Categories: Cultura e Lazer

Biografia de Tancredo revela detalhes do que se passou há três décadas

Há três décadas, o brasileiro convive, em seu íntimo, com uma pergunta que haverá de ficar sem resposta: o que teria sido do Brasil se Tancredo Neves tivesse assumido a presidência, para a qual fora eleito, na reabertura política após 20 anos de ditadura militar? Ao lado do suicídio de Getúlio Vargas, em 1945, a saída de cena do ilustre mineiro talvez tenha sido o fato a mudar, de modo definitivo, a conjuntura política e social do País, fazendo com que, na sequência, assumisse feição muito diferente daquela que estava desenhada. Hoje, completam-se os 30 anos da morte de Tancredo, justamente no Dia de Tiradentes, que reverencia seu conterrâneo de São João del-Rey, Joaquim José da Silva Xavier, o líder da Inconfidência Mineira, executado em 1792.

A vida de Tancredo de Almeida Neves, falecido aos 75 anos, é repleta de instantes de superação. E tanto tempo após sua morte, a impressão que fica, junto à opinião pública, é que seu legado ainda não foi, sob hipótese alguma, assimilado. Sequer pode-se acreditar que o vice-presidente José Sarney, ao assumir em seu lugar, em 15 de março de 1985, tenha dado continuidade ao projeto que Tancredo traçara. Nesse terreno nebuloso e tão pouco conhecido fora dos bastidores do mundo do poder, ao qual tiveram acesso pessoas que participaram da campanha de Tancredo, pelo PMDB, candidato de oposição ao PDS de Paulo Maluf, este apoiado pelo último governo militar, o de João Figueiredo, muitas manobras ocorreram.

Talvez a melhor via de contato com essa batalha pela reabertura política e pela democracia no País esteja no recém-lançado livro Tancredo Neves: a noite do destino, do jornalista José Augusto Ribeiro, com substanciosas 868 páginas (a R$ 80,00). Ribeiro, que atuava como editor-chefe de O Globo, foi o assessor de imprensa de Tancredo na campanha e, como tal, testemunha de quase todos os passos do candidato. 

Publicidade

Além disso, por ter tido acesso privilegiado às informações sigilosas que circulavam de parte a parte, sobre intrigas e ameaças dos grupos que defendiam a continuidade dos militares no poder, imprime ao texto um tom raras vezes encontrado em obras biográficas ou que se ocupam de resgatar o passado na política.

TANCREDOU

O que fica mais transparente na sólida reportagem, que ocupou 20 anos de pesquisas e entrevistas, é o profundo senso ético e de justiça que dominava o pensamento de Tancredo. E o quanto a população viu e intuiu nele a força e a vontade para as mudanças necessárias, na re-democratização. O Brasil inteiro “Tancredou”, se dizia na época.

Publicidade

Nele estava a personalidade típica atribuída ao mineiro: discreto e conciliador. Filho de família sem posses, ficou órfão de pai ainda novo, e a mãe precisou cuidar da prole sozinha. Tancredo, estudioso e leitor dos clássicos, teve apoio de parentes para ir a Belo Horizonte cursar Direito. Formado, e de volta à terra natal para advogar, ingressou na política, da qual não mais saiu.

Eleito deputado federal para o exercício a partir de 1951, chegou ao Rio. Seu papel de liderança resultou no convite de Getúlio Vargas para que se tornasse ministro da Justiça e de Negócios Interiores, função que exerceu até o suicídio de Vargas – a cujo quarto, na manhã fatídica de 24 de agosto de 1954, foi um dos primeiros a chegar. Anos depois, com a renúncia de Jânio Quadros à presidência, em 1961, Tancredo foi determinante a fim de convencer o vice, João Goulart, o Jango, a aceitar a mudança do sistema político, adotando o parlamentarismo. Seria a única forma de frear um golpe militar. Com o aceite de Jango, Tancredo acabou por se tornar primeiro-ministro.

Esses passos só fortaleceriam a imagem pública de Tancredo, que se viu levado aos bastidores com o advento da ditadura, em 1964. No entanto, paciencioso como era, soube esperar sua hora e liderar o processo de reabertura. Só não contava que, eleito presidente por voto indireto em 15 de janeiro, viesse a adoecer na véspera da posse, e com a convalescença que o levou, em 21 de abril de 1985, vítima de diverticulite. A impressão que se tem, olhando para trás, é que o Brasil ficou, ali, irremediavelmente órfão – e que ainda segue tentando encontrar um rumo, uma luz, algum sinal de esperança.

Publicidade

TI

Share
Published by
TI

This website uses cookies.