Cultura e Lazer

De entretenimento a crítica política: por que “Tropas Estelares” segue atual

Em 1997, chegou aos cinemas Tropas Estelares, uma aventura de ficção científica sobre uma batalha galáctica entre os humanos e insetos gigantes. Na trama, a Terra vive em um regime militar. Para ser cidadão, ter direitos básicos (e até ter filhos), é necessário juntar-se à Federação como um soldado na sangrenta guerra espacial.

Na escola, os estudantes aprendem sobre a “queda da democracia”. O professor ensina que a força bruta resolveu mais problemas ao longo da história. É nesse contexto que conhecemos Johnny Rico, um jovem argentino de uma família abastada prestes a se formar no colegial. Contrariando os pais, ele decide alistar-se na infantaria móvel para conquistar uma garota. Em meio a dramas românticos, um ataque mortal dos insetos destrói Buenos Aires, matando a família de Rico. O jovem é então jogado na guerra espacial, na qual ele e seus companheiros são meros objetos descartáveis para a Federação.

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À primeira vista, Tropas Estelares soa como uma ficção científica boba para crianças. Porém, sob a superfície, esconde uma ácida crítica ao fascismo e ao militarismo. O filme é inspirado no livro de Robert A. Heinlein, lançado em 1959, que curiosamente romantiza tal distopia e torna-a uma utopia.

A visão deturpada do escritor foi ridicularizada pelo roteirista Edward Neumeier e o diretor Paul Verhoeven. Os responsáveis por Robocop (que também é acusado de ser um mero filme violento) transformaram a polêmica obra em uma inteligente sátira à idolatria e à violência. E fizeram isso de uma maneira dúbia: por um lado, a dupla desenvolveu um protagonista carismático, com seus dramas e triângulos amorosos, que luta contra monstros alienígenas que desmembram humanos. As cenas de batalhas e a trilha sonora são épicas, algumas das melhores já feitas.

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Tudo isso, segundo o diretor, foi intencional, para seduzir os espectadores, mas deixava claro que eles estavam admirando algo maligno. “Queríamos contar uma história dupla, uma aventura realmente maravilhosa sobre esses jovens rapazes e moças lutando, mas também queríamos mostrar que essas pessoas estão, no fundo, sem saber, a caminho do fascismo”, explicou Verhoeven.

Contudo, a alusão ao fascismo não era subjetiva: as propagandas, os noticiários, os uniformes, tudo deixava a referência explícita. Os oficiais da Federação utilizam trajes idênticos aos dos nazistas, indicando que havia algo seriamente errado. Tal decisão criativa, entretanto, não foi compreendida. Curiosamente, na época em que o filme foi lançado, parte da crítica e do público não entendeu o tom sarcástico. Ironicamente, muitos acabaram criticando Verhoeven e Neumeier. acusando-os de… defender o neonazismo.

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Em 2026, ficção está menos estranha do que a realidade

Será que, após tantos anos, aqueles que criticaram o longa-metragem e seus criadores teriam a mesma opinião? Afinal, o mundo vive um contexto político totalmente diferente de 1997, com discursos e situações que se assemelham muito ao que é visto em Tropas Estelares.

É assustador imaginar que um filme sobre batalhas espaciais contra insetos gigantes lançado há décadas deixou de ser um mero entretenimento para se tornar um alerta sobre o nosso futuro. Basta olhar para 2026: estamos ainda no primeiro trimestre, mas olhamos com aflição enquanto líderes megalomaníacos invadem e atacam nações. Em seus discursos, desumanizam a população dos países bombardeados, tratando-os como insetos. O ufanismo também nunca esteve tão em evidência. Políticos utilizam o patriotismo exacerbado para justificarem as maiores atrocidades pelo bem da nação.

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É interessante a maneira como Verhoeven evidencia o desprezo da humanidade pelas criaturas extraterrestres: uma propaganda militar, disfarçada de jornalismo, mostra crianças pisando com força em insetos enquanto uma professora aplaude. Tal cena pode soar exagerada. Porém, basta uma rápida vasculhada nas redes sociais para entender o impacto do discurso ideológico militar, que já tomou conta de crianças e adolescentes, que tratam como inferiores aqueles que são atacados.

A crítica à imprensa vista no filme, uma vez que a mídia é aparelhada pela Federação e a sua visão ideológica, também torna-se contundente. Diante dos ataques sofridos por fanáticos extremistas, que levaram à descredibilização do jornalismo, muitos veículos de comunicação, na tentativa de conciliação e no medo de represálias, tornaram-se meras ferramentas para ampliar o discurso fascista dos senhores de guerra, por mais absurdas que sejam as afirmações.

Passadas quase três décadas desde o lançamento no cinema, Tropas Estelares pode até ser criticado pelos efeitos digitais que, para os padrões da atualidade, podem ser considerados ultrapassados. O mesmo, entretanto, não pode ser dito de sua mensagem. Ao ironizar a história criada na década de 1950, expondo o fascismo por trás da suposta utopia, Verhoeven e Neumeier acabam, acidentalmente, transformando uma ficção científica em um retrato extremamente fiel ao mundo contemporâneo. A realidade, contudo, é mais ameaçadora.

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Julian Kober

É jornalista de geral e atua na profissão há dez anos. Possui bacharel em jornalismo (Unisinos) e trabalhou em grupos de comunicação de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

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