Na adolescência, minhas expectativas sobre o século 21 foram em certa medida moldadas por livros e filmes de ficção científica. E sempre me chamou a atenção que, entre os melhores autores do gênero, como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e Philip K. Dick, o respeito pela ciência – ou pelo pensamento científico – era evidente até nos enredos mais extravagantes.
É uma literatura que se alimenta do conhecimento e, de forma interativa, acaba também por enriquecê-lo. Muitos avanços tecnológicos, como internet, inteligência artificial, drones e outros, nasceram na imaginação de autores por vezes considerados “escapistas”. Surgiram como fantasia de escritores do século passado (e mesmo antes, em textos de H. G. Wells e Júlio Verne).
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Existia um solo mais fértil, então. Refiro-me a um tempo em que conceitos científicos gozavam de mais popularidade. Não deixa de ser irônico que hoje, vivendo no século 21 tantas vezes antecipado por artistas entusiastas da ciência (sim, tais coisas não se excluem necessariamente), sejamos testemunhas de um esforço constante para desacreditar e ignorar esses fundamentos.
Multiplicam-se autodeclarados “pesquisadores” autodidatas, sem formação nenhuma, que ganham fama e público divulgando ficções baseadas na negação de todo um corpo construído de conhecimento. Se a teoria da “Terra convexa” (ou plana, mas com um nome mais bonito) fizesse sentido, por exemplo, todos os currículos escolares precisariam ser refeitos. Supostos “paranormais” que conversam com alienígenas ganham dinheiro dizendo que a força da gravidade é uma ilusão e o sistema solar nem existe.
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Há uma cena clássica de 2001– Uma Odisseia no Espaço, filme de 1968 baseado em texto de Arthur C. Clarke, que faz uma ligação entre a pré-história e o que seria o século 21. Um hominídeo, remoto ancestral nosso, descobre que pode utilizar um osso como ferramenta e arma. Depois de usá-lo para matar animais, em momento de euforia, arremessa-o para o alto. Num corte instantâneo, o osso ascendente ganha a forma de uma nave espacial.
São eras de evolução técnica resumidas em segundos. Bem, numa versão de 2001 mais alinhada com as novas tendências, essa transição seria diferente: o osso cairia na cabeça de um cientista e o mataria. Afinal, eles são inimigos do verdadeiro conhecimento. Que está ao alcance de quem? Dos charlatães, naturalmente.
Enquanto isso, entidades médicas preocupam-se hoje com o retorno de doenças já controladas, como o sarampo, porque muitas pessoas pararam de buscar vacinação. Pois leram ou ouviram em algum lugar que vacinas são mais perigosas do que a própria enfermidade. É mais uma ficção deste século 21.
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