Cultura e Lazer

“É muito miserável o nosso hoje”, diz escritora venezuelana sobre situação do país

Se fosse preciso eleger um único livro para definir o estado das coisas na América Latina neste início de 2026, a tarefa seria muito simples: não poderia ser nenhum outro que não Voltar a quando, da escritora venezuelana María Elena Morán, que se fixou no Brasil em 2012, ao lado de seu companheiro, Rafael Trindade, gaúcho natural de Passo Fundo, seu colega na área audiovisual. O pano de fundo desse romance, lançado ao final de outubro de 2025 pela Biblioteca Azul, é a diáspora de um povo.

No caso, de mais de 8 milhões de venezuelanos que saíram pelo mundo, por diferentes motivações (ora políticas, pela perseguição do regime comandado pelo “presidente” Nicolás Maduro; ora financeiras, pelo descalabro da economia naquele país; ora pela total falta de perspectivas de uma melhora na educação e em muitos outros indicadores).

Desse contingente, de certo modo María Elena faz parte. Ainda que tenha ido estudar em Cuba (onde conheceu Trindade), de lá optou por não mais voltar a sua terra natal, da qual haviam partido outros parentes. Ela e o companheiro vieram então para o Brasil, primeiro para Porto Alegre, onde ela se especializou em Escrita Criativa. Hoje moram em São Paulo. A escritora acompanha com angústia e inquietação o cenário na Venezuela depois da ação promovida por Donald Trump no dia 3 de janeiro, na qual foram presos Maduro e sua esposa, Cilia Flores, levados aos Estados Unidos.

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Quis o acaso que seu romance Voltar a quando, originalmente lançado em 2023, tivesse chegado às livrarias dois meses antes desse acontecimento, que colocou a Venezuela (sua situação política e o drama de seu povo) no palco global. Para o público, nenhuma outra leitura, neste início de 2026, poderia ser mais oportuna a fim de perceber tanto o que acontece naquele país quanto, talvez, o que ocorre em muitos lugares ainda sob a mão de ferro de uma ditadura.

Haverá um porto alegre?

Para os santa-cruzenses, a leitura de Voltar a quando tem um sabor ainda mais especial. María Elena Morán esteve na cidade no dia 10 de agosto do ano passado, como atração da 1ª Festa Literária Internacional, paralela à 35ª Feira do Livro. Na oportunidade de sua vinda, estava nas livrarias brasileiras seu primeiro romance, Os continentes de dentro, editado pela Zouk, obra que escreveu durante o mestrado em Escrita Criativa na PUCRS.

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Em Santa Cruz, Morán referira também Voltar a quando, que recebera o Prêmio Café Gijón, na Espanha. No romance sobressai a história de uma família (sob diferentes pontos de vista narrativos). Nina, jovem mãe venezuelana, diante das poucas perspectivas de realização em Maracaibo (também terra natal de Morán), entra no Brasil por Roraima. Para trás, deixa a filha Elisa, de 13 anos, que fica aos cuidados da avó, Graciela, mãe de Nina, em um cotidiano com muitas limitações, inclusive no básico para a subsistência.

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A decisão de partir para o exterior, como milhares fizeram, vem depois que ela perde o pai, Raúl, e após o fim do casamento com Camilo. Quando eram mais jovens, eles, Nina e Camilo, acreditaram com convicção na revolução bolivariana liderada por Hugo Chávez, mas não demorou a vir o desencanto. Agora, Nina segue rumo a Porto Alegre, no Sul do Brasil, e ali, distante da mãe e da filha, tentará recomeçar a vida. Até o momento em que Camilo reaparece com a proposta de um novo destino. E mais escolhas terão de ser feitas.

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A escrita que socorre

A obra de María Elena Morán reafirma o espaço literário como um expediente de encontro e reencontro (afetivo, afetuoso, saudoso, nostálgico, embora também doloroso) com um tempo, um lugar e uma comunidade que foi preciso deixar para trás. E que, logo se intui, não mais poderá ser recuperada em sua plenitude. Porque aquele instante de ruptura, da partida, para todo aquele que vivenciou a diáspora (contra a sua vontade), já não pode mais ser acessado.

No caso de Voltar a quando, seu mais recente romance, María Elena potencializa essa reelaboração de quem, fora de sua terra, já nem se ocupa mais com para onde voltar (o lugar até permanece), mas para quando voltar. A vida seguiu, e o que poderia ter sido vivido não o foi.

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María Elena Morán narra em romance drama de mulher que deixa a Venezuela

Voltar a quando estrutura-se em quatro partes, e diferentes vozes se alternam na apresentação de um contexto. De seus depoimentos o leitor obtém senhas que permitirão montar o quebra-cabeças dos personagens. Que, por sua vez, se deparam com o quebra-cabeças das idas e vindas de suas vidas, de suas perdas e lutas, algumas vãs, todas extenuantes. Para os leitores, é oportunidade de dimensionar o que significa (significou?) viver sob o peso do regime de Maduro.

No romance, a autora adota como epígrafe um verso do poeta russo Joseph Brodsky, Nobel de Literatura de 1987: “Um homem livre, quando fracassa, não culpa ninguém”. Porque sabe que teve escolha. O problema é que, no mundo atual, como também ocorre com personagens de Voltar a quando, a escolha é um elemento cada vez mais raro; quando muito, se resume a saber agir rápido na saída, enquanto há tempo.

Sobre seu livro, María Elena Morán concedeu entrevista exclusiva ao Magazine, por WhatsApp.

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Entrevista

María Elena Morán
Escritora venezuelana

  • Teu novo romance, Voltar a quando, chegou às livrarias brasileiras na reta final do ano passado. Mas, na verdade, é obra já anterior, inclusive premiada em 2022 na Espanha. Em que circunstâncias o escreveste?
    Eu escrevi Voltar a quando no contexto do meu doutorado em Escrita Criativa, na PUCRS, que comecei em 2018. Naquele momento, a diáspora venezuelana já era uma realidade, com a deriva econômica e política instalada.
    Eu duvidei muito sobre escrever sobre um assunto tão imediato, mas, honestamente, eu me encontrava tomada pelo que estava acontecendo: as imagens do meu povo nas fronteiras; minha família se despedaçando, indo cada um para um canto; o infinito perrengue diário para ter acesso a bens básicos; a inaptidão, o descaso e o deboche do governo; a minha participação na construção desse fracasso, que começou com o sonho de uma revolução democrática e virou esse autoritarismo vergonhoso.
    Eu não conseguia pensar sobre nada mais, muito menos escrever, então decidi encarar um projeto de escrita que me ajudasse a canalizar esse caos. A escrita me socorre, não porque seja fácil — é espantosamente difícil — mas porque sua dificuldade fala comigo de um jeito cru, secreto, como nada ou ninguém mais o faz.
  • Por obras do acaso, teu livro, que tematiza a diáspora venezuelana, com milhões de conterrâneos optando por se fixar em outros países, agora oferece leitura de pano de fundo para a ação de Trump contra Maduro. Ficção e realidade acabam por se misturar, não é verdade?
    Eu acredito que a ficção nos ajuda a entender melhor a realidade. Isso, tanto para quem a escreve tanto quanto para quem a lê. Não porque a literatura nos dê respostas, mas porque um bom livro nos gera questionamentos. Voltar a quando me serviu para conseguir formular perguntas que eu não conseguia antes, porque eram dolorosas, porque me desorganizavam. As respostas acalmam, nos tiram da angústia da incerteza, mas é ali que mora a arte.
    Não pretendo que o livro seja lido como uma cópia da realidade, embora seja profundamente inspirado em meus recortes dela. Me interessa mais provocar, em alguma medida, o questionamento sobre qualquer verdade, venha de onde vier, que se venda como absoluta e única, que exija unanimidade e demonize a crítica.
  • Os personagens de Voltar a quando saem em périplo por diferentes países, inclusive o Brasil, para onde vem Nina, a protagonista. Tu própria te fixaste no Brasil. Há algo de autobiográfico, ou o enredo é totalmente ficcional?
    O romance é uma mistura de muitas experiências reais de familiares, amigos, conhecidos, e até de mim mesma, mas está tudo filtrado pela construção ficcional.
    O que há de mais biográfico talvez seja o desencantamento político com o devir da revolução bolivariana.
    Tem também a presença onisciente do Raúl, que é inspirada no meu pai e na minha experiência de luto após a morte dele.
    A venda da casa familiar por um valor absurdo, por conta das circunstâncias, também é algo meu, tristemente.
    Também fazem parte das minhas vivências as locações e as viagens entre Maracaibo, Valledupar e Porto Alegre.
  • Como foi, ou é, tua leitura pessoal da ação dos EUA contra a Venezuela? Que conclusões ou que lições tiras desse acontecimento?
    Rejeito a armadilha dos binarismos. Não vejo contradição em denunciar a ditadura de Nicolás Maduro e, ao mesmo tempo, enfrentar o projeto colonialista e imperial de Donald Trump. Minha posição é clara: eu condeno ambos, porque ambos representam projetos autoritários. Um, expõe para o mundo, sem pudores, as suas mais nefastas intenções. O outro, preso na própria ficção de revolucionário, enquanto arrasta um legado desastroso que levou o país a um estado muito pior do que aquele que, em seu momento, fez nascer a revolução.
    O fato de que a vice do Maduro seja agora a presidenta interina abençoada por Trump, quem tem se referido a ela como “dócil” colaboradora, é um destino surpreendente apenas na superfície, ou visto à distância. Os venezuelanos sabemos que a aliança fundamental do madurismo não é com o povo e sim com o poder — e, por isso, com os militares. Por isso, preferiram chegar até aqui, neste cenário trágico, de venda e submissão do país, antes que abrir mão do poder, como correspondia fazer após a derrota nas eleições de 2024.
    Andrés Izarra, ex-ministro da revolução que acusou Maduro de tê-la traído, tornando-a num projeto fascistoide, diz que não estamos frente a um jogo de xadrez, mas de poker: informação incompleta, cartas não visíveis, blefes, timing, azar. Eu, trazendo o assunto para um contexto popular, fico pensando que estamos num jogo de futebol triste e vendido, onde o povo venezolano é, no máximo, a bola, sempre sendo chutada, chutada, chutada.
  • Que esperança alimentas em relação a teu país natal, no contexto atual? Acreditas que possa haver guinada democrática, com estabilidade e a retomada de mais qualidade de vida para o povo?
    Eu acho que, caso essa tutela consiga que, pelo menos, sejam liberados todos os presos políticos, sejam fechados os centros de tortura e Edmundo González assuma como o presidente eleito que é ou se convoquem novas eleições (com um Consejo Nacional Electoral depurado, garantias eleitorais plenas e participação de observadores internacionais), já teremos algo positivo com relação ao momento anterior à intervenção, ainda que o preço seja alto — mas nada é de graça na política internacional.
    Podemos esperar pelo menos isso? Não sei. A situação é patética desde todo ponto de vista: esgotadas todas as outras opções, ter que torcer para que algo tão absurdo como uma invasão militar e uma tutelagem estadunidense possam nos ajudar a retomar uma democracia. É muito miserável o nosso hoje. Amanecerá y veremos.
  • Hoje já te sentes em casa, digamos, no Brasil? Como está o acolhimento e em que medida o Brasil, não apenas o governo, mas toda a sociedade, pode contribuir para relações de estima e reciprocidade com a Venezuela?
    Eu me sinto em casa, sim. Tenho muita sorte de estar neste país, que tem sido tão generoso comigo e com muitos dos meus compatriotas.
    Acredito que é necessária muita empatia e solidariedade neste momento, e isso passa por dar escuta e respeito às pessoas, que estão cheias de dor e de dificuldades, antes de julgá-las.
    Sentir alívio e talvez até alguma alegria de ver seu algoz algemado, mesmo que dentro de um panorama tão grave e angustiante como o de uma intervenção estadunidense, faz sentido quando você entende a história de vida que há por trás. A situação é muito complexa, não só política, mas humanamente. No mesmo dia em que amanheci com a notícia da liberação da família do meu amigo, Trump se nomeou presidente interino da Venezuela numa piada (piada?) na rede social dele. É uma gangorra o dia todo.
    Meu pedido mais sincero é para que, entre as histórias oficiais e as amplas (mas sempre escolhidas) bibliografias, possamos deixar espaço também para as pequenas histórias: a do vizinho, a do funcionário, a atendente, o artista, a cozinheira, a escritora. Nelas, temos mais chance de nos encontrarmos.
  • Tens vindo ao Rio Grande do Sul? Há viagem para cá em planejamento, talvez para lançamento do livro?
    Fui em novembro passado para Porto Alegre. Fui lançar o livro no dia 25, na Livraria da Travessa, e participei em alguns eventos literários. Também acompanhei parte das filmagens do longa-metragem Anfitriãs, dirigido pela Renata de Lélis, com roteiro meu e direção de fotografia do meu companheiro Rafael Trindade. Não bastasse isso, fiz 40 anos durante essa visita à cidade amada que me recebeu tão bem quando cheguei no Brasil e passei o aniversário rodeada de grandes amigos.
  • E, por sinal, o que fica na memória de tua vinda a Santa Cruz do Sul, em agosto passado? A cidade deixou marcas boas?
    Santa Cruz do Sul permanece na minha memória como uma cidade muito linda e acolhedora. Fiquei apenas um dia, mas pareceu muito mais: uma feira do livro cheia, uma ótima conversa, pessoas incríveis. Tenho muita vontade de voltar e ficar muito mais tempo.

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Romar Behling

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