Romar Beling

Chuvafobia: o novo normal

Os últimos dias (as últimas semanas) no Rio Grande do Sul têm confrontado os gaúchos com o seu pior pesadelo: as enchentes. Não importa em que momento, por vezes alta madrugada, certamente milhares de pessoas caminham dentro de casa, insones, sobressaltadas por relâmpagos, trovões, ventania e, claro, pelo incessante barulho da chuva. Esse som, que em outros tempos embalaria um sono confortante e reparador, hoje se traduz em angústia, pavor. Já não seria despropósito cunhar, no Estado, a expressão “chuvafobia”, o medo causado por aquilo que, em essência, deveria ser anúncio de safra boa ou da água que fauna e flora precisam para sobrevivência. Os gaúchos estão traumatizados.

No entanto, em quase todas as demais áreas da rotina em sociedade, quando um problema se apresenta, costuma haver esforço imediato de reparação. A humanidade, ao longo dos séculos, soube ser previdente a ponto de contornar obstáculos. Mas parece que agora ela bateu num teto, num limite: não só não está sabendo (ou não está conseguindo, ou não está querendo) desviar da ameaça climática, do aquecimento global, da poluição e degradação do planeta, como caminha em direção ao fogo como mariposa em voo cego.

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Na literatura seria possível recorrer a metáfora oportuna: o romance Ensaio sobre a cegueira, do Nobel português José Saramago. Poucos livros talvez digam tanto sobre o ser humano, sobre nossa sociedade, do que esse: não é que estamos cegos; é que nos cegamos voluntariamente. Deixamo-nos engambelar por ilusionistas que desdizem o drama da natureza, alguns dos quais firmemente entronados em cargos que muito poder conferem no planeta, e replicamos, convenientemente, na rotina, seu modus operandi, nada preocupado ou interessado em bem-estar social ou em segurança coletiva.

Vivemos e cada vez menos sobrevivemos (adoecendo o corpo e a alma) nesse mundo cego para as evidências da catástrofe ambiental, e já não temos olhos (mentes) para ler nem o acima citado nem outro romance de Saramago: Ensaio sobre a lucidez. Se isso ainda conseguíssemos, veríamos que a solução contra ameaças climáticas, enchentes e chuvas não está em gabinete de governo. Isso nada resolve e tem sido apenas retórica vazia, anunciando que amanhã ou semana que vem haverá nova chuva torrencial, novo alagamento, que virá mesmo. Na prática, rios continuam assoreados, mata ciliar segue suprimida, lixo segue vindo pela correnteza…

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A solução não estará em nenhuma medida longe de nós: está na forma como cada pessoa, cada família, cada condomínio, os moradores de cada rua e de cada bairro, lidam com o meio ambiente. Estão derrubando árvores, limpando encostas, devastando matas ciliares, espalhando lixo? Não estaria na hora de moradores, todos juntos, reagirem e manifestarem seu sonoro e definitivo “chega”? Se toleramos quietos o crime ambiental (que se traduz em enchente), somos cúmplices e coniventes. A esperança de sobrevivência, de vida digna, de bem-estar, não virá de longe de nós, mas unicamente do mundo em que vivemos, coexistimos e coabitamos. “Pense nisso”, diria Saramago. Ou siga fazendo vista grossa, olhando para o outro lado, até a hora em que a água ou a lama invadirem o quarto de madrugada.

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Romar Behling

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