Guardo uma camiseta antiga. Dessas que a gente tem pena de ficar usando a toda hora. Fica quietinha num canto do armário. Me parece que espera por uma oportunidade, como a do amanhecer do dia 19 de janeiro.
Acordei pensando na bússola que havia procurado no dia anterior. Claro, não a encontrara. Isso costuma acontecer com as coisas que colocamos em algum lugar para não esquecer. Mas não foi só da bússola que me perdi. Também de um registro fóssil. O mesmo que fora encontrado por volta do ano de 1978 junto à estrada geral que liga Santa Cruz do Sul a Rio Pardo, a “estrada velha”, em local próximo aos eucaliptais do Capão da Cruz onde nossa família trabalhava com apicultura. Nos intervalos entre a revisão dos apiários, costumávamos, ao lado dos irmãos, percorrer os barrancos avermelhados das margens da estrada. Nossa expectativa estava voltada às concreções, nódulos rochosos de labirínticos desenhos, e aos fósseis. Num entardecer mágico nos deparamos com as vertebras e o crânio de um Dycinodonte. Foi um momento de êxtase respeitoso. Estar junto ao que restara de uma criatura que chegara antes dos dinossauros se sobressaírem foi algo único.
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Lembremos que nos anos 70 não se falava em celular. Porém, não tardamos em conseguir uma máquina fotográfica e assim registramos o achado. Porém, por mais que procure não encontro a imagem com o crânio. Já consultei álbuns, caixas, envelopes; folheei livros, pois poderia estar entre uma página e outra. Revirei o que deu. Nada da fotografia do fóssil, mesmo quando penso ter achado a sua pista. Algo me assegura que ela vai acabar aparecendo, a seu tempo.
Nisso, ao procurar uma camiseta, me deparo com aquela que ficara num canto do armário. A camiseta com uma grande bússola impressa na parte da frente. Duvidei um pouco. Era dia para vestir uma roupa com orientações geográficas? Sim, por certo que sim. Justamente por estar completando 74 anos cabia a veste norteadora.
Impossível não revisitar a trajetória e traçar perspectivas quando se completa 74 anos de idade. Quantos acontecimentos dos quais nos orgulhamos, de outros nem tanto, e de muitos mais a serem vivenciados? Talvez a gente se assemelhe à fotografia do fóssil. Sabe-se que ela existe, mas que, feito nuvem que desce e sobe as encostas da vida, ora se faz mais nítida, ora quase encoberta.
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Quanto ao fóssil em si, quem sabe, ao vê-lo naquela margem de estrada, o tenhamos despertado de um sonho multimilenar erodido pelas exacerbações dos tempos em curso. Não teria vindo nos avisar que podemos estar seguindo o mesmo caminho?
Retornei o olhar para a bússola impressa na camiseta. Preciso reencontrar os registros fossilizados que me habitam. Eles têm muito a dizer sobre o futuro de inusitados e desafiadores nortes. Ailton Krenak já disse: o futuro é ancestral.
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GRATIDÃO!
O texto “Vera enxerga beleza e vigor” (jornal Gazeta do Sul, 17 e 18 de janeiro de 2026, p. 15) tem recebido imensa acolhida. Sensibilizada, Vera agradece. Quantas pessoas se percebem com ela identificadas, nutridas de assemelhadas angústias e esperanças?
Aproveitamos para dizer um muito obrigado às estimadas(os) leitoras(es) desta coluna e à Gazeta pela oportunidade renovada por tantos anos.
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REUNIÃO
No próximo dia 11 de fevereiro, teremos nossa reunião pública do Conselho de Gestão Socioambiental. O encontro acontecerá entre as 16 e 17 horas, na sala de reuniões da Secretaria do Planejamento.
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