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Camila Pavani: por uma polícia que acolhe

No cotidiano da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Santa Cruz do Sul, a comissária de Polícia Camila Pavani transita diariamente por histórias atravessadas pelo medo, pela dúvida e pela coragem de quem decide falar. 

Aos 43 anos, e com 18 de atuação na Polícia Civil, Camila construiu uma trajetória marcada pela firmeza institucional, mas também por um cuidado que começa antes mesmo do registro da ocorrência.

“O comissário de Polícia é o ápice da carreira de um escrivão ou inspetor de Polícia do Rio Grande do Sul.” Camila ingressou na Polícia Civil em 2008, após concurso para escrivã. Desde então, passou por diferentes delegacias no interior do Estado, até chegar a Santa Cruz, onde estabeleceu uma relação profunda com a cidade e com o trabalho desenvolvido na Deam.

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“No meu caso, faço o acolhimento das vítimas; registro de ocorrência, inquérito; encaminhamento para exame de corpo de delito, conforme determinação da autoridade policial; cumprimento de mandados de busca e apreensão e de mandados de prisão. É uma atividade bem ampla”, relata a comissária. Em delegacias do interior, explica, as atribuições do cargo não são tão divididas, e os agentes desempenham praticamente a totalidade delas.

Natural de Porto Alegre, Camila viveu parte da juventude em Santa Maria e chegou a Santa Cruz do Sul em 2013. “Eu adoro Santa Cruz”, enfatiza. Essa proximidade com a comunidade, segundo ela, também se reflete no trabalho policial. “Gosto muito de me comunicar com as pessoas. Isso abre muitas portas.”

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Apesar da forte atuação na violência doméstica, Camila admite que, no início da carreira, não se imaginava trabalhando na Deam. “Quando eu estava na Academia de Polícia Civil do Rio Grande do Sul (Acadepol), sempre pensei que nunca iria trabalhar na Deam.” O destino, no entanto, seguiu outro caminho. “Acabei na Deam, me identificando com o tema. As mulheres merecem respeito, principalmente dentro de seu lares.”

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Ao longo do tempo, a atuação foi além do trabalho formal. Um dos exemplos é o projeto Amigas da Deam, iniciativa construída em parceria com empresárias da cidade para ampliar o acolhimento às mulheres vítimas de violência. 

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O projeto capacita equipes para oferecer escuta inicial e orientação adequada às mulheres. “A principal ajuda que uma pessoa pode dar à vítima de violência contra a mulher é ouvi-la”, afirma Camila. Além disso, as empresas participantes contribuem financeiramente para melhorias na estrutura da delegacia relativas ao acolhimento das vítimas.  

Na prática policial, Camila defende que cada caso seja tratado com atenção individualizada. “Cada pessoa tem uma história, cada pessoa precisa de uma orientação diferente.” Essa lógica também orienta o uso do Programa Mediar, método de mediação aplicado em Santa Cruz do Sul, inclusive em casos de violência doméstica, quando há possibilidade legal e segurança para a vítima. 

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Além da atuação na Deam, Camila participou de investigações de grande impacto, como o desmantelamento de esquema de desvio de recursos na Associação de Auxílio aos Necessitados e Idosos (Asan). “Foi uma das ações que mais me marcou. Depois de conclusas as investigações, vimos diferença na vida das pessoas e um brilho diferente no olhar de residentes e funcionários.”

Fora da delegacia, a comissária encontra no exercício físico uma forma de equilíbrio. “Eu gosto de praticar crossfit, pilates, corrida. É onde desopilo.” Mãe de dois filhos, Camila define a rotina como intensa, mas gratificante. “Eu gosto do que faço. É um trabalho difícil, pesado, mas recompensador.”

Para mulheres que sonham seguir carreira na Polícia Civil, Camila deixa um conselho direto: “Focar nos estudos, principalmente português e legislação, sem esquecer da prova física. E o mais importante: ter vocação!” Camila completa: “É um trabalho que permite várias atuações, temas diversos e delegacias diferentes. Temos uma vivência ampla.”

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Linha de frente

Violência doméstica em números

Em 2025, a Deam de Santa Cruz do Sul registrou 2.623 ocorrências. Deste total, 1.118 inquéritos policiais foram instaurados e 1.377 remetidos ao Judiciário. Aproximadamente 55% das ocorrências da cidade estão relacionadas a violência doméstica e a crimes atribuídos ao Cartório do Idoso. No período, 590 medidas protetivas foram deferidas.

Projeto Amigas da Deam

Criado a partir da parceria entre a Polícia Civil e empresárias de Santa Cruz do Sul, o projeto Amigas da Deam capacita equipes para oferecer escuta inicial e orientação a mulheres vítimas de violência. As empresas participantes contribuem com apoio financeiro para melhorias estruturais na delegacia e ajudam a aproximar a comunidade da rede de proteção.

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carolina.appel

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