Já foram quatro confrontos em Copas, mas a Seleção Brasileira jamais perdeu para os escoceses
Aidir Parizzi
Especial para a Gazeta do Sul
Quando pisei pela primeira vez na Escócia, logo tive a sensação de estar em casa. A hospitalidade, a sinceridade e a simpatia dos escoceses foram fatores decisivos, mas também a situação geográfica e política contribuiu para isso. O sentimento de acolhida cresceu nos sete anos divididos entre a capital, Edimburgo, e a principal cidade das Terras Altas (Highlands), Aberdeen.
Como uma espécie de antípoda boreal do Rio Grande do Sul, encontrei características comuns, como o isolamento regional, o frio, a vastidão da paisagem, o sotaque marcado e, nos últimos séculos, uma filiação complexa e por vezes contrariada a um distante governo central. Tal qual milongas nos acordeões rio-grandenses, as canções melancólicas e pungentes das tradicionais gaitas de fole são lamentos que clamam por tempos mais remotos de uma nação que já foi poderosa e independente.
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Entre os escoceses que fizeram história no Brasil, alguns merecem destaque: Thomas Alexander Cochrane foi o fundador da Marinha brasileira, recebendo de Dom Pedro I o título de Marquês do Maranhão. Richard Carruthers foi sócio e maior financiador de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá; juntos, fundaram a instituição que se tornaria o atual Banco do Brasil.
Vale lembrar que no mundo desportivo o Reino Unido participa em associações que dependem do esporte. Nas Olimpíadas, compete como Equipe GB, e atletas da Irlanda do Norte podem optar por participar pela República da Irlanda. No Rugby, a ilha da Irlanda está unida, incluindo a Irlanda do Norte, enquanto Escócia, País de Gales e Inglaterra concorrem separadamente. As Irlandas também se unem no críquete, onde Inglaterra e País de Gales formam uma só equipe. Já no futebol, as quatro nações disputam isoladamente. Nesta Copa, Escócia e Inglaterra representam o reino de Charles III.
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A Escócia é também um país de inventores: Alexander Graham Bell e o telefone, James Watt e o motor a vapor, John Dunlop e o pneumático, John MacAdam e o asfalto, Alexander Fleming e a penicilina, John Napier e os logaritmos, entre tantos outros. Diante de tamanha criatividade, não podemos descartar uma surpresa na partida de logo mais.
Por falar em inovação, convidei um grande amigo e conterrâneo para colaborar neste conteúdo especial. Carlos Humberto Kaercher formula suas análises futebolísticas com doses sempre precisas de bom humor, além de relevantes fatores culturais e históricos.
Carlos Humberto Kaercher
Especial para a Gazeta do Sul
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Em 2014, a Escócia foi “aconselhada” por Londres a não se separar do Reino Unido. Política à parte, após 28 anos ausente de uma Copa, tentará um improvável “crime” contra o Brasil. O treinador Steve Clarke não nasceu ontem e sabe que, mesmo precisando somar pontos, é temerário tentar jogar de igual para igual.
Aproveitando a forte compleição de seus atletas, fará um jogo mais defensivo e de imposição física, com áridos entrechoques, o que historicamente é indigesto aos canarinhos. Se mantiver o empate até faltarem cerca de 15 minutos para o final, a estratégia muda radicalmente. Será adotada tática típica de times do interior no Gaúchão: o conhecido “abafa”, que consiste em que qualquer bola parada a partir do meio-campo seja lançada à área, com nove ou até dez jogadores indo ao seu encontro, buscando o gol a qualquer preço.
No caso de classificação escocesa, haverá muita celebração na bela capital, Edimburgo, e em diversas cidades, como: Aberdeen (região de natureza exuberante e baixa densidade populacional), Glasgow (maior cidade do país e berço dos irmãos Young, fundadores da gigantesca banda AC/DC), Kirkcaldy (terra natal do pai da economia moderna, Adam Smith), Dunfermline (cidade da mundialmente famosa banda Nazareth e cuja Abadia guarda o corpo de Robert the Bruce, famoso rei escocês) e Inverness (base para quem vai visitar a região do Lago Ness).
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Diga-se de passagem, a comemoração será regada a generosos “pints” de cerveja e doses de uísque local de qualidade indiscutível, sempre acompanhados do “haggis” (prato típico, à base de miúdos de ovelha moídos com cebola, aveia e temperos). Falando em iguarias, no Miami Stadium só não será servido o delicioso cachorro-quente de linguiça colonial, uma exclusividade dos estádios dos Eucaliptos e dos Plátanos.
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