Paleotoca situada dentro do Parque da Gruta, em Santa Cruz do Sul, um dos pontos de visitação que devem integrar o Geoparque Triássico, em formação
O Geoparque Triássico projetado em 2023 para o Vale do Rio Pardo tem o intuito de proteger o patrimônio geológico, assim como fortalecer o turismo regional através de uma rota que engloba oito municípios, que apresentam formações fossilíferas.
A proposta une ciência, preservação e desenvolvimento sustentável. Além das formações geológicas do período triássico (entre 240 e 200 milhões de anos atrás), como formações rochosas, a presença de fósseis, de paleotocas escavadas por grandes mamíferos pré-históricos e paisagens naturais compõem o conjunto que destaca o potencial da região para ações de educação ambiental e visitação responsável.
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Entre os municípios com potenciais que integram o projeto está Santa Cruz do Sul, que conta com quatro geossítios em área urbana. No Parque da Gruta dos Índios, foram localizadas paleotocas escavadas por preguiças gigantes há cerca de 10 mil anos. Já no Parque da Cruz, a história geológica apresenta duas formações distintas: botucatu e basalto, traduzindo todas as ocorrências vulcânicas da região.
No Santuário de Schoenstatt, foram descobertos cinodontes, fósseis e esqueletos de animais pré-históricos. E, nas imediações do autódromo internacional, rochas e fósseis do período triássico foram localizados. Da mesma forma, na RSC-153, entre Vale do Sol e Vera Cruz, materiais de 85 espécimes foram encontrados e estudados ao longo dos últimos 14 anos. Candelária, por sua vez, tem tradição já reconhecida na área.
O Museu Aristides Carlos Rodrigues, que funciona no Parque de Eventos Itamar Vezentini, é detentor de um dos maiores acervos fossilíferos triássicos da América Latina. Situado entre antigos lineamentos tectônicos, conta com afloramentos preservados por camadas de basalto. O município, que sedia pesquisas na área da paleontologia há mais de 60 anos, tem mais de 40 tipos de animais pré-históricos já catalogados.
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Além de Santa Cruz e Candelária, o projeto envolve ainda Novo Cabrais, Venâncio Aires, Rio Pardo, Vera Cruz, Vale do Sol, Passo do Sobrado e Vale Verde.
Pesquisa divulgada em 2025 revela que a procura é 12 vezes maior por geoparques do que por outros destinos. Diante disso, e a partir do potencial dos projetos em fase de criação e dos geoparques existentes no Estado, um comitê trabalha no planejamento estratégico para traçar as demandas para fortalecer o setor a partir do programa Avançar nos Geoparques, lançado pelo governo do Estado, que captará e auxiliará com recursos financeiros.
O comitê de discussões é formado por representantes do governo do Estado e dos geoparques já reconhecidos, além do “Raízes de Pedras” (Jaguari, Nova Esperança do Sul, São Vicente Sul, Mata, São Francisco de Assis e São Pedro) e do “Triássico Vale do Rio Pardo”, que já estão em estágios mais avançados de formatação. No Rio Grande do Sul outros dois, um na zona sul e outro na fronteira, encontram-se em fase inicial. Após um moroso processo, avaliadores da Unesco visitam os locais para validação.
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Segundo o coordenador do Comitê Estadual de Geoparques, coordenador de segmentação da Secretaria Estadual de Turismo, Álvaro Machado, a consolidação de um geoparque depende inicialmente da identificação da importância geológica, das manifestações culturais que existem dentro desse espaço, e das necessidades de proteção do ambiente. “Cria-se, então, um território que pode envolver de um a vários municípios, e que é quem vai buscar junto à Unesco o reconhecimento como um geoparque. Isso é um processo bastante lento.”
À medida em que essas etapas vão sendo vencidas, há um processo de sensibilização das comunidades que formarão esse território. “E estou convencido de que o turismo é grande ferramenta para a manutenção desses espaços”, reforça. “Além de que a gente passa a estar inserido em rede global de geoparques, e isso cria relação, passa a haver trocas de experiências, de informações entre esses espaços. Isso é de importância extrema.”
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A consolidação de um geoparque, segundo Álvaro, também evidencia e referenda a importância da cultura local. “Em primeiro lugar, a gente vê um envolvimento regional do território que compõe o Geoparque. Municípios, prefeituras, comunidades que estão inseridas ali começam a entender a valorização maior do seu espaço, seu território, a partir desse reconhecimento, porque muitos estudos são feitos, levantando muitas informações da história, da cultura, do ambiente, do município, e isso é importante inclusive como valorização de identidade local.”
O geólogo e idealizador do projeto do Geoparque Triássico, Enoir Greiner, enfatiza que é preciso aproveitar o potencial regional para consolidar a iniciativa como rota para os visitantes. “Temos que ter a competência de que, trazendo esses turistas pelo mote do Geoparque, há todas as demais belezas naturais para mostrar a eles, todos os nossos atrativos turísticos. Podemos, por exemplo, durante a Oktoberfest, fazer excursões a esses geossítios naqueles dias de folga, em que não há festa no parque, mas os turistas estão aqui. Nós temos o que mostrar na região.”
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Em 2023, a Unesco nomeou e reconheceu a Quarta Colônia e Caçapava do Sul como novos geoparques, que passaram a integrar a Rede Mundial de Geoparques. Com a inclusão dessas duas regiões, o Rio Grande do Sul tornou-se o Estado com o maior número de geoparques mundiais no Brasil. São três, incluindo o Caminhos dos Cânions do Sul, na divisa com Santa Catarina. Os outros três clasificados pela Unesco são: Seridó (Rio Grande do Norte e Paraíba), Araripe (Ceará) e Uberaba (Minas Gerais).
O Geoparque da Quarta Colônia é formado por nove municípios: Agudo, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Ivorá, Nova Palma, Pinhal Grande, Restinga Seca, São João do Polêsine e Silveira Martins. A iniciativa, encabeçada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), consolidou-se em parceria com o Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento Sustentável da Quarta Colônia. As paisagens, a abundância de água dos rios e de cascatas, a raridade dos fósseis de dinossauros encontrados e que testemunham as mudanças ambientais nos últimos 250 milhões de anos, e a diversidade cultural, formam a singularidade do conjunto de características que consolidam a região como destino turístico.
A diretora do Geoparque é Eduarda Caroline Brum. Ainda compõem o grupo que conduz as atividades o assessor administrativo Victor Maffini e a responsável pela comunicação, Giovana Fernandes Moreira Silva. A coordenação é da prefeita de Nova Palma, Jucemara Rossato, cidade que sedia a equipe.
O presidente da Associação de Turismo do Vale do Rio Pardo (Aturvarp), Djalmar Ernani Marquardt, explica que, para que possa ocorrer a exploração científica, acadêmica e turística, a certificação precisará ser feita junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). E o processo deve ocorrer a partir de um consórcio intermunicipal.
“Nós temos que criar um consórcio intermunicipal, para ter políticas públicas de proteção a esses geossítios, para que não tenhamos exploração indevida e sem autorização, principalmente dos afloramentos, onde estão sendo encontrados fósseis muito bem conservados, devido à característica própria do nosso solo. Tem que fazer com que isso seja preservado, cientificamente, academicamente e turisticamente. Para isso, precisamos criar esse consórcio.”
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Em tratativas com os oito municípios, a Aturvarp projeta a formatação do consórcio nos próximos meses. “Possivelmente em março, na primeira reunião da Amvarp, a gente vai criar o consórcio intermunicipal. E já escolheremos entre os prefeitos um deles como presidente, outro como vice-presidente do consórcio, para que, a partir daí, o próprio consórcio tome a frente de toda a organização do Geoparque.”
Enoir Greiner, geólogo e idealizador, enfatiza a importância da consolidação do consórcio. “As lideranças precisam tomar consciência de que isso é necessário, é um negócio de grande futuro que vai trazer uma cadeia de serviços e de renda para a região que é muito interessante. Além da preservação do patrimônio cultural e patrimônio geológico.” Ao lado do consórcio, os idealizadores enumeram outras necessidades, como recursos financeiros, oficialização de parcerias, convênios com universidades, instituições de pesquisa e empresas privadas.
Atuando junto à formatação de geoparques desde 2018, a sobradinhense Eduarda Caroline Brum, mestre em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria, é a diretora executiva do Geoparque da Quarta Colônia. Ela ressalta que as transformações vivenciadas pela Quarta Colônia não começaram apenas com a certificação como Geoparque Mundial da Unesco, mas desde o momento em que a região estabeleceu essa meta. “Esse processo já provocou mudanças significativas no envolvimento da comunidade, no fortalecimento do sentimento de pertencimento e na valorização do território.”
Segundo ela, desde a certificação da Unesco, um fortalecimento significativo da economia local foi constatado. “Produtores de artesanato, empreendedores do setor alimentício, restaurantes, pousadas e hotéis passaram a se beneficiar do aumento do fluxo de visitantes. Os turistas que chegam ao território buscam experiências autênticas, consumo de produtos locais, vivências culturais e contato com a paisagem, o que gera renda e movimenta o comércio regional de forma descentralizada. Todos esses fatores são certificados e potencializados pelos selos de Geoproduto, Amigo e Parceiro do Geoparque, que formam uma rede de mais de 150 associações e empreendimentos.”
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Eduarda salienta que o crescimento no número de visitantes após a certificação foi expressivo. “Um exemplo bem claro é Ivorá, que tem cerca de 1.929 habitantes. Apenas um parceiro do geoparque desse município carregou mais de 40 mil turistas nos últimos três anos em passeios nas trilhas de Ivorá. No caso do município de Restinga Sêca, foram recebidos mais de 400 mil visitantes em 2024. Esse dado evidencia o potencial transformador do geoparque quando o turismo é planejado de maneira responsável e alinhado ao desenvolvimento sustentável.”
Atualmente, segundo Eduarda, a diretoria trabalha no processo de revalidação do selo, o que precisa ser realizado a cada quatro anos.
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