Polícia

Grupo reflexivo para homens busca romper ciclos de violência em Santa Cruz

“Hoje eu não faria aquilo. Eu teria virado as costas e ido embora”, afirma Pedro*, 37 anos. “Naquele momento eu me senti humilhado, perdi o controle, mas me arrependi logo depois.” O relato é do servidor público que após uma discussão com a esposa, no fim do ano passado, tentou tirar à força a chave que estava nas mãos dela. O episódio terminou com medida protetiva, afastamento da família e o encaminhamento obrigatório ao grupo reflexivo para homens autores de violência doméstica, desenvolvido pelo Poder Judiciário em Santa Cruz do Sul.

Desde então, ele passou a frequentar os encontros conduzidos por um psicólogo cedido pela Prefeitura ao projeto. Nas reuniões, afirma ter começado a rever comportamentos, refletir sobre responsabilidade e compreender os impactos da violência dentro das relações. “Eu precisei parar de olhar o erro do outro e começar a entender o meu. O grupo faz a gente refletir sobre o que eu deveria ter feito diferente, o que eu posso mudar daqui pra frente”, afirma.

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Casado há 13 anos, Pedro conta que o relacionamento já vinha atravessando um período de desgaste marcado por discussões frequentes, dificuldades financeiras, crises familiares e um distanciamento emocional que, segundo ele, se agravou nos últimos anos. “As pessoas vão deixando de olhar o lado do outro e começam a enxergar só o próprio. Vai acumulando”, relata.

Ele relembra que o impacto das medidas judiciais foi imediato. Além da proibição de se aproximar da esposa e de afetar sua vida profissional, precisou se afastar temporariamente da filha. “Aquilo me desesperou. Eu pensava o tempo todo em quando veria minha filha de novo.”

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Ao longo do processo, Pedro diz ter percebido que muitas atitudes naturalizadas dentro das relações também configuram violência. “Às vezes a gente acha que violência é só a física. Mas existem outras formas de agressão, de desrespeito, que vão desgastando a relação.”

Hoje, quatro meses após o episódio, ele afirma buscar mudanças na forma de lidar com conflitos. “Relacionamento pode dar certo ou não. Mas eu tenho uma filha e quero que ela tenha orgulho do pai que tem. Quero que ela veja alguém que errou, mas tentou melhorar.”

*Nome fictício para preservar a identidade do entrevistado e de sua família.

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Mudar um comportamento cultural

Os grupos reflexivos são espaços de diálogo e conscientização, obrigatórios para homens em processo judicial pela Lei Maria da Penha e com medidas protetivas. A participação é imposta pelo juiz em qualquer estágio do procedimento cautelar, podendo ser no registro inicial ou na sentença penal condenatória.

“Se a gente coloca o comparecimento ao grupo reflexivo como obrigatoriedade, o descumprimento caracteriza um crime. E esse crime é o de descumprimento de medidas de proteção, um apelamento de três meses a dois anos, que ingressou no direito brasileiro em 2018”, explica o juiz responsável pela Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Santa Cruz, João Francisco Goulart Borges.

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Em Santa Cruz, os trabalhos do grupo iniciaram-se em janeiro deste ano. Desde então, 184 homens já participaram das atividades coordenadas por um psicólogo cedido pela Prefeitura. Inicialmente, o profissional realiza uma entrevista individual, de acolhida, com cada homem. Depois participam de oito encontros semanais em grupo, onde são abordadas questões de gênero, masculinidade, cultura da não violência, relacionamentos e sentimentos. Atualmente, são cerca de dez participantes por grupo.

“A proposta é compreender que a violência doméstica é um fenômeno cultural e trabalhar a responsabilização dos homens autores de violência”, enfatiza o psicólogo responsável pelas atividades, Bruno André de Oliveira Kliemann. Ele explica que, inicialmente, os participantes não assumem a responsabilidade pelo ocorrido.

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Bruno Kliemann: “Alguns realmente se entregam nesse processo de conversar, de tentar entender, querer mudar. Tem outros que não. É uma batalha.”

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“Pouquíssimos realmente dizem, ‘foi isso mesmo que aconteceu, foi dessa maneira’. Normalmente, eles culpam a outra parte. Ao longo dos encontros vão aparecendo aquelas amarras bem características, de que homem não chora, de ter que se impor ou de que xingamento não é agressão, só entendem violência como sendo a física. Então é necessário fazer uma desconstrução de cultura”, explica.

Bruno ainda comenta a resistência de muitos na participação e na aceitação do processo evolutivo proposto pelo grupo. “Alguns realmente se entregam nesse processo de conversar, de tentar entender, querer mudar. Tem outros que não, tem uns que não aceitam de jeito nenhum. É uma batalha, é resistência forte. E outros que são mais abertos, os que aceitam.”

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Em 2024, semelhante iniciativa funcionou por meio de uma parceria entre o Tribunal de Justiça do Estado e a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), mas com a participação de formandos do curso de Psicologia. 

O juiz João Francisco Goulart Borges destaca que nas comarcas onde o programa já foi implantado, o índice de homens que voltam a se envolver em casos de violência doméstica é de 5%. “É muito além da punição e da conscientização, é para a prevenção. Então a gente está diminuindo a quantidade de agressores na comunidade. Por isso é muito importante que funcione.”

João Borges: “É muito além da punição e da conscientização, é para a prevenção. Então a gente está diminuindo a quantidade de agressores na comunidade.”

O magistrado ressalta que a violência doméstica precisa ser tratada de forma cultural e educacional. “Os números envergonham todos nós como sociedade e indicam que temos muito trabalho pela frente, especialmente cultural e educacional. Entendo que se não há, ainda deveria haver uma cadeira que trate disso, especificamente violência doméstica, nos bancos escolares”, afirma. “As pessoas têm que aprender a solucionar problemas de outras formas. E a mulher tem que passar a ser vista como ser independente que é, um ser sujeito de direito, capaz de tomar suas decisões.”

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Vanessa Behling

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