da viagem e de um eterno “em trânsito” de um lugar para outro. E as paradas são um momento; depois seguimos adiante para outro lugar. Nisso, os sentidos vão se aprimorando, tu vais sendo desafiado a buscar novas formas de adaptação ao meio. São exercícios muito salutares para a criatividade. Te botam em prova.

  • O que significa para o senhor a experiência de estar no ateliê desenhando? Qual sentimento o atravessa?

É um transe, me transporta para outro lugar. Há uma questão espiritual muito forte. É muito importante também o olhar sobre a obra feita. É o olhar que tu vais ter no texto. Depois que escreve, tu tomas uma distância dele e vais ler de novo. É o mesmo processo na pintura: tu fazes ela, deixas lá, descansas, dás um tempo e voltas. É um processo do olhar e do tempo.

É também uma espécie de recuperação do tempo perdido. De algum acontecimento que passou e de que tu foste testemunha. Tu tentas recriar o que foi e colocar na tela uma reinterpretação. E isso é um transe, um momento suspenso do tempo. Tu perdes a noção do tempo, se perde trabalhando e, quando vê, já é madrugada. Por isso é tão bacana o processo de criação, tanto artística quanto literária.

  • Qual a relação do senhor com Santa Cruz do Sul?

Bom, vou voltar lá para a minha infância. Na década de 1950, meu pai foi prefeito de Cachoeira, depois foi deputado e secretário estadual da Educação e Cultura. E ele viajou diversas vezes para Santa Cruz, sempre esteve muito próximo da comunidade, inaugurou escolas… Infelizmente,  ele veio a falecer em 1957.

Décadas depois, surgiu a chance de fazer uma exposição no interior do Estado, oportunizando que mais pessoas conhecessem o meu trabalho. Santa Cruz tem esse espaço excelente, que é a Casa das Artes Regina Simonis, mantida pela comunidade através da Associação Pró-Cultura. E foi um excelente achado.

  • De que maneira o senhor avalia o cenário artístico-cultural do município?

Santa Cruz do Sul é uma cidade fantástica no aspecto cultural. E possui uma vida noturna maravilhosa. É uma cidade cheia de vida, muito bonita e com pessoas muito alegres. Tenho dois grandes amigos aqui, os arquitetos Milton Keller e o Ronaldo Wink. 

  • A exposição permite que o público reaja ao trabalho do senhor. Qual é o sentimento em relação a essa experiência?

A arte só acontece através do olhar do outro e só se complementa através do olhar do outro. É o olhar do outro que vai valorizar a tua arte. A pessoa vai ver aquilo e lembrar da história dela. É por isso que alguns gostam mais de determinadas imagens. Porque aquilo fala do passado de cada um. 

A arte é como a física quântica. Um objeto funciona ou trabalha de determinada maneira quando é observado. O olhar vai transformar uma coisa em outra e vai dar outra interpretação. É o coeficiente de incerteza. Por esse motivo, a arte precisa desse olhar do outro e se complementa com isso.

Eu trabalho solitariamente. Por isso, a exposição é tão importante. Lá tu vais ter uma relação de troca. Por isso, o artista precisa mostrar seu trabalho e o dividir com os outros. 

  • Ao olhar para o passado, qual o ensinamento que o senhor está deixando na sua arte?

É uma questão, assim, de enriquecimento pessoal e de ter satisfação de ter trabalhado como uma espécie de arquivista. Penso que o artista é uma espécie de arquivista, que guarda, seleciona e mostra coisas. E a grande satisfação é ter um acervo guardado que eu posso estar mostrando depois de tanto tempo. 

As fotografias são um testemunho da história. É importante guardar para mostrar depois, em outro tempo e outra situação, e reler isso. A distância temporal e o distanciamento permitem outra releitura. Acho que isso é importante, porque traz o amadurecimento do olhar e o crescimento pessoal.

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Com a palavra, o autor

FIGUEIREDO: “Foi na ‘Novembrada’, em novembro de 1979. Começou com o presidente cometendo uma gafe no discurso, elogiando Floriano Peixoto. Figueiredo (abaixo) perdeu o controle ao ser ofendido e tentou investir contra a multidão. Foi contido pelo seu próprio segurança. Levantei a câmera e acionei o disparador. Um único negativo, que virou capa dos principais jornais do Brasil e do mundo.”

BRIZOLA: “Essa outra também foi importante pra mim. Foi na Granja São Vicente, no retorno de Leonel de Moura Brizola do exílio, em 1979 (foto abaixo). Houve uma importante manifestação popular em São Borja, terra de Getúlio e de Jango. Brizola seria eleito logo depois governador do Rio de Janeiro.”

NOVA YORK: “A gravura abaixo foi feita a partir de umas fotos que fiz do alto das Torres Gêmeas, que depois seriam destruídas. Subi ao promenade de uma das torres, onde fiz também alguns desenhos. Eu estava cursando o mestrado na City University de NY na década de 1980. Foi um período importante para meu aprendizado.”

PARIS: “E essa pequena pintura me lembra uma livraria em Paris, onde estudei na década de 1990, fazendo doutorado na Sorbonne. A Dalloz me proporcionou excelentes leituras em meu período de estudos e de escrita da tese.”

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Julian Kober

É jornalista de geral e atua na profissão há dez anos. Possui bacharel em jornalismo (Unisinos) e trabalhou em grupos de comunicação de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

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