Ambiente cultural: Beatrice Dummer em Torino, com a Mole Antonellana, símbolo da cidade, na paisagem urbana | Foto: Niccolò Fusaro
Na edição anterior, mergulhamos nas raízes da língua italiana com Dante e Petrarca, e vimos como Alessandro Manzoni, com I promessi sposi, transformou o romance histórico em uma ferramenta de consciência civil e rigor documental e fez uso da literatura para criticar a opressão de sua própria época.
Contudo, a evolução desse gênero não parou no século XIX. Ao analisarmos O nome da rosa, de Umberto Eco, autor que é um expoente do pós-modernismo, notamos distinções fundamentais entre o romance histórico clássico e o que chamamos de pós-histórico. Para mapear essa transição, devemos primeiro observar a estrutura proposta por Eco, que divide o gênero em três frentes principais.
A primeira delas é o Romance de Ambientação, exemplificado por J.R.R. Tolkien em O senhor dos anéis, onde a ambientação histórica em outra dimensão funciona apenas como uma válvula de escape para a imaginação, sem a necessidade de uma precisão cronológica definida. Em um segundo nível, encontramos o romance de Capa e Espada, que utiliza o que Eco chama de “enciclopédia”. Esse termo é essencial em sua obra, pois refere-se aos saberes compartilhados de uma sociedade, como figuras históricas conhecidas por todos.
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Um exemplo clássico dessa categoria é Os três mosqueteiros, obra em que personagens reais realizam aventuras que não constam nos registros oficiais da história. Por fim, surge o Romance Histórico propriamente dito, representado por I promessi sposi e O nome da rosa. Nesses casos, o pilar central é a verossimilhança e o rigor documental, uma vez que as ações dos personagens devem servir como uma lente para compreendermos a história geral de forma mais profunda.
Ao analisarmos as diferenças estruturais entre esses dois autores, percebemos que no modelo clássico de Manzoni a micro-história contribui diretamente para o fortalecimento da trama principal. O longo capítulo dedicado à Monja de Monza, por exemplo, não é um desvio, mas um recurso para clarear o contexto social e político da época. Da mesma forma, as coordenadas espaciais são rigorosas e, ainda que o nome exato de uma cidade seja omitido, o leitor consegue identificar precisamente onde se encontra. Essa jornada é marcada por deslocamentos físicos e, acima de tudo, por uma resolução moral católica. Nela, o bem triunfa e o mal é punido, culminando no tradicional “felizes para sempre”, em meio a cenários épicos, como a peste e a invasão espanhola.
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Em contrapartida, o universo pós-histórico de Eco apresenta uma visão muito mais pessimista, onde o desfecho raramente é de vitória. A lógica aqui é a fragmentação do passado, transformando temas específicos, como os tratados sobre a produção de cerveja ou a herborística, em elementos que não colaboram necessariamente para o avanço da trama. O objetivo real desses trechos é confundir o leitor, criando a sensação de um labirinto intelectual. Diferentemente de Manzoni, Eco não oferece coordenadas geográficas exatas, e a abadia torna-se um microcosmo fechado e sem saída.
Finalmente, a obra nega o elemento divino ao colocar o homem e sua falibilidade no centro de tudo. Prova disso é que, mesmo diante de grandes eventos como o encontro entre os franciscanos e o papado, o protagonista Guilherme de Baskerville mantém-se focado apenas no enigma da investigação, deixando a grande história em segundo plano.
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Seja através da esperança católica de Renzo e Lucia ou do ceticismo investigativo de Guilherme de Baskerville, o romance histórico italiano permanece como um dos pilares mais fascinantes da cultura europeia. Ele nos convida a olhar para trás através das “lentes da literatura” para compreendermos as complexidades que moldaram nossa identidade e o pensamento de nossa sociedade.
Afinal, como as obras de Manzoni e Eco demonstram, a história não é um cenário estático, mas um organismo vivo, reescrito a cada nova interpretação. No atual cenário geopolítico, revisitar essas narrativas e estudar é essencial para que não cometamos, como sociedade, os mesmos erros do passado. Temas como autoridade, abuso de poder e extremismos religiosos continuam, infelizmente, atuais.
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