Ano-novo costuma vir embalado em papel de promessa. Agenda em branco, planner recém-comprado, caneta nova esperando grandes decisões. É o tempo oficial das listas: metas, viagens, projetos, mudanças. A famosa segunda-feira em que tudo começa – inclusive a academia –, embora quase sempre adiada para a próxima semana. Ou para o próximo mês. Ou para quando der.
Talvez o problema esteja justamente aí: esperar demais pelo momento ideal. O ano vira, o calendário muda, mas a vida continua acontecendo no meio do caminho. E ela não exige datas simbólicas para começar. Exige coragem. Às vezes, só isso. Começar no sábado mesmo, sem plateia, sem alarde. Apenas começar.
Não porque o ano-novo pede metas. Mas porque você merece.
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Confesso que essa data, para mim, sempre teve um quê de melancolia. Minha avó, Dona Olga, dizia que não gostava de comemorar a virada. Não sabia quais perrengues ainda viriam, então preferia celebrar o que havia passado. Na época, eu não entendia. Hoje, adulta, entendo e concordo. Demorou, mas aprendi que a troca das 23h59 pela meia-noite vai muito além da cor da roupa ou da simpatia escolhida para atrair dinheiro, amor ou saúde.
Longe de mim criticar crenças e superstições. Sou do time que aposta na Mega da Virada, mesmo sabendo que mais um ano se passou, e sigo longe de ser bilionária. Tudo bem. A gente tenta de novo no próximo 31 de dezembro. Afinal, apostar na sorte também é uma forma de esperança.
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Com o tempo, percebi que o ano-novo talvez seja menos sobre recomeçar e mais sobre resistir. Um suspiro coletivo que diz: “ufa, aguentei”. Venci mais um ano. E isso, por si só, já é uma conquista enorme. Reconhecer o que foi possível nesses 365 dias, mesmo quando não foi fácil, é entender que cada passo dado abre espaço para outros tantos.
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Conquistar, afinal, é um verbo que pede ação. Como escreveu Carlos Drummond de Andrade, “é dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”¹. Ele não chega com fogos, não bate à porta à meia-noite. Ele desperta quando você decide ir.
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Não espere mais 365 dias. Se estiver ao seu alcance, faça. Faça por você. Faça sem motivo aparente, sem desculpa ensaiada. Faça por merecer um ano-novo que realmente mereça esse nome.
¹Receita de Ano Novo é um poema de Carlos Drummond de Andrade publicado em 1977 no livro Discursos de primavera e algumas sombras.
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