Buscando temas para esta crônica, passei por vários lugares, lembrei muitas pessoas, reconstituí diversos episódios da vida, mas nenhum me apeteceu suficientemente. Olhei, então, para mim, para o meu corpo e me deparei com uma mina de assuntos ali presentes, guardados e revelados pela língua do cotidiano. Muitas das nossas sentenças ou definições caseiras se consolidam a partir de componentes do corpo. Sem ordem precisa e mesmo omitindo muitas, pus-me a colher o que me caía na memória. Até mesmo frases engraçadas se enchem de sentido.
Comecemos pela cabeça. Superou, saiu de cabeça erguida. Perdeu, ficou de cabeça inchada. Teimoso como mula, é cabeça dura, intransigente. Não adianta aconselhá-lo, é cabeçudo. Perdeu o debate, saiu de cabeça baixa, a que se acrescente uma contribuição do cachorro que sai com o rabo entre as pernas. Fracassou, deu com a cabeça na parede. Para tomar a melhor decisão, põe a cabeça no lugar. Não percebeu o equívoco, não sabe onde andava com a cabeça.
LEIA MAIS: O tropeiro, a filha e o revólver
Publicidade
O nariz serve para respirar ou apoiar os óculos. Mas, igualmente define quem mete o nariz em tudo, quem torce o nariz, quem encontra o resultado óbvio, que estava debaixo do seu nariz. Pode ser grande, pequeno, harmonioso, desproporcional. O poeta baiano Gregório de Matos (1636-1696), satirizando o governador da Bahia, lhe desferiu estes versos: “Nariz de embono com tal sacada/ que entra na escada duas horas primeiro que seu dono”. Embono significa plataforma. Claro que não dá para omitir o nariz empinado. Quando alguma suspeita anda no ar, o nariz percebe que algo não cheira bem. Juca Chaves tinha um nariz descomunal, mas ganhou a vida com ele, dedicando-lhe várias músicas hilariantes.
A perna serve para caminhar, no entanto se presta igualmente para passar a perna em alguém, define quem chega em casa trocando as pernas, se tem que fugir, pernas pra que te quero! Da minha infância lembro a corriqueira sentença “Marechal Deodoro da Fonseca, uma perna torta, outra seca!” Porque tem pernas curtas, a mentira não vai longe. Tudo o que você desejar, primeiro avalie se tem pernas para alcançar isso. E, se não estiver muito disposto a trabalhar, siga o conselho do poeta Ascenso Ferreira (1895-1965): “Hora de comer – comer!/ Hora de dormir – dormir!/ Hora de vadiar – vadiar!/ Hora de trabalhar? – Pernas pro ar que ninguém é de ferro!”.
LEIA TAMBÉM: Porão mágico
Publicidade
A mão tantas vezes se apresenta em nossa vida. Na hora mais difícil, tu me deste a mão. Quando é muito bom, o profissional é de mão cheia. Ao revelar atitude simulada, dá o tapa e esconde a mão. Quando sorrateiramente se apossa do que não é seu, tem mãozinha leve. Quando se adona de muito mais do que necessita, tem a mão grande.
O pé merece estar neste conjunto, caso contrário estaria falando de algo sem pé nem cabeça. Nem sempre se destaca por sua serventia positiva, quando lembrado em trocar as mãos pelos pés. Nesse caso, a suavidade da mão é substituída pela indelicadeza de um pontapé. Para viver no limite das possibilidades, é fundamental ter os pés no chão.
Faltou espaço para reverenciar as orelhas, a língua (seu linguarudo!), o umbigo (cada um cuide do seu umbigo!), os rins, o fígado, o estômago, os joelhos (essa ambrosia tem que comer de joelhos!), e tantas peças mais que compõem a impressionante e maravilhosa engrenagem que é o corpo humano.
Publicidade
LEIA MAIS TEXTOS DE ELENOR SCHNEIDER
QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!
Publicidade
This website uses cookies.