Andréia pretende encorajar outras mulhares
Andréia Marchese Araujo, 39 anos, tem convicção de que só está viva porque conseguiu pedir socorro a tempo. “Eu parei nos 95% de chance de não estar aqui hoje”, afirma. Ao aceitar se identificar nesta reportagem, ela diz falar não apenas por si, mas por “muita mulher que está por trás de mim, passando pelo mesmo e que não tem coragem”. Para Andréia, o que viveu não foi amor, mas um ciclo de violência que seguiu um padrão repetido com outras vítimas. “Eu acredito que hoje seria a minha missa de sétimo dia”, diz, ao lembrar que tinha certeza de que morreria.
O relacionamento começou há quase dois anos. Ela acreditava estar atenta aos sinais, mas afirma que a violência não começou com agressões físicas. “Vem a violência psicológica. Tu não vê, não enxerga, e ninguém te avisa.” Segundo ela, o agressor não se apresentava de forma agressiva no início. “Ele não chega pedindo foto, passando a mão. Ele conquista.” O perfil anterior do companheiro, diz, se repetia: mulheres sozinhas, com filhos, que já haviam passado por violência e buscavam cuidado. “E eu pensei: agora estou protegida.”
Com o tempo, o controle se intensificou. Mãe de cinco filhos – dois deles com Transtorno do Espectro Autista (TEA) –, Andréia conta que, durante o relacionamento, teve as redes sociais invadidas, contatos bloqueados, roupas vigiadas, o celular clonado e monitoramento constante através de câmeras instaladas na residência. Em casa, portas foram quebradas, objetos destruídos, ameaças constantes feitas com facas, agressões físicas e episódios de extremo terror. “Eu pensava: quando ele parar de bater nas portas, vai bater em mim.”
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A primeira agressão física ocorreu dentro de um carro de aplicativo. Outras vieram depois, acompanhadas em seguida de pedidos de perdão, choro e promessas de mudança. “A gente vai vivendo em modo sobrevivência, pisando em ovos”, resume.
O momento mais crítico aconteceu no dia 27 de janeiro, quando ela tentou, mais uma vez, encerrar o relacionamento. Ao ser agredida com socos no peito e na cabeça, conseguiu, em meio ao desespero, ligar para a Brigada Militar. “Eu tô viva hoje porque a Brigada chegou rápido. Se não tivesse chegado, não ia dar tempo.” O agressor foi preso, mas momentos antes ameaçou: “Reza pra eu não sair do presídio, porque, se sair, vou voltar e matar todos os teus filhos e tu depois”, lembra Andréia. Ela passou a viver sob medo constante. Ainda assim, decidiu não se calar. “No primeiro empurrão, no primeiro grito, no primeiro soco na parede, procure ajuda”, orienta. Para ela, falar é uma forma de proteção para si e para outras mulheres. “Eu prefiro ser matéria viva, e não morta.”
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A história de Andréia não é caso isolado. Ela se conecta a um cenário mais amplo de violência contra mulheres, em que ameaças, controle e agressões antecedem mortes anunciadas. É a partir desse relato que esta reportagem passa a olhar para dados, alertas e caminhos possíveis para interromper a escalada que leva ao feminicídio no Rio Grande do Sul e em Santa Cruz.
O que Andréia descreve ao longo do relacionamento, como o encantamento inicial, o controle que soa como cuidado, o isolamento progressivo e a escalada da violência, não é exceção. Trata-se de um exemplo real da Teoria do Ciclo da Violência, proposta pela psicóloga Lenore Walker. Segundo a psicóloga santa-cruzense Carolina de Almeida, a teoria ajuda a identificar fases relativamente previsíveis em um relacionamento permeado por violências. “De forma sintética, o ciclo costuma se organizar em três fases principais: tensão, agressão e lua de mel”, explica.
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Conforme a psicóloga Carolina de Almeida, esse padrão é recorrente em casos de violência doméstica e ajuda a explicar por que tantos agressores conseguem manter, fora de casa, a imagem de “homem comum” ou de “bom cidadão”. “Muitos aprendem a regular sua imagem social e a exercer controle de forma seletiva. No espaço público, onde há vigilância e consequências claras, seguem normas. No ambiente privado, onde acreditam ter poder e menor risco de punição, liberam comportamentos violentos”, explica.
Na prática clínica, esse comportamento aparece em homens considerados exemplares no trabalho e socialmente educados, mas que em casa controlam roupas, amizades, mensagens e dinheiro, reagindo com humilhação ou agressividade sempre que percebem perda de comando. A violência, segundo a psicóloga, não surge de forma aleatória. Está associada a crenças centrais disfuncionais, como a ideia de posse sobre a parceira ou a justificativa de que a mulher “provocou” a agressão. “A violência se torna um meio de manter hierarquia, controle, poder e silêncio, especialmente quando o agressor se sente ameaçado emocionalmente.”
Esse processo costuma seguir uma escalada previsível. Carolina frisa que os casos mais graves raramente surgem de uma hora para outra. Antes do feminicídio ou tentativas, alguns sinais muitas vezes são minimizados pela própria vítima, pela família ou entorno social. Entre eles estão o controle excessivo disfarçado de cuidado, o ciúme persecutório, isolamento da mulher, ameaças veladas ou diretas e um histórico contínuo de violência psicológica que corrói a autoestima e a percepção de risco. “São sinais que vão sendo naturalizados por medo, esperança de mudança ou por uma cultura que normaliza a violência.”
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A psicóloga reforça que o risco de feminicídio aumenta de forma significativa quando a mulher tenta romper o relacionamento ou retomar o controle sobre a própria vida. Do ponto de vista psicológico, explica Carolina, a separação ameaça o eixo central da violência: o poder e o controle. “O rompimento não é vivido como o fim de um vínculo entre dois sujeitos, mas como perda de domínio. Surgem pensamentos rígidos e perigosos, como ‘se ela não for minha, não será de ninguém’”, alerta. Por isso, esse período exige medidas imediatas de proteção e nunca tentativas de conciliação.
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Mas interromper o ciclo da violência é uma responsabilidade coletiva, não somente da vítima. “A violência se sustenta por silêncio, normalização e permissões culturais. Quando vizinhos, familiares, instituições e profissionais minimizam sinais, eles acabam reforçando o comportamento do agressor”, salienta. Carolina alerta que a família tem um papel decisivo em casos de violência contra a mulher, tanto de proteção à vítima quanto de risco.
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Ela afirma que, na clínica, é muito comum que familiares minimizem sinais que podem ser perigosos. Frases como “ele sempre foi tão educado”, “todo casal briga” ou “isso vai passar” são respostas comuns da família em casos nos quais a mulher decide falar.
Na prática, é comum que o entorno reaja de acordo com sentimentos como negação, normalização, esperança de mudança ou medo de interferir. No entanto, o papel assumido pela rede familiar não precisa ser de resolver o casal. “Ela precisa proteger a pessoa em risco. A diferença entre minimizar e agir pode ser, literalmente, a diferença entre vida e morte”, reforça.
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