Fora de Pauta

A tal da geração “mimimi”

Está em votação no Congresso o Projeto de Lei 896/23, que equipara a misoginia ao crime de racismo e torna a prática inafiançável e imprescritível. Pelo texto, a injúria motivada pela condição de ser mulher passará a ter pena de dois a cinco anos de prisão. Como uma mudança legislativa criminal, está atrelada à boa e necessária opinião popular. O Observatório Lupa realizou uma pesquisa para identificar a repercussão nas redes sociais e concluiu que o projeto se tornou alvo de desinformação e narrativas falsas. Segundo o levantamento, que analisou mais de 280 mil publicações sobre o tema no X, Facebook e Threads, usuários contrários temem que o projeto restringiria a liberdade de expressão e poderia ser utilizado para “perseguir a direita”. 

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De certa forma, acho saudável que existam opiniões contrárias e favoráveis a qualquer projeto de lei. Porém, tenho curiosidade para entender o que faz um internauta – que geralmente se diz ético e defensor dos bons costumes – manifestar-se publicamente em desfavor da ampliação do direito das mulheres, ainda mais sabendo que a defesa das vítimas deveria ser uma pauta sem ideologia. Um projeto de lei geralmente surge de uma necessidade da comunidade, esta, que felizmente tenta (pelo menos no papel) erradicar e prevenir as formas de violência contra a mulher. Mas, caso aprovada, nem  sequer sabemos como essa lei da misoginia vai atuar, o que será tipificado e quais os contextos. 

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O medo maior, pelo que ressalta a pesquisa, é que qualquer comentário seja classificado como crime. Como mulher, digo que a violência pode não estar só nas falas, mas em pequenas expressões e ações, que geralmente estão mascaradas ou beneficiadas de “foi só uma brincadeira”, “você entendeu errado” ou “não foi isso que eu quis dizer”. Mas fiquem tranquilos, essas ações nenhuma lei é capaz de identificar. 

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Desconfiar do poder punitivo do Estado é saudável em qualquer democracia. O que parece contraditório é transformar uma proposta de proteção em uma ameaça antes mesmo de conhecer seu alcance. Se a preocupação é que uma lei destinada a punir atos misóginos possa atingir comportamentos cotidianos, talvez a pergunta que mereça ser feita não seja sobre a lei em si, mas sobre quais condutas algumas pessoas receiam deixar de praticar. 

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“A tal geração mimimi”, é o que dizem de jovens propensos a questionar situações e falas que eram consideradas normais, mas têm carga de preconceito. O curioso é que esse rótulo costuma partir justamente de pessoas que não toleram ser contrariadas quando o assunto as atinge diretamente. O “mimimi”, nesse caso, parece depender apenas de quem é o alvo.

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Karoline Rosa

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Karoline Rosa

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