Um abraço apertado. Foi assim que o Magazine definiu Pequenas Criaturas, longa-metragem nacional que chegou aos cinemas no fim de julho. Ambientado em Brasília, em 1986, o filme acompanha Helena (Carolina Dieckmann) e os filhos André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello) durante um período de mudanças que transforma a relação entre eles. Enquanto a mãe questiona as escolhas que fez ao longo da vida, os dois meninos enfrentam as descobertas, as inquietações e frustrações que marcam a passagem da infância para a adolescência.
A história nasceu das lembranças de infância da diretora e roteirista Anne Pinheiro Guimarães, que transforma experiências pessoais em uma narrativa sensível sobre família, amadurecimento e identidade. É o segundo longa da cineasta, que atua no audiovisual há mais de 20 anos. Ela trabalha a partir da perspectiva feminina, explorando identidade, desejo e questões existenciais.
O longa também marca mais um trabalho de destaque de Théo Medon, de 16 anos, que constrói um protagonista contido, cuja transformação acontece muito mais nos silêncios do que nas palavras. O adolescente começou a carreira no audiovisual aos 6 anos e já atuou em filmes, novelas, séries.
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Em entrevista exclusiva ao Magazine, Anne revela como a maternidade e as memórias da própria mãe deram origem ao roteiro e explica por que acredita que a trajetória de Helena dialoga com as mulheres de hoje. Já Théo conta como foi mergulhar no universo dos anos 1980 – aprendendo as danças da época – e o desafio de interpretar um adolescente que expressa quase tudo sem dizer uma palavra.
Anne Pinheiro Guimarães – (Risos) Muito obrigado. A tragédia não se concretizou. Foi anunciada. É uma reação geral porque tu não esperas isso. Isso é muito a coisa da vida. Passamos por diversos perigos. Na verdade, estamos sempre evitando os grandes perigos da vida e interpretando as pessoas de forma errada, sabe?
Comecei a pensar durante a maternidade, quando tive a minha primeira filha. Eu já tinha perdido a minha mãe – e o filme é dedicado a ela – e sentia falta dela naquele momento. Pela primeira vez na vida, comecei a pensar muito nela não como mãe, mas como mulher. Antes de ter um filho, não pensava em criança um minuto da minha vida. Antes de ficar grávida, nunca tinha visto uma grávida. Depois que fiquei, só via grávidas pelas ruas.
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Por causa da minha filha, comecei a pensar nessas coisas e na minha infância. E aí comecei a escrever o roteiro. Só depois de escrever, percebi que eu cheguei em Brasília com a idade do Dudu e fui embora com a idade do André. Mas eu acho que escolhi as duas idades porque é onde nós mudamos mais. Quando saímos da infância, perdemos um pouquinho da nossa inocência. E quando entramos na adolescência, mudamos muito. E a Helena muda muito…
Penso que a Helena passa por uma coisa que acontece muito conosco, mulheres e mães: o nosso eu, nossos desejos e nossas vontades ficam adormecidos por muito tempo. E nós vamos meio que dando conta das coisas no piloto automático. Isso é muito do feminino contemporâneo, das mulheres que são obrigadas a dar conta de uma família inteira.
Théo Medon – Existe no filme essa relação familiar que é muito doida. Você tinha uma sensação de liberdade e de que podia ir para a rua sem essa vigilância dos seus pais. E, ao mesmo tempo, você tem um tempo ocioso, precisa lidar com o tédio e com o não fazer nada, que é uma coisa que eu não tenho que fazer. Acho que, inclusive, essa relação da vida do adolescente conversa muito com o tom do filme, muito contemplativo, sobre a vida que dá esses tempos para você refletir, para pensar.
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Então, foi como viver outra vida, entendeu? Aprender a acalmar, a respirar e ver a vida em outro tempo, enxergar os silêncios de outra maneira, sabe? Muito mais para além dessas referências, claro, de mobilete, de fita cassete…
Anne – Tive que ensinar o que era um classificado no jornal e como era dançar nos anos 1980. Eles não sabem dançar. (Risos)
Théo – Nós colocamos uns passinhos do Tik Tok. (risos). Nada a ver. Mas foi isso. Vivemos em Brasília um processo de imersão completo. Ficamos quase 50 dias lá entre a preparação e a gravação do filme. Foram dias que o André tomou mais conta de mim, sabe?
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O mais difícil é expressar no pouco, no pequeno. E o André é muito isso: ele é pouco expressivo no rosto e na fala. Então, o caminho foi como fazer o público saber o que ele está sentindo e o que está pensando mesmo sem dizer. Atuar no silêncio é muito difícil, complicado. Esse foi o grande desafio, vibrar nessa frequência do André para eu entender até onde poderíamos ir com ele a partir dessa questão da expressividade e silêncio, equilibrando com essa evolução que ele tem durante o filme, no qual vemos essa personagem desabrochar.
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