A escritora porto-alegrense Carolina Panta venceu o Prêmio Açorianos de 2024
Em 2005, a EdUERJ lançou no Brasil livro do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002) cujo título propõe reflexão em torno da obra do poeta Paul Celan: Quem sou eu, quem és tu? Essa mesma indagação poderia nortear a leitura do romance Falso lago, da escritora gaúcha Carolina Panta, lançado pela editora Zouk. São muitas as respostas que os persongens buscam, e elas vão se apresentar (ou não) ao longo da narrativa, construída com mestria, algo reconhecido (com justiça) pelo Prêmio Açorianos de Melhor Narrativa Longa de 2024, principal distinção literária em realidade estadual.
A história se desenvolve na capital gaúcha e muito especialmente na área do Delta do Rio Jacuí, composta pelas ilhas do Guaíba e no entorno das pontes. O título pode naturalmente remeter ao Guaíba, nesse interminável debate sobre se se trata de lago ou de rio. De forma que a pergunta “quem sou eu, quem és tu?” poderia englobar até a natureza desse espaço das águas.
Mas há outras indagações mais que cercam a vida da protagonista, a assistente social Luciana, cuja missão é aproximar-se da população dessa outra Porto Alegre. Trata-se do contingente que mora tão perto e ao mesmo tempo tão longe do Centro Histórico, a comunidade das ilhas do Delta e das áreas ameaçadas de alagamentos a cada chuva forte (que pode ocorrer até mesmo bem longe da capital, nas regiões dos vales do centro do Estado). Em sua atuação junto a esse público, Luciana tanto levará ajuda quanto, como se verá, tenderá a ser ajudada, em um movimento de alteridade.
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Se no espelho das águas se reflete a linha do horizonte da capital, com populações igualmente à margem ou à deriva, é à beira do Guaíba, no acolhimento junto a pessoas que também querem e precisam ser acolhidas, que Luciana buscará porto seguro para a deriva de sua própria existência. O leitor se depara com uma escrita segura e corajosa, que se anuncia como grito: de alerta, de denúncia, de empatia. Aliás, essa cidade se verá ainda exposta no espelho da literatura, nesse belo romance composto por Carolina Panta.
O lago pode até ser falso (ou não ser lago), mas a inundação é verdadeira. Se a da ficção, que Carolina assina, não chega a causar tanto estrago, a do mundo real, vivenciada pelos gaúchos em 2024, mostra que respostas às indagações ambientais são urgentes. Detalhe: o livro de Carolina é de 2023; premonitório, apresenta cenário de enchente que se assemelha ao que o mundo veria, estupefato, no ano seguinte ao do lançamento da obra. Eis a vida imitando a arte, mais uma vez.
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Falso lago é um convite para uma conexão, pautada por honestidade e autenticidade, com o mundo natural, com o social, em área de periferia. A protagonista do romance sente o chamado daquele ambiente urbano constituído pelo próprio Guaíba, um universo no qual talvez inclusive estejam as respostas para muitas das indagações que inquietam a ela e aos que por ela esperam em casa (um pai e um filho). As angústias, as incertezas, o passado e o futuro, tudo se mistura em cenário de águas, que são a um tempo estrada e fronteira (fluidas, avançam e sobem de maneira imprevista, e, se trazem alento, também trazem inundação).
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Para o leitor, é uma iluminação apreender, em um romance de ficção, mais e melhor a realidade social, econômica e cultural das ilhas do Guaíba, e da região das pontes (a velha e a nova) que ligam por via rodoviária diferentes áreas de uma cidade que, de outra forma, só se conectaria por canoa ou barco, ou nem se conectaria.
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A romancista e contista Carolina Panta é mais um nome da nova geração a salientar a qualidade inquestionável da literatura produzida por autores nascidos no Rio Grande do Sul. Com formação na área de Língua Portuguesa e Literatura, ela alia o conhecimento técnico e sobre autores a uma abordagem de temas de forte e pungente universalidade.
Nesse caso, destacam-se as questões sociais, diante da atenção a personagens muitas vezes empurrados para as margens da sociedade. No caso de Falso lago, seu premiado romance, inclusive para as margens reais do circuito das águas que cercam Porto Alegre, o Delta do Jacuí e o Guaíba. E, nesse cenário, é quase inevitável também que ela exponha o drama da degradação ambiental, da precária infraestrutura oferecida às populações, e das decorrências da instabilidade do clima a que esse público está sempre sujeito.
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Antes de Falso lago, Carolina havia lançado duas narrativas longas: Dois nós, em 2019, pela editora Cinco Gatas, e Olivetti Lettera 32, em 2021, pela Zouk, que também adota como cenário a área central de Porto Alegre, nesse caso o Bairro Menino Deus. Após receber o prêmio por Falso lago, em 2025 ela lançou um volume de contos, Lama bruta, igualmente pela Zouk. Nesta obra de 136 páginas, disponível por R$ 65,00, ela tematiza a força bruta que por vezes se salienta no feminino.
É como se nas personagens se revelasse o que de mais primitivo elas carregam dentro de si, e que explode (ou é ativado) em diferentes situações. A referência ao binômio médico e monstro não é casual e nem fortuito; são personagens que oscilam do bem ao mal, num piscar de olhos, desde que as circunstâncias de um mundo igualmente rude as levem a isso.
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Foi uma experiência profunda e, de certa forma, perturbadora. Escrever sobre a ameaça da água sempre teve, para mim, algo de exercício de imaginação e de alerta, mas a enchente de 2024 dissolveu essa distância entre o simbólico e o real. Ver a cidade atravessada por aquilo que, no livro, ainda era uma possibilidade latente, me colocou numa posição estranha, a de quem escreveu algo que não desejava ver confirmado. Houve um sentimento de impotência muito forte, mas também de luto pela paisagem, pelas casas, pelas rotinas interrompidas. A literatura não prepara ninguém para o impacto concreto da água invadindo tudo, mas, naquele momento, ela se tornou uma lente para tentar compreender o que estava acontecendo.
Fui afetada sobretudo pela suspensão da vida cotidiana, não diretamente pela chegada da água. A cidade parou, os deslocamentos se tornaram difíceis, o medo vinha com a chuva que não parava e passou a organizar os dias. Como muita gente, acompanhei com angústia as notícias, as imagens, os relatos de amigos e conhecidos que perderam casas ou precisaram sair às pressas. Lidei com aqueles dias tentando ajudar como era possível, principalmente na organização de uma cozinha de emergência que atendia muitos abrigos da cidade.
Esse conhecimento veio de um processo longo, que misturou pesquisa, escuta e presença. Passei bastante tempo circulando pela região, conversando com moradores, observando o ritmo das ilhas, atravessando a ponte, percebendo como aquela infraestrutura altera profundamente o modo de vida local. Não me interessava apenas o dado factual, mas a maneira como as pessoas se relacionam com o território, com a água, com a ideia permanente de risco. Minha relação com a região é de respeito e fascínio, mas também de desconforto, porque é impossível estar ali sem perceber as desigualdades e as tensões que atravessam aquele espaço.
Essa Porto Alegre das águas é uma cidade quase invisível para quem vive no asfalto. Culturalmente, ela tem outros tempos, outras formas de sociabilidade, uma relação muito mais direta com os ciclos naturais. Economicamente, é uma região marcada pela precariedade, mas também por saberes específicos, ligados à pesca, ao transporte fluvial, à adaptação constante ao ambiente. É uma cidade que espelha a Porto Alegre oficial, mas de forma distorcida, revelando aquilo que preferimos não ver, a desigualdade, a negligência histórica, a fragilidade das políticas públicas.
A ameaça ambiental sempre esteve ali, muito visível para quem olha com atenção. O avanço desordenado da cidade, a falta de manutenção das estruturas de contenção, o descaso com as populações ribeirinhas, tudo isso apontava para um cenário de risco. Como escritora, me interessa trabalhar com aquilo que está prestes a acontecer, com as fissuras do presente. A enchente não era uma previsão, mas uma consequência possível de um conjunto de escolhas, ou da falta delas.
Depois de 2024, recebi muitas mensagens de leitores dizendo que releram o livro de outra forma, ou que passaram a olhar para o Delta com mais atenção e inquietação. Esses retornos me tocam bastante, porque mostram que a literatura pode ampliar a percepção, criar empatia, deslocar o olhar. Não diria que fico satisfeita, porque o contexto é doloroso demais para isso, mas sinto que o livro encontrou um lugar de diálogo com a realidade, e isso é algo importante para mim.
A leitura é, antes de tudo, uma forma de escuta. É onde aprendo a olhar o mundo pelos olhos de outros, a complexificar o pensamento, a desacelerar. Escrever, por sua vez, é uma tentativa de furar as bolhas da classe média letrada, colocando uma lente sobre aquilo que ninguém quer ver. Não como quem busca respostas, mas como quem formula perguntas melhores. Escrever é um gesto de atenção e de risco, uma forma de permanecer em contato com o que nos atravessa, mesmo quando é desconfortável.
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