Caro Armando, 

Estás completando dez anos de Alemanha! Eu me lembro vivamente daqueles dias decisivos de junho de 2016. Curiosamente, também eu estava passando por uma transição, mas no sentido contrário. Eu voltava da Alemanha enquanto tu ias para lá. Terminada minha estadia em Colônia, eu estava de volta ao Rio Grande do Sul e enfrentava a pressão por uma recolocação acadêmica e profissional, que, contra fundadas expectativas, não vinha nunca. Alguns meses depois, não tinha como recusar o convite do meu amigo e ex-colega de faculdade, o Amaral, para voltar a trabalhar no Ministério da Justiça em Brasília. A retomada de uma posição acadêmica que esperasse.

E lá fui eu, 12 anos depois, assumir mais um desafio na capital brasileira. Desembarquei no dia 13 de junho de 2016, cedinho, e fui direto ao Ministério, com mala e cuia. Caberia a mim auxiliar no funcionamento truncado da casa de máquinas daquele monstro. Sim, digo monstro, porque a Secretaria Executiva do MJ naquela época coordenava mais de vinte órgãos, Funai, Polícia Federal, Mulheres, Igualdade Racial, Consumidor, Estrangeiros…

Publicidade

E cada um com centenas de demandas administrativas e políticas, algumas de fato urgentes; muitas, urgências fabricadas. Na tarde desse mesmo 13 de junho, numa adaptação relâmpago, já estava com o web.whatsapp acionado numa das telas do computador respondendo a consultas de senadores enquanto ao telefone lidava com a histeria do chefe de gabinete da Secretaria de Direitos Humanos angustiado com a ameaça de encerramento súbito do Disque 100 caso o ministro não assinasse naquela mesma tarde um determinado documento… ufa, foi um dia longo.

Tirando o Amaral, todos os colegas de trabalho eram novos para mim. Um deles era uma figura: o Dr. Agostinho, um tributarista carioca de fala empolada. Embora fosse o mais velho do grupo, tratava a todos com exagerada solenidade. Eu achava aquilo muito estranho.

Passados dois anos, dei razão ao Dr. Agostinho e incorporei seu método: na vida pública é assim mesmo que devemos tratar os colegas de trabalho e as pessoas em geral, com permanente respeito e boa dose de formalidade; pouco importa se somos jovens, colegas de turma ou parceiros do futebol.

Publicidade

Alguns dias depois recebi a notícia da tua admissão na Becker. Entrei eufórico na sala de reuniões comunicando que meu irmão engenheiro tinha conseguido um emprego na Alemanha. Foi como uma cena do filme Billy Elliot, em que o pai do menino chega alucinado de alegria por ter o filho sido aprovado numa seleção em Londres, ao que os amigos, entristecidos com o desfecho de uma greve malsucedida, não dão bola para a boa nova.

E assim foi, o pessoal me olhou, um mineiro deu os parabéns discretamente do fundo da sala e ficou por isso. Mas internamente eu estava explodindo de felicidade pelo teu feito. A história que me contaste, quando te perguntaram no fim da entrevista sobre a disponibilidade de começar caso te contratassem, guardo até hoje como lição. Tu respondeste: “Onde fica o banheiro?” Eles, perplexos, disseram: “Saindo da sala, segunda porta à esquerda”. E tu concluíste: “Pois é só o tempo de passar uma água no rosto e posso começar agora mesmo.” Quando eu saí da sala de reunião, o Dr. Agostinho me pegou pelo braço e disse: “Dr. Rafael, receba meu cálido encômio pelo êxito retumbante de vosso irmão nesta memorável jornada.”

Que semana foi aquela. Forte abraço!

Publicidade

LEIA MAIS DE CULTURA E LAZER

QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!

Publicidade

Karoline Rosa

Share
Published by
Karoline Rosa

This website uses cookies.