Cultura e Lazer

Documentário evidencia legado do percussionista Paulinho da Costa

O maior percussionista do mundo. É assim que Michael Jackson, o Rei do Pop, classificava Paulinho da Costa. O músico carioca, dono de um sorriso inconfundível, deixou sua marca na música mundial, tocando em mais de 6 mil faixas e gravando com 927 artistas, muitos deles lendas. Em uma carta, Whitney Houston escreveu que “certamente Deus tocou esse mestre da percussão”, ao se referir a Paulinho.

Apesar de ter sido o responsável por trazer o som mais próximo da batida do coração para muitos sucessos musicais, o percussionista brasileiro pode ser considerado um dos músicos mais famosos de que a maioria nunca ouviu falar. Ao menos até agora: em cartaz na Netflix, o documentário The Groove Under the Groove: O Som de Paulinho da Costa chega para evidenciar o legado do músico.

O lançamento antecede outro momento ímpar na vida do músico: no dia 13 de maio, o trabalho de Paulinho será reconhecido internacionalmente ao ter seu nome na calçada da fama em Hollywood. Trata-se do primeiro brasileiro nascido no País a alcançar tal feito. 

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A convite da Primeiro Plano, a Gazeta do Sul assistiu com exclusividade à obra e entrevistou o diretor e roteirista Oscar Rodrigues Alves. Responsável também pela edição do longa-metragem, o cineasta desenvolve uma narrativa criativa e bem ritmada para narrar a trajetória de Paulinho, desde sua infância pobre em Irajá, no Rio de Janeiro, passando pela mudança para os Estados Unidos, até a consagração como percussionista. 

Tímido e de poucas palavras, Paulinho (que por anos rejeitou a ideia de um documentário sobre sua carreira) faz um depoimento marcante e emocionante, revelando fatos e contando histórias curiosas de como elaborou a percussão em diversas obras. Não faltam depoimentos inesquecíveis, a começar por Quincy Jones, um dos nomes mais importantes da música internacional, gravado pouco tempo antes da sua morte, em 2024.

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Quincy revela a Paulinho, e ao espectador, a origem do primeiro tambor na África, inventado para imitar o som de um trovão na tentativa de criar chuva e produzir comida. “Porque eles não tinham comida, era necessidade. Não tinha nada a ver com criatividade. Eles precisavam comer”, afirmou o produtor. 

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Quem também aparece é o músico George Benson, além de Ray Parker Jr., Bill Withers, o produtor will.i.am e o compositor Lado Schifrin. Há ainda os depoimentos de artistas brasileiros, incluindo Roberto Carlos, Zeca Pagodinho e Ivete Sangalo. 

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São falas marcantes que reiteram o talento do brasileiro, que, para os artistas, coloca nas músicas o seu sorriso contagiante. Os depoimentos, sobretudo os de grandes nomes internacionais, demonstram o reconhecimento de Paulinho da Costa no cenário mundial, despontando como uma referência no que se refere ao percussionismo. 

Uma oportunidade para recordar alguns clássicos

Músico brasileiro receberá uma estrela na calçada da fama em Hollywood

A música é um destaque à parte em The Groove Under the Groove. Para demonstrar a participação de Paulinho em alguns dos maiores clássicos, o cineasta Oscar Rodrigues Alves filma o artista em um estúdio tocando grandes clássicos, incluindo Dreamer, de Ella Fitzgerald; I Will Survive, de Gloria Gaynor; e Don’t Stop ‘Til You Get Enough, de Michael Jackson, entre outros. 

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São momentos em que fica claro que, de fato, o artista coloca o coração e o sorriso nas faixas, adicionando um molho especial nas canções. Há ainda uma jam session inesquecível, na qual Paulinho reúne Bill Withers, afastado dos microfones há anos, e Ray Parker Jr. para tocar uma música. 

Tudo isso faz com que The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa se torne não apenas um documentário interessante para assistir e rever, mas também importante para a cultura brasileira. 

Ao evidenciar o talento de Paulinho, o longa-metragem demonstra como os artistas e a música nacional são reverenciados no cenário mundial. Isso acaba por referendar e beneficiar todo o cenário cultural brasileiro, para além da música, contemplando outros segmentos. Desse modo, o trabalho de Oscar Rodrigues Alves torna-se não só um filme imperdível, mas necessário. Ao dominar as ferramentas visuais e musicais para compor a narrativa, o diretor entrega uma obra para deixar os brasileiros orgulhosos.

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“É uma admiração que vem de quase cinco décadas”

Nascido em 29 de setembro de 1969, em São Paulo, Oscar Rodrigues Alves tornou-se uma referência no mundo musical. Dirigiu diversos videoclipes, incluindo Epitáfio, dos Titãs, vencedor de vários prêmios. Alves também foi responsável por escrever, dirigir e editar o documentário Titãs – A Vida até Parece uma Festa, que reforçou seu talento no gênero.

Em entrevista exclusiva à Gazeta do Sul, o cineasta detalha as origens do documentário e os bastidores da produção. Revela ainda os momentos mais marcantes como fã de música e os planos para o futuro.

“O legado dele é gigantesco”, afirma o cineasta acerca de Paulinho da Costa

Entrevista – Oscar Rodrigues Alves, Diretor, roteirista e editor do documentário

  • Gazeta do Sul – Como surgiu a ideia de contar a história de Paulinho da Costa?

Oscar Rodrigues Alves – Conheço o trabalho do Paulinho desde 1979. Entrei em uma loja para comprar meu primeiro álbum e começar minha coleção de vinil. Comprei o All ‘N All, da banda Earth, Wind and Fire, que abre com Serpentine Fire. Achei o som incrível. Já havia achado sensacional todo o projeto gráfico, do Shusei Nagaoka, meio egípcio e meio japonês. A hora que entrou o som, não acreditei. Um arranjo cheio de metais, de cordas, percussão e vários vocais. 

Enquanto ouvia a música, comecei a ler os créditos e estava lá: Paulinho da Costa na percussão. Falei: “Caramba, esse cara só pode ser brasileiro”. E o nome dele começou a aparecer frequentemente nas músicas de que mais gosto. Ali nasceu um fã. É uma admiração que vem de quase cinco décadas. 

  • Como foi o processo de pesquisa para um artista com carreira tão extensa e internacional?

Queria muito fazer um documentário sobre o Paulinho. Mas ele não queria. Durante seis anos, ele foi me empurrando com a barriga. É um cara muito na dele e muito tranquilo. Ele tem uma vaidade que preza pela obra, pela escolha dos instrumentos e a atitude. É uma vaidade que põe a música à frente, sabe? 

Até que o Quincy Jones, muito importante para a carreira do Paulinho, entrou em coma, devido a diabetes. Aí o Paulinho me convidou para um jantar em Los Angeles e falou: “Agora entendi a importância de deixar registrada a minha vida e a minha obra. Então, se você quiser fazer o documentário, estou disposto”. Ele marcou uma entrevista com o Quincy. Tive que começar a filmar antes de ter um roteiro pronto. 

Claro que eu já conhecia bastante a história musical do Paulinho. Começamos sem pesquisa, mas com um estofo que eu tinha de uma vida toda como fã. Após as duas primeiras semanas de filmagem, voltei para o Brasil, mostrei o que havia filmado para meus coprodutores. Todo mundo achou muito bacana e me mandaram de volta para Los Angeles, montar um time “World Class” e levar esse filme para onde ele precisava ir. 

  • Quais talentos integraram a produção do documentário?

Conversamos com muitas pessoas. O produtor Glenn Zipper, vencedor do Oscar de melhor documentário em 2012, encantou-se com o projeto. Ele trouxe o Bob Makela, que é corroteirista comigo, e o Douglas Blush, um supervisor de edição brilhante que já tinha dois Oscars, tendo ganhado o terceiro quando eu estava lá em Los Angeles. E o Doug trouxe o Kevin Klauber, um editor brilhante também. E eu sou um diretor-editor. 

De todas as habilidades que um diretor precisa ter, a edição é a que mais domino e de que mais gosto. Fizemos uma pesquisa muito grande e apresentei para eles tudo que já havia filmado. A partir daí, conseguimos realmente montar um roteiro bacana para o filme. 

  • Você mencionou a entrevista com o Quincy Jones, que traz um depoimento muito importante sobre a criação do tambor. Esse depoimento mudou o rumo do documentário?

Mudar o rumo não mudou, mas foi muito bacana. São as sortes que surgem no meio do caminho. Uma coisa que sempre quis fazer no filme era voltar ao estúdio com o Paulinho, com os instrumentos dele, e fazê-lo tocar os instrumentos que gravou nas faixas originais. Para que as pessoas possam ver o que ele estava tocando e como contribuiu com determinada faixa. 

A entrevista com o Quincy aconteceu no primeiro dia de filmagem em Los Angeles. E quando ele conta aquela fábula de por que o tambor foi inventado, falando sobre a seca muito grande na África e que as tribos queriam chamar a chuva replicando o som de um trovão para combater a fome. Comumente, ouvimos falar que o tambor foi criado para comunicação entre as tribos, o que também é verdade. Mas, quando você fala em fome, em subsistência e existência, a coisa muda de figura e torna-se mais importante. Torna-se, além de instrumento musical, instrumento de sobrevivência. 

O fato de a gente ter filmado o Quincy antes dessa sessão com os instrumentos do Paulinho no estúdio me deu a oportunidade de ilustrar, visual e musicalmente, aquela fábula que ele havia contado. Ou seja, mostrando que os instrumentos de percussão foram criados para imitar a natureza. E aí foi sorte mesmo fazer a entrevista antes de ir para o estúdio e deixar a presença do Quincy ainda mais bonita. 

  • Entre os entrevistados, qual foi o que mais te marcou?

Esse é fácil. Foi o Bill Withers. São dois, na verdade. Sou muito fã do Earth, Wind & Fire, como já te contei. Quando a gente estava ali com o Philip Bailey, gravando, eu estava dentro da sala de gravação. E o câmera do making of estava na técnica. A esposa do Paulinho falou para esquecê-lo e me filmar. ‘Ele deve estar dando cambalhotas dentro do estúdio agora’, ela disse. 

Foi maravilhoso estar com os caras do Earth, Wind & Fire. Mas o Bill Withers é um cara que no fim da vida tinha uma série de mistérios. Quando o Paulinho me falou que queria convidar o Bill para o filme, disse: “Oscar, só que o Bill não canta mais há bastante tempo. Não se sabe se é por uma questão física ou uma questão psicológica”.

Nós usávamos um microfone de lapela para as conversas, para a parte jornalística, e sempre tinha microfones próprios para captação dos instrumentos musicais e da voz dos cantores. E pediu para eu falar com o Moogie Canazio, nosso engenheiro de som, deixar um microfone de voz lá, porque não sabíamos o que poderia acontecer. 

  • E como fizeram para que o Withers participasse da jam session?

Filmamos no estúdio da residência do Ray Parker Jr. e ele me perguntou o que iríamos fazer. Respondi que abordaríamos alguns temas, como o racismo e o preconceito. E também falei que queria fazer um som. O Paulinho não havia tocado nenhum grande sucesso do Bill Withers, e escolhi Use Me. O Ray achou maravilhoso. No dia seguinte, eles conversaram de maneira muito veemente sobre o preconceito que sofreram ao longo de vários anos. 

A certa altura, o Bill pergunta se podemos encerrar. Eu estava operando a câmera dentro do estúdio, perto dele, e chego e pergunto se ele poderia apenas dizer as letras de Use Me. Em vez de cantar, pedi para ele dizer a letra. Ele concordou e fizemos aquela performance histórica junto com o Paulinho e o Ray Parker Jr., e todo mundo ficou emocionado. Nem quando o Bill entrou para o Hall da Fama ele cantou. Então, ele nos deu esse presente e saiu rapidamente do estúdio. Ninguém acreditou no que havia acabado de acontecer. E tudo por causa do Paulinho, tenho certeza. 

  • Qual o legado do Paulinho?

O legado dele é gigantesco. Quando você pensa na carreira do Paulinho, você pensa em um garoto de origem humilde, do Bairro Irajá, que chegou aonde chegou. Em breve, ele receberá uma estrela na calçada da fama em Hollywood, que é realmente um lacinho de ouro na carreira de tantas pessoas do cinema, da música, televisão e teatro. É um exemplo que precisamos tornar conhecido às pessoas.

Em um mundo de tanta violência, como esse em que vivemos hoje, tão difícil de se viver, é cada vez mais importante publicar o exemplo de uma pessoa que venceu na vida através da arte e da música, sem passar por cima de ninguém. Só fazendo bem, semeando amor. E quando você mostra para as pessoas, principalmente para nós, brasileiros, em faixas tão importantes para as nossas vidas.

Eu tenho 56 anos. Então, o Paulinho tocou na trilha sonora da minha geração, e de várias ao redor do mundo. Veja bem: ele não é o arranjador, não é o pianista, não é o guitarrista, não é o cantor, ele é um percussionista. Normalmente, a percussão é o último conjunto de instrumentos a gravar em uma música; usualmente a música já está gravada, e o percussionista vai trazer o molho. 

Trinca: Oscar (esq.), Quincy e Paulinho

E quando você vê os produtores atribuindo ao Paulinho a importância que eles colocam, você entende que esse cara realmente é muito especial. Ele poderia estar fazendo uma perfumaria, mas não; ele interveio de forma artística, de forma estrutural, em muitas faixas que são sucessos globais. E aí você dá mais importância ainda ao talento do Paulinho.

  • Você pretende continuar explorando histórias de músicos brasileiros com impacto global?

Tenho guardado na minha casa um material muito lindo do Jorge Ben Jor. Filmamos em 1993, durante a gravação do álbum 23, uma apresentação dele no Olímpia, em São Paulo, uma casa de shows que não existe mais. E temos os bastidores da gravação do disco, com o Ben Jor tocando guitarra, o Tim Maia na bateria e o Bi Ribeiro, do Paralamas do Sucesso, tocando baixo. E fizemos uma entrevista linda com o Jorge no estúdio. É um material ainda inédito e espero que agora consiga lançar esse documentário do Jorge Ben Jor, que amamos muito e consolidou o groove e o swing brasileiro.

Assista a íntegra da entrevista:

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Julian Kober

É jornalista de geral e atua na profissão há dez anos. Possui bacharel em jornalismo (Unisinos) e trabalhou em grupos de comunicação de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

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