Lembro do meu pai me dizendo, há uns cinco anos, mais ou menos, enquanto eu chorava: “Tu precisa ser forte que nem o pai”. Em meio àquela dor, que literalmente me rasgava, respondi a ele, com a voz embargada: “Eu tento ser”. Estávamos, os dois, em um quarto de hospital. Ele faria o primeiro curativo depois de amputar o dedo de um dos pés. Aquele, até então, era o pé sadio, já que o outro tinha ferimentos antigos em decorrência do diabetes. Embora eu soubesse que o procedimento era necessário pra ele, me doeu muito ver a imagem do pós-cirúrgico.
Tudo o que eu mais desejava era não vê-lo precisar passar por aquela situação, mas ele passou e me deixou uma lição. Enquanto tentava me confortar, meu pai me lembrou que eu também tinha meus problemas e precisava lidar com eles. De uma forma sutil, ele me preparava, pelo exemplo e pela fala, para as pancadas e incertezas da vida. Ele teve uma ótima recuperação. Mas, nos anos que se seguiram, voltamos a dividir, os dois, muitos outros momentos em corredores e quartos de hospitais por motivos diversos. Ao longo de 27 anos, foram várias as internações, várias as recuperações, várias as lições deixadas por ele. Agora mesmo, enquanto tento redigir este texto, tento também ser forte. No dia 4 deste mês, há exatas três semanas, eu precisei encarar a realidade de que, daquele dia em diante não mais teria a presença física do meu pai.
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Aos 72 anos, ele cumpriu a jornada terrena e, depois de consecutivas lutas vencidas, permitiu-se descansar. E sei que ficaria feliz em saber que a história dele, de superação e resiliência, está sendo contada para inspirar, motivar e, quem sabe, fortalecer alguém. E o melhor: contada pela filha, que ele tanto incentivou a estudar. A filha que ele desafiava a escrever as palavras certas, quando chamava para mais um ditado, de palavras aleatórias, após o almoço ou o jantar. A filha que ele conseguiu formar na faculdade e que sempre deu a liberdade de ser quem quisesse.
Muito antes de me mostrar que é preciso ser forte, também me ensinou, entre outras coisas, o valor da generosidade e da fé. Ainda criança, lembro de ele me fazer entregar um sorvete para dois meninos em situação de rua que haviam nos pedido ajuda. Me explicou que nós tínhamos dois e os meninos não tinham nenhum, mas também estavam com fome. Em outro momento, durante uma forte crise de dor nas pernas, imagino que fosse por varizes, me chamou para rezar com ele e pedir que Deus o ajudasse. Lembro que nos demos as mãos e de olhos fechados, mesmo sem saber o que fazer, eu pedi que Deus tirasse aquela dor “porque meu pai era bom e precisava trabalhar”. Nos minutos seguintes, ele exclamou, numa mistura de entusiasmo e surpresa, que a dor havia passado.
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Nessas últimas semanas, entre saudade e lembranças, fica a certeza de que fui uma filha de sorte e que, ao longo dos meus 44 anos, tive um pai dedicado, amoroso, honesto e querido por muita gente. Um homem valoroso, trabalhador e de palavra. Ele fez tudo (e mais um pouco) por mim, meu irmão e nossa mãe. E também fez por muitos.
Embora eu ainda tivesse muito para agradecer, especialmente por ter me guiado e preparado para a vida, foi ele quem me disse “obrigado”, minutos antes de partir. Como bem disse a psicanalista Andréa Vermont, em postagem recente, a memória é honrada através da vida. Seguindo o que ela escreveu, “continuar é dar um sentido novo à perda… uma forma de transformar o luto em um tributo vivo, honrando quem partiu através da nossa própria capacidade de seguir”. É por isso que até aqui e daqui em diante, eu te vivo, meu pai.
Prazer, sou a filha do Darci Priebe, o agricultor que amava viver no interior, que tinha orgulho da sua propriedade na Linha Boa Vista, no interior de Candelária, e que adorava ouvir rádio.
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