Seriamente afetado pelas enchentes de 2024, distrito às margens do Rio Taquari mantém luta pela restruturação
Morador do distrito de Vila Mariante, em Venâncio Aires, há 55 anos, Augusto Schneider viu sua casa, seu caminhão, o minimercado e a ferragem que administrava serem destruídos pela enchente de maio de 2024. “Sobrou só o prédio, a gente perdeu tudo”, relata. Ao todo, ele estima um prejuízo de mais de R$ 1 milhão, incluindo estoque, maquinário, veículo e residência.
Resgatados de helicóptero durante a inundação, ele e a esposa Julia lutam para reerguer o minimercado, já que a ferragem não pode ser reconstruída. “O movimento caiu 80%. As pessoas saíram e muitos não retornaram, estão no aluguel social”, diz.
Mais de um ano e meio após a tragédia, o distrito, localizado às margens do Rio Taquari, ainda guarda marcas da devastação. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), em 2022 o local possuía 985 residências. Destas, 308 foram destruídas, de acordo com o prefeito de Venâncio Aires, Jarbas da Rosa (PDT).
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A exemplo do que ocorreu com Schneider, Anderson Schossler teve mais de R$ 830 mil em perdas na agropecuária da qual é proprietário e onde também reside. “Para me reerguer não tá fácil. Eu perdi os fregueses, morreram os bichos do pessoal”, conta. Apesar disso, o empresário decidiu ficar em Mariante. “Eu moro aqui há 25 anos, não tenho ideia de sair”, afirma.
O sentimento de pertencimento é compartilhado na comunidade. Morador do distrito há 58 anos, Elari Vaz dos Santos teve sua casa atingida pela água, que chegou a cobrir o telhado, deixando visível apenas uma “listra da cozinha”. Apesar disso, decidiu permanecer no local, recusando-se a mudar para outro lugar, onde não se adaptaria. “Vou sair daqui para ir para o meio do nada, onde não me dou? Não. Vou ficar. Por enquanto, vou ficando”, comenta.
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Na área da educação, a Escola Estadual de Ensino Médio Mariante foi totalmente destruída pela enchente e não será reconstruída, decisão já tomada pelo governo do Estado. Isso ocorreu em razão da localização da instituição, a cerca de 5 metros do leito do rio, e da inviabilidade estrutural de recuperação. Com isso, 90 alunos foram transferidos para a Escola Estadual de Ensino Médio Adelina Isabela Konzen, em Estância Nova.
Conforme o coordenador da 6ª Coordenadoria Regional de Educação, Luiz Ricardo Pinho de Moura, todos os estudantes foram acolhidos pela nova comunidade escolar e estão bem adaptados. Houve desistência de quatro alunos, casos que, segundo ele, estão associados ao histórico de infrequência já existente antes da enchente. O transporte escolar segue ofertado sem custos aos estudantes, com apoio do Município e do governo estadual. “Alguns alunos que tinham ido para outras localidades, e muitos até fora de Venâncio, retornaram para suas residências e voltaram a se matricular na Escola Adelina”, afirma.
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Na área da saúde, os moradores são assistidos principalmente pela unidade de saúde de Estância Nova, que teve ampliação no número de profissionais e passou a contar com duas equipes médicas, além de enfermeiros e odontólogos. Para os que ainda moram em Mariante, uma unidade móvel da Prefeitura realiza atendimentos semanais.
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Paralelamente, está prevista a construção de uma nova unidade de saúde em Estância Nova, com investimento de aproximadamente R$ 1,8 milhão, viabilizada com recursos da Defesa Civil Nacional. O novo prédio terá cerca de 380 metros quadrados e deve começar a ser construído nas próximas semanas.
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A decisão de ficar em Mariante, no entanto, trouxe consequências aos moradores. A situação do fornecimento de água é um exemplo disso. Julia Schneider afirma que antes a Corsan captava água do rio. Após a enchente, no entanto, foi aberto um poço artesiano. “[A água] falta muito, é podre. Tu toma banho e fede a esgoto”, afirma Julia.
Na última terça-feira, 6, foi realizada, no salão da Comunidade Católica Nossa Senhora dos Navegantes, em Mariante, uma reunião com o gestor de Relações Institucionais da Corsan, André Finamor, e com a presença de cerca de cem moradores. Segundo Julia, Finamor garantiu na ocasião que até o fim de janeiro a situação seria resolvida. “A promessa foi de que vão abrir outro poço artesiano e botar em operação para melhorar a qualidade”, diz.
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Procurada pela Gazeta do Sul, a Corsan afirmou em nota que a água distribuída no local está em conformidade com a Portaria GM/MS nº 888/2021, que estabelece padrões de controle e vigilância da qualidade da água para o consumo humano no Brasil. Também explicou que o sistema de abastecimento encontra-se totalmente recuperado e ações de limpeza são realizadas na rede de distribuição para evitar que a água chegue turva até as residências.
O prefeito de Venâncio Aires afirma que acompanha a situação por meio da Vigilância Sanitária e mantém diálogo com a Corsan. Segundo ele, não houve determinação de interdição do poço e a água é considerada potável, embora moradores informem alterações de sabor e cor. Além disso, a Corsan foi notificada para apresentar laudos técnicos atualizados.
Em relação à infraestrutura, o principal gargalo apontado pela administração municipal está relacionado aos desvios da RSC-287, que corta a região. O projeto para recuperação do trecho já foi apresentado e consta no plano de recuperação da Rota de Santa Maria. Atualmente, o tráfego segue por desvios que já registraram acidentes graves, inclusive com mortes.
A reconstrução do distrito segue em andamento e envolve diferentes frentes de atuação do poder público. Segundo a Prefeitura, o Município passou a executar ações emergenciais e estruturais voltadas principalmente à garantia de moradia, assistência social e reorganização dos serviços públicos. Conforme avaliação do prefeito, cerca de 50% das famílias atingidas já foram contempladas com soluções definitivas de habitação.
No campo habitacional, o prefeito diz que há projetos em execução e outros em fase de licitação. Atualmente, cerca de 140 famílias já foram contempladas por meio da compra assistida, com acesso a casas ou apartamentos definitivos. Além disso, em torno de cem famílias recebem aluguel social. O restante aguarda a conclusão das próximas etapas dos projetos habitacionais.
Dois conjuntos habitacionais devem ser entregues nas próximas semanas, enquanto outro empreendimento está em processo de licitação na localidade de Estância Nova, com previsão de 70 a 72 casas destinadas a famílias que optaram por permanecer na região. Além disso, parte das famílias foi contemplada com unidades habitacionais no Bairro Battisti, onde há construção de 52 casas, e no Bairro Aviação, com 112 apartamentos.
“Grande parte da população que perdeu suas residências acabou vindo morar na cidade de Venâncio Aires”, afirma. A expectativa do Município é de que, em até seis meses, todas as famílias atingidas estejam com moradia definitiva assegurada.
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