Querido Rafi,
Já que estamos falando tanto de punks alemães, que tal essa que eles aprontaram esta semana? Um verdadeiro congresso deles está rolando em Sylt (sim, a mesma ilha que bomba no verão reunindo ricaços do país e na qual teve aquele lance, há dois anos, da paródia da música “L’amour toujours”… não pesquisei se os amigos irreverentes decidiram invadir a praia dos esnobes de caso pensado, para uma afronta, ou se foi mero acaso. Divertido seria se tiver sido planejado).
Até te mandei um uotizapi (bah, me recuso a falar “zap” como muitos) propondo que um dia a gente vá lá participar. Respondeste com o silêncio que anuncia uma estrondosa porém elegante recusa, através da procrastinação eterna (por dentro estarias pensando aquela expressão tradicional dos nossos avós maternos, o poderoso “posagora…”, contra o qual não há argumento). Deixemos assim.
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Pois então, mudando de saco pra mala, se o Theobald ajudou a fundar Santa Cruz, seu guri Heinrich, nosso tataravô, teve muito protagonismo local. Lembro das tuas pesquisas que a residência dele servia à comunidade como uma espécie de “hub” (para usar um termo moderno e portanto odiado por ti, hehehe).
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Essas questões me assombram, Rafi. Os Gessinger chegaram ao Brasil em 1854, depois de uma viagem longa, tensa, perigosa, sofrida e sem volta. Hoje em dia, emigrantes brasileiros compram uma passagem de voo em promoção, ficam no saguão do aeroporto chorando durante horas com a parte da família que fica; pegam um voo confortável, de ridículas doze horas, durante o qual comem e bebem às turras, para chegar em Frankfurt e imediatamente trocar mensagens com quem ficou. E continuar chorando como se fosse o fim… para finalmente retornar ao Brasil dali a alguns meses para turistar, com os bolsos cheios de euros. E alguns, infelizmente, para falar mal da Alemanha. Falar mal de barriga cheia, esses poucos.
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Agora, imagina, lá atrás, os nossos queridos antepassados. Houve um último dia em que o Theobald olhou para o Mosel e pensou “niemals werde ich dich wiedersehen”. Com sua esposa, a Josepha, por uma última vez dormiu na casa em Zeltingen. Daí saíram rumo a Hamburg, com seus pertences todos dentro de baús, o pila contadinho, para pegar o navio.
Ali começava a saga. Meses no mar. Doenças. Convivendo com as mesmas pessoas, dia e noite. Os navios eram pequenos e precários, sem o luxo dos transatlânticos de cruzeiro de hoje em dia. Pessoas morriam durante a jornada. E outras nasciam.
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Ao chegar no Brasil, aquela sensação do “e agora?“. Idioma estranho, clima diferente, cultura incompatível. Mais perigos. E sem possibilidade de volta. Ponte queimada. É, meu, isso sim foi uma verdadeira odisseia.
Mas eles, assim como a esmagadora maioria das famílias que daqui foram para aí, prosperaram. Não somente no aspecto econômico, mas lindamente em várias direções. É a impressionante capacidade que o alemão tem, até hoje, de se reinventar, de ressurgir dos escombros, de reagir e sair do último lugar e terminar a corrida em primeiro.
Assim como também é muito bacana ver tantos brasileiros que chegaram aqui na Alemanha para estudar, trabalhar, e que adotaram o país como seu, aprendendo o idioma, andando na linha, construindo. E que também floresceram e, por fim, descobriram caminhos de como amar a ambas as pátrias.
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É, Rafi. Acabei de decidir que vou para Sylt, no próximo verão. Como esnobe ou como punk, mas vou.
Grande abraço und bis nächste Woche!
Armando
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