Mel Lisboa vive jornalista que busca desvendar mistério em torno das mortes
Entre agosto de 1976 e maio de 1977, em plena ditadura, três líderes políticos, entre eles dois ex-presidentes, morreram de forma consecutiva: Juscelino Kubitschek, João Goulart, o Jango, e Carlos Lacerda. A morte do trio, que em 1966 articulou a Frente Ampla com o objetivo de restaurar a democracia no Brasil, tornou-se uma das coincidências mais polêmicas da história brasileira, levantando a hipótese de se tratar de queima de arquivo.
Passados 50 anos, as suspeitas envolvendo os casos são expostas em A Conspiração Condor, novo longa-metragem nacional que está em cartaz nos cinemas brasileiros. A convite da equipe de assessoria da LEP Filmes, responsável pela produção, a Gazeta do Sul assistiu com exclusividade à obra.
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Com direção de André Sturm, que assina o roteiro, em parceria com o jornalista e escritor Victor Bonini, o suspense político decide explorar o período da ditadura sob o ponto de vista do jornalismo e se diferencia dos principais filmes sobre o tema. Silvana (Mel Lisboa) é uma jornalista responsável pela coluna de fofocas que fica obcecada com as estranhas coincidências envolvendo as mortes dos ex-presidentes.
À medida que ela se envolve no caso, ao lado dos repórteres Marcela (Maria Manoella) e Juan (Dan Stulbach), testemunhas começam a desaparecer ou morrer em circunstâncias suspeitas, revelando uma trama que coloca a sua carreira, e a sua vida, em risco.
Há um clima de paranoia que permeia a narrativa do início ao fim. Isso fica explícito na reação dos personagens, que parecem viver suas rotinas com medo da repressão. E torna-se mais notável conforme a trama avança e Silvana passa a desconfiar de todos à sua volta. Paira ainda o sentimento de impotência: a cada avanço da investigação, o trabalho é prejudicado com o sumiço de uma prova ou uma testemunha. Resta o questionamento: é possível uma jornalista enfrentar o aparato totalitário e revelar a verdade por trás das mortes?
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Mais do que um excelente filme de suspense, A Conspiração Condor evidencia a importância do jornalismo na busca pela verdade, na preservação da memória e na defesa da democracia.
Sob o olhar de Sturm e Bonini, a produção nacional reverencia um dos principais filmes sobre a importância do jornalismo, Todos os Homens do Presidente, obra norte-americana de Alan J. Pakula sobre a investigação conduzida por Bob Woodward (Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman) no caso Watergate, que levou à renúncia do presidente Richard Nixon. Mostra ainda as adversidades à imprensa impostas pelo regime. Destaca-se, sobretudo, a presença de um censor na redação do jornal no qual Silvana atua, responsável por impedir a publicação de qualquer reportagem contrária aos interesses da ditadura.
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O excelente roteiro, aliado a ótimas atuações, torna A Conspiração Condor uma obra indispensável. Apesar das limitações técnicas, é um filme impactante, que utiliza a ficção para trazer à tona uma ferida que continua a sangrar e manchar a história do Brasil. E, mesmo após o sucesso de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, demonstra que há muitos casos polêmicos a serem explorados nos cinemas.
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O historiador Mateus Skolaude, professor da Universidade de Santa Cruz do Sul, explica que Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda, filiados a partidos políticos de tradições distintas (PSD, PTB e UDN, respectivamente), tiveram papéis muito diferentes antes e depois do golpe. Destaca que Kubitschek era ex-presidente de prestígio popular que teve os direitos políticos cassados após o golpe, em 1964, e passou a representar alternativa moderada de retorno à normalidade constitucional.
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Jango, presidente deposto, tornou-se o grande símbolo da ordem democrática interrompida e do campo trabalhista no exílio. E o jornalista Lacerda apoiou o golpe, mas rompeu com o regime depois de perceber que não devolveria o poder aos civis e não realizaria eleições presidenciais diretas, o que, segundo o historiador, inviabilizou o próprio projeto político do comunicador.
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Em relação à Frente Ampla, Skolaude cita que o historiador Marcos Napolitano afirmou que a iniciativa demarcou reordenamento definitivo de forças dentro da coalizão golpista, além de representar o afastamento de líderes civis em relação ao governo militar. “Ou seja, a Frente Ampla constituiu tentativa de lideranças políticas civis de retornar à cena política principal, incluindo antigos apoiadores do golpe que não se sentiram contemplados com os rumos do regime.”
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No entanto, a Frente Ampla carecia de efetivo apoio social. “Não por acaso, quando a questão estudantil ganhou força em 1968 e parte da sociedade civil voltou às ruas para protestar, o governo militar dissolveu a Frente por decreto, buscando evitar que a atuação das lideranças civis se articulasse com a mobilização das ruas.”
O historiador frisa que não há, até o momento, indício comprobatório de uma ação coordenada nas mortes. Sobretudo no caso de Jango, que recebeu maior visibilidade política e midiática. “Ou seja, a perícia oficial divulgada pelo Estado brasileiro em 2014 foi inconclusiva”, salienta.
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Para Skolaude, obras como A Conspiração Condor são fundamentais para reforçar a importância da memória histórica, especialmente em contexto no qual grupos proliferam nas redes sociais negando ou relativizando a violência do período ditatorial.
Reforça que obras como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto mostram que o cinema brasileiro tem revisitado o período ditatorial e seus impactos, reafirmando a necessidade de lembrar, discutir e compreender o passado para evitar sua repetição. “Mesmo incorporando elementos ficcionais, o cinema tem grande valor pedagógico, pois amplia o alcance desses debates, sensibilizando o público e estimulando questionamentos sobre o passado e suas permanências no presente.”
Liz Reis
Atriz e produtora de A Conspiração Condor
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