Dicionários definem o termo “fatalidade”, em primeiro lugar, como um acontecimento inevitável, algo praticamente determinado pelo destino e que não se pode impedir ou alterar. Em suma, foi assim porque não poderia ter sido de outro modo.

Com o tempo, a palavra passou a ser utilizada mais livremente, para designar qualquer tragédia ou evento funesto – mesmo aqueles perfeitamente evitáveis. Compreensível: se falamos em fatalidade, então ninguém é realmente responsável pelo que houve. Foi uma consequência de circunstâncias fortuitas, casualidades, o destino enfim. Nada de culpa, responsabilização e julgamentos.

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Agora, esta é uma daquelas histórias infelizmente reais. Aconteceu na Itália, em janeiro de 1951. O anúncio de uma vaga de emprego para secretária atraiu em torno de 200 mulheres para o endereço onde ocorreriam a entrevista e o exame para seleção (um teste básico de datilografia), na Via Savoia, em Roma.
Com a grande procura para disputar a única vaga, houve aglomeração de candidatas na escadaria do prédio. Em razão da superlotação, a estrutura cedeu, num acidente que deixou 80 mulheres feridas e uma delas morta.

O caso gerou comoção e exigiu investigação policial. Mas, afinal, de quem era a responsabilidade ou culpa? Do proprietário do escritório de contabilidade, que não se precaveu para evitar o pior? Do zelador do prédio, que não providenciou os necessários cuidados de manutenção? Do arquiteto, que assinou uma obra com falhas estruturais? Ou – como parte da opinião pública chegou a dizer – de algumas vítimas, que agiram de forma imprudente e precipitaram o desastre?

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O episódio inspirou o filme Roma às 11 Horas, dirigido por Giuseppe De Santis e lançado em 1952. O tipo de questão que ele levanta pode se repetir nos mais diversos contextos. Há pouco tempo, uma jovem praticante de rope jump foi arremessada para a morte em Minas Gerais, pelas mãos de instrutores supostamente profissionais.

Quatro pessoas já estão presas, mas as perguntas provavelmente nunca irão acabar. As dezenas de pessoas que assistiram a tudo não viram que ela estava sem a corda? Por que não fizeram nada? E como a própria menina não percebeu? A prefeitura não devia ser responsabilizada? E o governo federal?

Mais adiante, outras situações. Se levo um familiar para atendimento médico e ele volta pior, ou até morto, quem é o responsável? Quando pacientes de câncer morrem após usar medicamentos falsos, quem são os culpados? Perguntas sempre, e sempre alguém que dirá: foi uma “fatalidade”. Mesmo que não seja o caso.

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Lavignea Witt

Me chamo Lavignea Witt, tenho 25 anos e sou natural de Santiago, mas moro atualmente em Santa Cruz do Sul. Sou jornalista formada pela Universidade Franciscana (UFN), pós-graduada em Jornalismo Digital e repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações.

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