Escrever uma crônica é mais ou menos como receber um punhado de farinha e ter que produzir pão para 300 pessoas. Um pequeno flagrante pode suscitar uma ótima narrativa. Quem escreve, fica o tempo todo à espreita de um assunto possível. Alguns afloram bem viáveis, outros permanecem por um tempo na lista de espera, sofrem eventual assédio, no entanto ao final talvez sejam descartados. Os temas podem estar longe, porém às vezes rondam insistentes nas proximidades.
Sempre tive vontade de captar fragmentos de fala de pessoas caminhando na praia e publicar um livro. Não queria histórias inteiras, só gravetos miúdos, mas suficientes para configurar os sentimentos de quem dispõe de tempo livre para esvaziar sua alma. “Passou os sócios para trás e se mandou com a grana.” “Se instala na casa como se fosse a dona, porém não dobra um dedo para ajudar no serviço. E pior: ainda trouxe duas amigas que são do mesmo padrão.” “Tu sabias que a Flora está no seu quinto marido? Não tem vergonha!” “Vendeu uma vaca e comprou outra da mesma raça.” Os desabafos e as informações são quase infinitos.
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Deixo claro que não me detenho para ouvir histórias. Na semana passada, quebrei o padrão. Voltando da minha caminhada, me deparei, ali onde o rio Tramandaí se encontra com o mar, com três pessoas conversando. Um homem sentado sobre uma moto e um casal de bicicleta atento ao que o da moto contava. Algo me fez parar para ouvir. Fingi estar olhando o mar e ganhei de presente uma história tocante, plena de sensibilidade e amor.
Não peguei o início, mas deduzi que o da moto seja taxista. Contou que conduzia uma mãe e uma menina. Ao embarcar, a criança rasgou a tira do seu chinelinho, o que a deixou muito entristecida. Sua primeira reação foi como iria para a escola na manhã seguinte. Preocupada, pediu muito que a mãe remendasse a tira, pois não queria perder a aula.
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Percebendo aquela súbita angústia, o taxista se comoveu e, notando uma loja de calçados na proximidade, foi lá e comprou um par de chinelinhos novos e doou àquela criança aflita. A corrida deu R$ 20,00 e pelos chinelinhos paguei trinta, mas nunca senti tão imensa satisfação e paz como naquele momento. A felicidade da menina fez minha felicidade ser ainda maior, disse. Nunca mais encontrei as duas, entretanto ficaram para sempre no meu coração, arrematou.
Ignoro como a conversa evoluiu, pois passei adiante. Certamente, aquele desconhecido não vai ler esta crônica e acho que não mais verei aquelas três pessoas. Se a história de vida do taxista se enriqueceu, se provocou tamanha felicidade naquelas pessoas humildes que conduzia, ele não vai saber que deixou também em mim a certeza de que fazer o bem, mesmo que em forma de um pequeno par de chinelos, não tem preço e contribui para plantar a paz na alma.
E ainda aprendi, mais uma vez, que a oportunidade da gentileza, da expressão do amor reside em qualquer momento, em qualquer lugar e pode se apresentar por preço irrisório, até mesmo num par de chinelinhos de dedo.
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