Cultura e Lazer

Documentário revela o caráter e a humanidade de Zico, ídolo do futebol

Em cartaz nos cinemas brasileiros, Zico – O Samurai de Quintino é um documentário que não visa resumir a carreira de um dos maiores nomes do futebol brasileiro. Sob o olhar do diretor João Wainer (responsável por Pixo e Junho: o mês que abalou o Brasil), o longa-metragem desafia a si mesmo e vai além do jogador e mostra a história de Arthur Antunes Coimbra, que se tornou uma referência nos campos.

A convite da Primeiro Plano, a Gazeta do Sul assistiu com exclusividade ao filme antes de seu lançamento nas telonas. Wainer começa a narrativa com a ida do Galinho ao Japão para jogar no Kashima Antlers, um time de uma fábrica, a Sumitomo Metals. A estrutura era bem diferente do que o jogador estava acostumado no lar flamenguista, com um vestiário minúsculo, no qual ele precisava lavar o uniforme. Colegas da época mostram os lugares no qual o brasileiro transformou o Kashima em uma equipe profissional. 

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Depoimentos ajudam a revelar a persona de Arthur ao longo do filme, de sua infância em Quintino até o estrelato. Sobretudo de familiares, incluindo os irmãos, e a esposa Sandra Carvalho de Sá, com quem é casado há 50 anos, que evidenciam a personalidade e a postura do ídolo do Flamengo.

Não faltam ainda grandes nomes do futebol, de jogadores, técnicos, comentaristas e jornalistas, que demonstram o carisma e o carinho do atleta fora dos gramados. Um dos registros mais inesquecíveis é a interação entre o Galinho e Pelé. O rei traz uma descrição ímpar sobre o colega, destacando que antes de ser um atleta, o jogador precisa ser um homem. “Isso que eu admiro no Zico, porque ele já deu exemplo disso”, frisou Pelé.

O documentário também demonstra por que o atleta é de fato um samurai. Sua postura e atitudes fizeram com que os japoneses criassem o que chamam de Espírito Zico, denominacão espalhada em cartazes e bandeiras até hoje expostas no estádio do Kashima, que tem como base a lealdade, a dedicação e o respeito. Seu legado no futebol japonês, contribuindo para a profissionalização do esporte, continua sendo referenciado pelos habitantes da terra do sol nascente.

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É por isso que O Samurai de Quintino se diferencia dos demais documentários futebolísticos. O filme não se limita a mostrar os passes, dribles e jogadas que elevaram Zico ao posto de ídolo. A escolha de humanizar a lenda, mostrar a relação com a família, amigos, colegas e fãs, demonstra que Arthur Antunes Coimbra não é um campeão apenas pelos troféus e medalhas, mas pelas conquistas para além do futebol.

Não é apenas uma celebração ao Galinho, mas uma importante constatação sobre o que significa ser um atleta de futebol. Em tempos em que os jogadores se destacam mais pelas polêmicas, ostentações, festas, conflitos e menos pelo talento, o filme se torna ainda mais relevante. Reforça que o Espírito Zico deve estar também nos campos brasileiros.

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Entrevista exclusiva

João Wainer
Diretor de Zico, O Samurai de Quintino

João Wainer: “O filme funciona como um contraponto aos jogadores” | Foto: Pedro Curi/Divulgação
  • Gazeta do Sul – O título “Samurai de Quintino” é muito simbólico. Como ele traduz a narrativa que você quis construir?
  • João Wainer – Na verdade, o Zico é isso: ele é uma mistura do talento, da ginga e da habilidade que aprendeu em Quintino com a disciplina e a resiliência e o senso de coletividade do japonês. Acho que o título reflete bem o que o Zico é. Mas não significa que ele aprendeu essa resiliência quando chegou ao Japão. Ele sempre teve isso e nós não sabíamos.
    E quando misturamos esse talento e capacidade de improviso que o subúrbio do Rio de Janeiro proporciona e você coloca ali a disciplina japonesa, não tem como dar errado.
  • Houve alguma descoberta durante a apuração que mudou o rumo do documentário?
  • A grande descoberta, na verdade, foi o próprio Zico. Nós fomos entendendo como ele era um cara legal e do bem. Uma pessoa que agregava, sabe? Os japoneses chamaram de Espírito do Zico, que está presente em tudo, e no set de filmagem também.
    Então, a grande descoberta foi conhecer um pouco melhor esse cara. Nós conhecemos o atleta e as histórias. E fomos percebendo que ele precisava estar em primeiro plano para entendermos o atleta e como ele pensa. Assim fomos trabalhando.
  • Como foi todo esse processo de conseguir agregar tantas fontes e depoimentos marcantes?
  • Foi um processo natural de documentário. Trabalhamos na pesquisa e fomos entendendo. Não gosto de filmes com muitos entrevistados. Prefiro que sejam menos participantes, para que possamos nos conectar melhor com cada um e cada um tenha o seu próprio arco. Acabamos optando pelo formato de resenha, para não ficar com depoimentos parados. Penso que ficou mais fluido. Evitamos também os elogios em excesso. Fomos tirando e deixando as pessoas contando histórias sobre o Zico, e assim o espectador chega à conclusão de que ele é incrível. Não precisava ter alguém dizendo que ele é incrível. Quero que as pessoas concluam isso. Isso acabou trazendo uma leveza e fluidez para o documentário que eu acho interessante.
  • Como foi acompanhar o Zico na viagem para o Japão e o retorno ao campo de futebol?
  • Foi muito legal, porque ele é uma pessoa generosa. Ele trocava muitas ideias conosco. E foi muito emocionante em diversos momentos.
    O mais emocionante, talvez, tenha sido quando ele viu o filme. O Zico ficou muito emocionado. Porque não é um documentário apenas sobre o futebol, mas sobre família, amor, laços, compromisso e conexão. Tanto que várias pessoas que não acompanham futebol estão adorando o filme.
    Quando o Zico assistiu, percebeu que o grande título que ele conquistou na carreira, o grande legado, foi ter conseguido manter a sua família unida até o final. E ter conseguido, aos trancos e barrancos, criar uma família unida, grande, com netos. Está todo mundo perto dele de alguma maneira. Acho que ficou claro para ele que a grande vitória dele foi essa.
    Foi muito bonito ver o quão emocionado ele ficou. Não pelos gols ou pelos títulos, isso ele está acostumado. Mas quando alguém colocou a lupa e falou: “Parabéns por você ter construído essa família.”
  • O documentário traz uma abordagem interessante para o futebol contemporâneo. Tem-se debatido muito o perfil dos jogadores da atualidade, e o Zico traz uma postura diferente. Por que você acha que é importante que o público vá ao cinema e veja esse legado?
  • Penso que o filme funciona como um contraponto aos jogadores de hoje. Você vê que existe um individualismo muito grande no futebol. Às vezes, o cara pensa só nos próprios números e na sua própria pontuação. Parece que ele está mais preocupado com o cartola do que com o time, com o coletivo.
    Então, eu queria muito que os jogadores atuais vissem o documentário para entender que o futebol é uma parada coletiva. O Zico mostra que não adianta você ser bom, ser o melhor. Se você não tiver um time competitivo, não vai conseguir, por melhor que você seja.
    O Zico era o mais talentoso e mesmo assim era o primeiro a chegar ao treino e o último a ir embora. Aquela primeira frase do filme, quando fala que está há 60 anos no futebol e nunca perdeu um ônibus ou um voo. Isso fala mais sobre o Zico do que uma frase esportiva, porque você mostra o tamanho do comprometimento dele e do respeito pelos companheiros e pelo time.
    O filme acabou indo para esse lugar, de tentar mostrar esse ser humano e, por meio dele, entender o atleta. Queria muito que os jovens assistissem e entendessem que hoje em dia qualquer jogador ali, o cara faz dois gols na copinha, vai para Madri e precisa levar 12 amigos, porque senão ele não se adapta em Madri. Olha o Zico, vai ver o que ele fez. O futebol está ficando mais chato por causa disso, eu acho.

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Julian Kober

É jornalista de geral e atua na profissão há dez anos. Possui bacharel em jornalismo (Unisinos) e trabalhou em grupos de comunicação de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

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