Escritora santa-cruzense Marli Silveira tem obras lançadas internacionalmente
A escritora Marli Silveira, cuja obra está sendo lançada em simultâneo em vários países
A estação das letras da escritora santa-cruzense Marli Silveira emite o comunicado: “próxima parada, o mundo”. O ano de 2026 marca a projeção de sua produção poética em diversas nações. São várias notícias positivas que se sucedem para ela, presidente da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul e integrante da Academia Rio-grandense de Letras (ARL) e da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul.
Em março deste ano, ela já anunciara o lançamento de seu novo livro de poesia, Pequeno inventário das ausências, sob o selo da editora Bestiário, cujos exemplares já podem ser adquiridos em livrarias físicas e virtuais. E é justamente essa obra que inaugura as traduções: esse conjunto agora sai no Canadá e também na França, sob o título Petit inventaire des absences, com tradução assinada por Kelly Baptista Duarte e Adail Sobral: em território canadense pela editora Tamam, do editor Michel Peterson; na França, pela Éditions Nuit.
Em simultâneo, outro livro de poemas de Marli, Quantos dias cabem na noite, lançado originalmente em 2021 pelo selo Class, agora chega a leitores de língua portuguesa na África. É a editora Kizua, liderada por Pedro Macamo, que disponibiliza o volume em Angola, Cabo Verde e Moçambique. Nas duas obras, os versos dialogam com a filosofia, sua área de formação e de concentração.
Em conversa com o Magazine, Marli enfatiza a emoção que marca a estreia na tradução de sua obra, nesse primeiro momento para o francês. Como menciona, a equipe responsável é a mesma que tem assinado a versão, nesse caso do francês para o português, de romances da escritora belga Corinne Hoex, e que estão sendo lançados pela Bestiário, liderada por Roberto Schmitt-Prym.
“É uma sensação incrível essa, de saber que agora os meus poemas escritos em português estarão acessíveis para leitores de francês, e em diferentes locais”, ressalta. “O mesmo vale para a edição que está sendo lançada na África. Não se consegue dimensionar onde esses versos vão parar. Não tem como não se emocionar.” Ela comenta que há possibilidade de que já na sequência edições sejam viabilizadas em outras línguas.
Marli igualmente volta sua atenção para outros gêneros. Nesta semana chegou às livrarias nova edição de seu ensaio filosófico O pêndulo da angústia, sobre o qual concede entrevista que pode ser conferido abaixo. E em maio deverá ser distribuído um novo ensaio, Antes que o dia anoiteça – Ressentimento e feminicídio: uma contribuição.
Como acadêmica, Marli ainda contribui no 5º Congresso das Academias de Letras do Rio Grande do Sul, que ocorrerá em novembro, em Santo Ângelo. E organiza, com Rubén Daniel Méndez Castiglioni, antologia de ensaios alusivos aos 120 anos de nascimento do poeta Mario Quintana, iniciativa da ARL.
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“É como um espelho refletindo olhares”
Além do lançamento de novo livro de poesia, com a simultânea tradução dele para o francês, Marli Silveira também recoloca nas livrarias um de seus ensaios centrais na área da filosofia. Mais de duas décadas separam O pêndulo da angústia: por uma ética da finitude em Ser e Tempo, que agora sai pelo selo Ataraxia, da editora Bestiário, de sua edição original, então pela Edunisc, em 2003.
A obra chega às livrarias a partir desta semana. A base vem da dissertação de mestrado de Marli em Filosofia, defendida na reta final dos anos 1990 na UFSM. Para a nova edição, ela promoveu algumas revisões e atualizações. Em sua formação, Marli tem graduação em História e doutorado em Educação, com dois pós-doc, em Letras e em Filosofia. Como escritora, tem em torno de 40 títulos publicados. Confira entrevista com a autora.
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Entrevista
Marli Silveira Escritora e professora
Tua poesia começa a ser traduzida e editada no exterior. Qual a sensação de saber que leitores de outras línguas apreciarão tua obra?
Lembro com muita clareza da primeira vez que vi um leitor lendo um livro de minha autoria. Era um final de tarde, na antiga livraria da Unisc, localizada onde hoje temos um dos prédios do complexo do Centro Administrativo. A sensação de ser lida por alguém fora das minhas relações mais próximas, àquela altura, era da ordem do inexprimível; sentimos e até compreendemos minimamente o que acontece, mas a nossa literatura, a partir daquele instante, recobre-se de independência. Hoje, quando alguns dos meus livros começam a ser traduzidos e conhecidos por outras culturas, na Europa e na África, lidos em outras línguas, por leitores que carregam outras experiências literárias e humanas, revivo aquele gesto de ser lida pela primeira vez: sinto, gosto do que sinto, acompanho indicações do que representa a tradução e a imersão da obra em outros continentes, mas sei que a minha literatura e minha poesia alcançam lugares que talvez tenha sonhado com mais vagar. É como um espelho refletindo olhares, nuances e possibilidades que foram, pelo menos por algum tempo, apenas meus.
Também está sendo lançada nova edição de um ensaio teu, publicado há mais de duas décadas. Como vês a atualidade de O pêndulo da angústia, diante do cenário social e humano contemporâneo?
A primeira edição de O pêndulo da angústia saiu em 2003, pela Edunisc, agora pelo selo da Bestiário. De lá para cá, o livro alcançou muitos leitores e pesquisadores, especialmente em Heidegger. Apresento não só a possibilidade de vislumbrarmos uma ética existencial a partir da decisão autêntica de mundo, e aqui autêntica tem o sentido de uma compreensão alargada pela tonalidade afetiva que nos coloca na proximidade de nós mesmos, ambientada pela finitude, como o aspecto central dos afetos na e para a condição humana. Há categorias e conceitos na obra de Heidegger que carregam o apelo por novos direcionamentos epistemológicos e que me ocupam, apresentando diferentes mirantes para a compreensão da condição humana. Minha questão de fundo não é ser especialista em um autor, mas reconhecer a emergência de certos horizontes teóricos que são fundamentais para a interlocução com o mundo e a contemporaneidade. Por isso, O pêndulo da angústia continua sendo atual, podendo auxiliar para a compreensão da dimensão de uma ética originária adstrita à vulnerabilidade que tensiona a existência humana no mundo.
Voltas tua atenção para a problemática (a tragédia) dos feminicídios, que abordas em novo livro, por chegar. É tema incontornável, não é?
Sim. O intelectual está em um mundo e deve ser capaz de mediar ou constituir “mirantes” epistemológicos/teóricos que sirvam para desdobrar horizontes, encurtando distâncias e tensionando a existência humana no mundo. Assumi alguns compromissos, entre eles a tarefa de pautar discussões e apresentar contribuições para temas e fenômenos que estão inseridos na dinâmica social e cultural da sociedade brasileira e contemporânea. No caso específico, com o livro Antes que o dia anoiteça (com lançamento previsto para o dia 30 de maio), procuro apresentar o desdobramento de uma tese, que é a relação entre o ressentimento e o feminicídio. O deslocamento se dá pelo interior da filosofia e encontra o seu ponto de convergência na dramática e violenta tessitura misógina e feminicida da sociedade atual. Estreitar os âmbitos e apresentar perspectivas; dialogar com outros recortes teóricos e antropológicos; pautar a existência e os desafios para a constituição de um mundo menos violento e mais humano. Enfrentar com honestidade intelectual a emergência pela/da vida.
Estás na presidência da Academia de Letras de Santa Cruz. O ano de 2026 reserva muitas atividades da entidade junto à comunidade?
A Academia de Letras de Santa Cruz do Sul tem, desde a sua fundação, realizado muitas atividades, parcerias e projetos literários. É natural que o reconhecimento e a continuidade da inserção da entidade na vida cultural da comunidade ou das comunidades se aprofundem e outras parcerias e projetos ocorram, tornando ainda mais significativa a atuação literária da Academia. A partir do final de abril, por exemplo, em parceria com o Sesc Santa Cruz e o München Open Mall & Residence, participaremos de um dia de magia e histórias, na tarde do dia 25 de abril, aproximando os escritores e as escritoras do público em geral. É um projeto que deve se tornar uma tradição e mensalmente fazer do München mais um espaço importante na promoção artística e cultural do município e da região. Também estaremos envolvidos em outras atividades e eventos, como o 5º Congresso Estadual das Academias de Letras, que ocorrerá no final de novembro, em Santo Ângelo. Devemos destacar que a Academia conta com uma sede, no Centro de Cultura Jornalista Francisco José Frantz, parceria com a Secretaria de Cultura e a Prefeitura de Santa Cruz do Sul. Na sede, trabalhamos na permanente qualificação do espaço, de modo especial com a biblioteca da Academia, que está em fase de catalogação e qualificação/ampliação do seu acervo. A colega Valquíria Ayres Garcia tem se dedicado à organização bibliográfica. Ainda queremos tornar nossa sede um importante espaço na promoção literária e intelectual de Santa Cruz, realizando bate-papos, seminários, encontros e lançamentos de livros etc., visando reunir os mais diferentes públicos e contribuir para a formação leitora.
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