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Fronteiras: onde somos apenas um documento

“Nunca julgue um livro pela capa” é expressão originária da Inglaterra do século 19. A metáfora sugere que não se deve avaliar uma pessoa apenas pela aparência física ou primeira impressão. É regra da qual poucos discordam, e pouquíssimos praticam. Penso nisso ao passar por controles de fronteiras internacionais, onde somos julgados não apenas pela aparência, mas principalmente pela capa do passaporte.

Já atravessei mais de mil pontos de fronteira, nos limites físicos de países e em aeroportos, usando diferentes passaportes. Familiarizei-me com olhares, carimbos e a linguagem corporal de diferentes culturas. Fui tratado e vi outros o serem, com todos os tons de gentileza e hostilidade. A barreira migratória é sempre um momento de tensão, mas também uma experiência cultural reveladora sobre o país que nos recebe.

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Da racionalidade quase apática de agentes asiáticos à imprevisibilidade frequente de fronteiras na América Latina, relato aqui, e no próximo artigo, alguns dos muitos episódios marcantes. Na vasta maioria das vezes, é claro, nada de memorável acontece, mas, ocasionalmente, aparecem contratempos e situações insólitas. Começo pelos aeroportos internacionais, que não são limites físicos. No próximo, abordarei ainda as tão ou mais interessantes fronteiras terrestres.

Em minha primeira entrada na Arábia Saudita, há cerca de uma década, eu aguardava na longa fila de imigração, impressionado com as centenas de mulheres em vestidos pretos e usando niqab, véu que deixa apenas os olhos à mostra. Eu não esperava percalços. A estreita relação entre o então presidente Donald Trump e os mandatários da Casa de Saud estava estampada em meu passaporte estadunidense, com um visto de negócios válido por cinco anos.

Na fila, atrás de mim, uma mãe equilibrava um bebê de poucos meses num braço e uma pesada sacola no outro. Ao chegar a minha vez, ofereci que mãe e filho passassem à minha frente. Ao chegar ao balcão, porém, o oficial, em seu alvo traje árabe, conduziu os dois de volta à fila e me chamou. Expliquei o gesto e ele respondeu apenas: “Não fazemos isso por aqui”. Para não causar maior confusão, me dirigi, mesmo contrariado, ao balcão do agente. 

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O atendimento foi cortês, quase reverente, mas eu me sentia profundamente constrangido com a situação daquela mãe. O funcionário seguiu com o protocolo, me pediu para olhar para uma câmera e, subitamente, anunciou com semblante grave que havia um grande problema. Em uma fração de segundo, imaginei prisões terríveis e confusões diplomáticas. Ante meu olhar apreensivo, ele completou: “O senhor não está sorrindo na foto”, e deu uma sonora gargalhada. Respondi com um sorriso amarelo. Ele me devolveu o passaporte e completou com a frase: “Americanos são muito bem-vindos no Reino. Bons negócios”.

Perto dali, em Israel, passei por outro procedimento pouco habitual alguns anos antes. Seguindo orientação prévia, e para evitar problemas de entradas futuras em países muçulmanos, solicitei que o carimbo não fosse colocado no passaporte, e o recebi em uma folha separada. 

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Recebi outro carimbo separado do passaporte na Rússia, ao chegar com um visto de trabalho no início dos anos 1990, logo após a dissolução da União Soviética. Na imigração, passei pela experiência que ainda era uma herança do regime anterior. Após o desembarque em Moscou, meu passaporte brasileiro desapareceu por uma fresta, percebi olhos que me observavam por outra, e, alguns metros e longos minutos mais adiante, o documento saiu por uma terceira abertura.

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Quem viaja conhece a eternidade contida nos segundos entre a entrega de um passaporte, sobretudo de um país em desenvolvimento, a uma autoridade de imigração, e o alívio de tê-lo de volta em mãos, com a entrada autorizada. Assim como o carimbo, o visto russo também era emitido separadamente do passaporte, procedimento que, durante a Guerra Fria, evitava retaliações de países ocidentais liderados pelos Estados Unidos aos que visitavam nações da cortina de ferro.

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No lado positivo, a experiência de fronteira é sempre uma lição de humildade. Apresentamo-nos metaforicamente nus aos agentes de imigração, que em instantes avaliam nossa índole e intenções, baseados, esperamos, em treinamento e intuição. Enfrentamos uma tábua rasa de reputação, que é rapidamente construída de acordo com nossa aparência e, principalmente, por nossa nacionalidade. Como livros em uma estante, somos julgados pela capa. Do passaporte. (continua)

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Karoline Rosa

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Karoline Rosa

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