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Dupla do Vale do Rio Pardo escala o Chimborazo, ponto da Terra mais próximo do Sol

Na Cordilheira Ocidental dos Andes, no Equador, está o Monte Chimborazo. Localizado a 150 quilômetros de Quito, capital do país andino, o vulcão já foi considerado, no século 19, a montanha mais alta do mundo, então ostentando o título que hoje é do Everest.

Com 6.268 metros de altitude, o Chimborazo encontra-se a 6.384 quilômetros do centro da Terra, dois quilômetros a mais do que o monte situado na fronteira entre o Tibete e o Nepal, devido a uma diferença no diâmetro do planeta. Isso faz com que seu cume seja o pedaço de terra mais próximo do Sol.

Todos esses fatores, e a proximidade com as áreas urbanas, tornam o Chimborazo e as montanhas do entorno atrativos para montanhistas e entusiastas de trekking. Diante do menor investimento em comparação ao Everest ou o Aconcágua, estima-se que, anualmente, cerca de 500 pessoas vão até o Chimborazo com o intuito de escalá-lo e chegar… perto do Sol.  A aventura, entretanto, não é para todos. A altitude e as condições climáticas dificultam a jornada, de modo que menos da metade consegue chegar ao cume. 

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Em fevereiro, dois moradores do Vale do Rio Pardo encararam o desafio, superaram as adversidades e conquistaram o vulcão andino. Em entrevista à Gazeta do Sul, Felipe Berti Previdi, de 33 anos, e Mateus Guterres, 38, compartilharam as histórias da aventura e os desafios de escalar a famosa montanha.

Além dos limites: a jornada até o equador

As aventuras de Mateus e Felipe iniciaram-se sete anos antes de alcançarem o cume do Chimborazo, quando se conheceram em uma escalada de rochas. Praticantes de trekking (caminhadas mais intensas em trilhas, montanhas e serras, que exigem maior preparo físico), os amigos passaram a fazer a atividade sem auxílio de guias. Com o passar do tempo, foram melhorando os equipamentos e aperfeiçoando as técnicas de navegação.

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No quarto dia, a dupla fez a travessia de Ruta Integral de los Pichinchas

De olho no desafio seguinte, buscaram uma atividade ainda mais intensa: o trekking de altas montanhas, que superam os 3 mil metros de altura. E encontraram no Monte Chimboraza, e nos vulcões em seu entorno, o destino ideal para a aventura. Mateus e Felipe compraram as passagens em novembro do ano passado.

Conforme os amigos, o simbolismo envolvendo o monte icônico, cujo cume é famoso por ser o ponto mais distante da Terra e mais perto do Sol, os motivou a escolhê-la. “É uma montanha muito importante para os montanhistas. Qualquer um conhece o Chimborazo”, reforça Mateus.

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Nos meses seguintes, a dupla iniciou o processo de preparação, com treinos diários intensos ao longo de 90 dias. Isso incluía crossfit, pedaladas no interior e corridas no Complexo Esportivo Normélio Egídio Boettcher, completando dez quilômetros em uma hora na pista localizada no entorno do Lago Dourado. 

O treinamento foi justificável: para chegar ao cume, era preciso muita resiliência para encarar as condições extremas da montanha devido à altitude (e, consequentemente, a falta de oxigênio) e ao clima, com temperaturas que variavam entre 0ºC e -15ºC. 

Além disso, havia uma preocupação real quanto aos riscos de se aventurar na montanha mais alta do Equador, que inquietaram não apenas a dupla, mas também os seus familiares. Uma rápida pesquisa na internet exibe as fatalidades de montanhistas que tentaram subir o vulcão nevado. Em agosto de 2022, uma avalanche resultou em três mortos e 12 pessoas feridas. 

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Os incidentes, contudo, não intimidaram os montanhistas brasileiros, mas serviram como um alerta e um incentivo para se precaver. Uma vez que Felipe e sua esposa aguardavam a chegada do primeiro filho, ele e Mateus não queriam perder a oportunidade de escalar o Chimborazo. Os amigos montaram um roteiro de viagem de 14 dias para o Equador. Para se adaptarem às condições da montanha mais próxima do Sol, montaram um plano de aclimatização, evoluindo gradativamente e permitindo que estivessem em condições físicas para a etapa final, o Chimborazo. “Você não pode chegar em uma alta montanha, seja ela qual for, e simplesmente escalar. O teu corpo tem que fabricar glóbulos vermelhos para transportar oxigênio pelo corpo. Isso só se consegue expondo-se em ambientes rarefeitos por períodos prolongados”, explicou Felipe.

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Em 14 de fevereiro, os dois viajaram para Quito. No segundo dia de viagem, escalaram o Vulcão Pasochoa, com 4.776 metros, situado ao sul da capital do Equador, famoso pelo santuário repleto de espécies silvestres. O destino seguinte, no terceiro dia, foi o Vulcão Guagua Pichincha, com 4.782 metros, considerado uma das caminhadas mais populares do País andino.

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Já no quarto dia, a dupla esteve em Padre Encantado (4.586 metros), Ladrillos (4.450 metros) e o vulcão Rucu Pichincha (4.696 metros). No dia seguinte, descansaram em Quito para posteriormente realizarem o trajeto na Iliniza Norte, pernoitando em um refúgio da montanha, a 4,7 mil metros. E chegaram ao cume, com 5.126 metros de altura, no sétimo dia. Com isso, os amigos terminaram a primeira etapa da jornada.

Cansaço extremo: segunda etapa do percurso

Em sete dias de viagem, Felipe e Mateus já haviam encarado seis vulcões. Até então, tinham enfrentado um clima chuvoso e algumas dificuldades nas escaladas, sobretudo em Illiniza Norte. Com o trecho coberto de neve, precisavam ser cautelosos, uma vez que a subida era repleta de rochas e não sabiam onde estavam pisando. “Ficamos com medo. 

Mateus e Felipe admiram o topo do vulcão Cotopaxi, o mais ativo do Equador, antes de o sol nascer

Estávamos sozinhos e havia muita neve. Chegamos a pensar o que estávamos fazendo lá, porque é um risco de queda iminente se você não tiver cautela”, ressalta Mateus.

Contudo, o maior desafio começava na segunda etapa da jornada. Após mais um descanso em Quito, a dupla deu início, no nono dia de aventura, à subida do Cotopaxi. Considerado um dos vulcões mais ativos do mundo, ele oferece uma série de desafios que exigem mais esforço físico e atenção do que outros que os amigos haviam escalado até aquele momento.

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Diante do maior grau de dificuldade dos dois últimos vulcões, a dupla precisou contratar um guia, exigência imposta pelo governo equatoriano. No décimo dia de viagem, antes de o sol nascer, alcançaram o cume do Cotopaxi. Voltaram de lá exaustos, especialmente Felipe, mas um ajudou o outro para que ninguém ficasse para trás. “É um trabalho em equipe. Se um desistir, os dois precisam descer”, comenta Mateus. Após tirarem um dia de descanso, era chegada a hora de encarar a última etapa da odisseia: o Chimborazo. 

A aproximação ao cume do monte começou no 12º dia de viagem. Felipe e Mateus pernoitaram em um acampamento base. A montanha andina pode se tornar tecnicamente mais difícil de escalar do que o Aconcágua, devido aos trechos de ascensão cobertos por enormes massas de gelo, o que exige habilidade dos montanhistas. Levaram cerca de seis horas para completar dois quilômetros, tamanha a dificuldade.

Foi questão de tempo até entenderem o motivo de muitos desistirem de alcançar o cume. Para suportar as baixas temperaturas, cada montanhista usava bota dupla, três camadas de calça e cinco camadas de casacos, o que comprometeu a mobilidade. A maior complicação, no entanto, era o ar rarefeito, que resultava em dores de cabeça e dificuldade de respiração. Tiveram ainda contratempos para se alimentar e dormir no alojamento. Contudo, estavam determinados a alcançar o ponto mais alto.

Histórias do Chimborazo

No século 18, a França realizou uma missão geodésica, com o propósito de determinar as formas e dimensões da Terra, e levou um grupo de cientistas às Terras do Equador (nome na época). Lá mediram, com precisão de centímetros, o ponto mais distante do centro da Terra: o vulcão Chimborazo, que se encontra a 6.384 quilômetros de distância do centro terrestre. 


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Em 1802, o naturalista Alexander von Humboldt entrou para a história ao escalar o Chimborazo. Devido ao ar rarefeito e às baixas temperaturas, não conseguiu chegar ao topo, de 6.263 metros de altura. Ficou nos 5.917, um recorde para a época, que seria quebrado apenas 30 anos depois. A aventura de Humboldt contribuiu para colocar a América Latina no mapa da ciência.


A beleza do Chimborazo inspirou o revolucionário ​​Simón Bolívar a escrever um poema sobre o monte andino, que foi considerado um dos mais importantes do Romantismo venezuelano: “Cheguei como se estivesse impulsionado pelo gênio que me animava, e desmaiei ao tocar o cume do firmamento com a cabeça; os limiares do abismo jaziam a meus pés. Um delírio febril dominou minha mente; senti-me como se incendiado por um fogo estranho e superior; era o Deus da Colômbia que me possuía.”

A emoção dos montanhistas por estarem mais próximos do sol

O 13º dia seria o momento mais emocionante da jornada de Felipe e Mateus: a chegada ao cume do Chimborazo. Dos 11 montanhistas, apenas a dupla e um norte-americano continuaram na subida, enquanto os demais optaram por não concluir o trajeto, diante das dificuldades enfrentadas. Até mesmo o guia estava se esquivando, mas a determinação dos dois em alcançar o ponto mais elevado da montanha prevaleceu. 

Já na aproximação, a vista do cume do monte

A subida resultou em uma exaustão extrema na dupla, mais intensa que qualquer atividade esportiva que já haviam feito até então. “Já fiz muitas atividades cansativas. Mas aquilo não tem como explicar”, revela Felipe. Mateus estava mais cansado, mas sabia que, se desistisse, o amigo também teria que retornar. Então, foi subindo passo a passo com as poucas energias que restaram.

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No entanto, todo o esforço foi recompensado no momento em que chegaram ao cume, no nascer do sol. Assim que o guia anunciou que concluíram o desafio, os amigos “desmoronaram” e se abraçaram. 

Comemoração: depois de encararem os desafios da subida, os amigos “desabaram” ao chegar no cume do Chimborazo no 13º dia da jornada andina

Após apreciarem a belíssima vista proporcionada pelo Chimborazo, estava na hora de descer. Os amigos mal tiveram tempo para recuperar as energias, e era necessário agilizar o retorno devido ao risco de avalanche. Todo cuidado era pouco: segundo a dupla, os riscos aumentavam ainda mais nessa etapa. “Os montanhistas geralmente morrem na descida, porque colocam toda a sua energia para subir e depois não têm para descer”, explica Mateus, que, apesar da dor no tornozelo e da dificuldade de permanecer em pé, continuou. “Estávamos no limite, mas o guia não queria deixar a gente descansar por causa do risco de avalanche.”

Enquanto a subida levou em torno de sete horas, a descida foi concluída em quatro. Terminava aí a odisseia de 14 dias no Equador. Após duas semanas subindo e descendo montanhas, Felipe e Mateus retornaram com cinco quilos a menos, para espanto de amigos e familiares.

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Para os amigos, a aventura pode ser definida em uma palavra: superação. Foram meses de treino intenso até chegar ao ponto do planeta mais próximo do Sol. Pensaram em desistir várias vezes, mas sabiam que o resultado seria recompensador.

A experiência foi enriquecida com a troca cultural, pois durante a viagem conheceram montanhistas de todo o mundo que estavam nos Andes com o mesmo objetivo. “Conversamos com viajantes de Espanha, Estados Unidos, Canadá e Inglaterra que subiram conosco. Foi um momento muito bom para fazermos amizades”, comenta Felipe.

De acordo com a dupla, é comum serem questionados sobre motivos para escalar a montanha. Os dois, no entanto, não sabem explicar. “É um propósito que você coloca. Tu não ganhas nada com aquilo. Mas por algum motivo faz sentido.”

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Julian Kober

É jornalista de geral e atua na profissão há dez anos. Possui bacharel em jornalismo (Unisinos) e trabalhou em grupos de comunicação de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

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