Cultura e Lazer

“Há uma distância enorme entre palavras e atos”, diz escritora belga em entrevista exclusiva à Gazeta

A literatura belga pode não ser tão conhecida no Brasil quanto a de outras nações europeias. Mas alguns nomes se impõem: Georges Simenon (1903-1989), o mestre da literatura policial e de suspense; Marguerite Yourcenar (1903-1987), grande dama das letras; e expoentes contemporâneos, como Jean-Philippe Toussaint e Amélie Nothomb. E ainda a poeta e romancista Corinne Hoex, cuja obra finalmente chega ao País.

A iniciativa é da Bestiário, de Porto Alegre, conduzida pelo escritor Roberto Schmitt-Prym. Quatro livros de Corinne já foram editados, permitindo familiarizar-se com uma literatura que toca em temas muito sensíveis: ambiente doméstico e familiar opressor, desamor.

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Nascida em 13 de julho de 1946, Corinne tem 79 anos. É na iminência de seus 80 anos que seus livros chegam ao Brasil, graças a uma equipe de tradução que assume a tarefa de transpor sua obra, de forte carga psicológica e emocional. Mas meu vestido não ficou amassado, de 2008, foi o primeiro lançado, em 2022, com tradução de Gabriela Porto Alegre e Kelley Baptista Duarte. Depois vieram O almoço de domingo, seu romance de estreia, de 2001, em tradução de Gabriela, e Eu não morri contigo, de 2008, em tradução de Alethea de Moraes e Kelley Baptista Duarte.

Neles, uma filha repassa sua relação com o pai e a mãe (e também os primeiros namoros). Essa auto-ficção mexe com o leitor, numa linha aparentada à da francesa Annie Ernaux, Nobel de 2022 (e que assina breve texto na contracapa da edição brasileira de O almoço de domingo). Nas próximas semanas chegará As rainhas do baile, com tradução de Kelley e Wendreo Salazar. Outras narrativas de Corinne devem ser publicadas, bem como sua poesia.

A autora mora em Bruxelas, capital belga. Formada em História da Arte, foi professora, arquivista e pesquisadora, antes de se dedicar à escrita. No contexto do lançamento de seus primeiros livros no Brasil, ela concedeu entrevista à Gazeta do Sul, por e-mail. As respostas de Corinne foram traduzidas para o português por Kelley B. Duarte, que é professora de Letras-Francês da Universidade Federal do Rio Grande (Furg).

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Entrevista

Corinne Hoex
Escritora belga

  • Gazeta do Sul – Nos romances da senhora, a infância é período marcado por opressão, perigos em ambiente familiar. O que explica o paradoxo, se o lar deveria ser espaço de acolhimento, de segurança?
  • Corinne Hoex – Ao falar sobre a infância, você certamente se refere ao meu primeiro romance, Le Grand Menu (2001), recentemente traduzido para o português do Brasil sob o título O almoço de domingo (Bestiário, 2026). Esse romance apresenta uma menina e o casal parental que a oprime com toda sua autoridade.
    Você menciona um paradoxo e, de fato, existe um abismo entre o comportamento que bons pais deveriam adotar e a realidade do que se pratica, especialmente nesse romance. Como explicar esse paradoxo? Sem dúvida porque não existem pais perfeitos e porque se trata, no romance, de pais imaturos, irresponsáveis, que não respeitam a pessoa que é sua filha e projetam nela suas angústias, suas incoerências ao ponto de usarem-na como espectadora de suas práticas amorosas. Na verdade, por trás de uma aparência muito refinada, em um contexto materialmente confortável, trata-se de um dramático abuso de poder, da apropriação de um ser e de sua própria vida.
  • Por que em espaço familiar supostamente marcado por discurso moralizante, de “bons costumes”, as ações vão para o exato oposto? Por que moral e espiritualidade não se concretizam na prática?
  • No romance O almoço de domingo, os pais ocupam todo o cenário, invadem tudo e fingem ser tudo aos olhos da menina. Fora deles, ela não existe. Fora da libido deles, ela não tem acesso ao desejo. Portanto, as “boas maneiras” inculcadas na menina são aquelas praticadas por esse casal de pais. A espiritualidade, para a criança, limita-se a adorá-los. Eles suplantaram o divino e bloquearam todo o acesso a ele. “Moralidade” e “espiritualidade” são corrompidas, impostas por pais que decretam suas próprias leis e sua arbitrariedade.
  • Nem organismos nem leis têm conseguido alcançar o intento de proteger e preservar a infância? É questão cultural ou ainda mais complexa do que isso?
  • Cada situação é única. O romance O almoço de domingo se passa em Bruxelas, na década de 1950. De lá para cá, a proteção à infância certamente evoluiu. No entanto, no contexto descrito no romance, ninguém de fora consegue imaginar o que se passa entre as paredes daquela bela casa burguesa, nem como as forças inconscientes de pais, a priori perfeitamente bem-intencionados (insisto nesse aspecto), aprisionaram sua filha em um pelourinho perverso, repleto de ambiguidades.
  • Além da infância, o ambiente familiar é igualmente opressivo e repleto de desafios quando se trata de uma filha, não é?
  • Não considero assim. Por que seria? Os comportamentos impulsivos ditados pelo inconsciente dos pais podem se manifestar de forma igualmente cruel em relação a um menino.
  • Há nos romances da senhora uma espécie de acerto de contas com o Pai e a Mãe. Escrever é uma espécie de libertação?
  • Para mim, a escrita não tem função terapêutica. Fiz análise durante anos e bem antes de começar a escrever. Por isso, não me identifico com essa afirmação que você faz sobre um acerto de contas com meus pais, por quem, aliás, guardo respeito e carinho. A escrita, no meu caso, não responde a uma necessidade de “acerto de contas”, nem é um ato de libertação. A escrita, para mim, muito além de tudo isso, é um trabalho de criação literária.
  • A senhora tem livros também em poesia. O que a poesia representa em sua vida?
  • A poesia me conduz a outra dimensão de minha presença no texto, nas palavras, no sopro, no silêncio entre as palavras. É uma respiração totalmente diferente. Uma escuta. Uma disponibilidade maior para o que possa vir a ser, emergir.
  • O que levou a senhora à literatura? Em que momento e contexto isso se deu?
  • Isso remonta à infância, ao contexto familiar, a uma bisavó contadora de histórias, às aulas de francês da escola. As palavras, a linguagem, sempre estiveram presentes em mim. Sinto que sempre escrevi.
  • Uma característica nas narrativas da senhora é que, nelas, o que deveria ser amor se revela rudeza, agressão. O que isso revela sobre a condição humana?
  • Você se refere ao que “deveria” ser o amor. O dever e o amor nem sempre (na verdade, muito raramente) estão ligados. Os seres humanos fazem o que podem sendo quem são e com a bagagem que carregam. A condição humana é a condição humana.
  • Os romances da senhora buscam propor tomada de consciência, de um papel social a cumprir? Pensas nisso ao escrever?
  • De forma alguma. Não tenho absolutamente nenhuma preocupação dessa natureza quando escrevo. Não tenho um plano pré-estabelecido, nenhum objetivo a alcançar, nenhum programa a cumprir. Quando trabalho, estou presente apenas em meu texto, em meus personagens. É fundamental, para mim, diante da página em branco, não saber o que vou escrever e seguir para onde minha sensibilidade e minha emoção me levam. Sem isso, eu não escreveria.
  • Na literatura, na escrita, com quem a senhora se sente especialmente aparentada, irmanada?
  • Sempre me sinto próxima do autor que estou lendo. Ou de seus personagens. Acabei de ler a magnífica correspondência entre Gustave Flaubert e George Sand. Eu estava perto deles, com eles, em perfeita empatia, em total cumplicidade. O mesmo acontece com outros autores, como Colette, Yourcenar e tantos outros.
  • Como a senhora tem acompanhado o grande mundo no momento atual? Com que sentimento vê os conflitos em tantas regiões?
  • Lendo o jornal. Sinto-me frustrada diante dos conflitos, mas também sinto alegria e emoção sempre que testemunho atos de amor e generosidade, pois eles também existem por aí, no mundo.
  • Muito se fala em fé, religiosidade, espiritualidade, moral, bons costumes, em discursos. Por que o ser humano não consegue expressar isso em relação ao outro?
  • Discursos são apenas discursos. Há uma enorme distância entre as palavras e os atos. Para relacionar essa questão ao comportamento parental mencionado acima, estou convencida de que a maioria dos pais é movida por boas intenções, princípios morais e uma vontade genuína de fazer o melhor possível e esse é certamente o caso dos pais do romance O almoço de domingo. Mas falta-lhes maturidade, pois não refletem previamente antes de se lançarem na grande aventura da parentalidade e não estão preparados para assumir essa responsabilidade, já que nem conseguem cuidar de si mesmos. Acredito que essa mesma imaturidade está presente em todos os tipos de relacionamentos. Não podemos esquecer a força do inconsciente e sua influência sobre nossos comportamentos.
  • Como tem sido ao longo da formação da senhora o conhecimento ou o contato com o Brasil? Como esse país se apresenta para a senhora?
  • No decorrer de minha trajetória escolar, meu conhecimento sobre o Brasil limitava-se às aulas de geografia. Naquela época, não se viajava como hoje. No entanto, há alguns anos, tive a imensa alegria de ver o Brasil vir ao meu encontro quando a professora Kelley Baptista Duarte, professora de Letras-Francês da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), me escreveu. Ela havia lido Ma robe n’est pas froissée (2007) e teria ficado emocionada e impactada ao ponto de desejar traduzi-lo para o português do Brasil com seus estudantes.
    Desde então, mantemos uma estreita colaboração no campo da tradução literária e esses momentos de troca de mensagens e encontros virtuais me fascinam, pois me permitem compartilhar ideias sobre o texto, seu significado e sua musicalidade com uma mulher notável, da qual me sinto próxima e que dedica ao que escrevo uma atenção repleta de respeito e empatia.
    O primeiro livro abordado foi, portanto, Ma robe n’est pas froissée, que Kelley B. Duarte traduziu com sua estudante Gabriela Porto Alegre sob o título Mas meu vestido não ficou amassado. O livro foi publicado no Brasil em 2022 pela editora Bestiário, que se tornou parceira da professora no projeto de tradução e publicação de meus livros.
    Na sequência, em 2025, a Bestiário publicou Eu não morri contigo, tradução de Décidément je t’assassine (2010) por Kelley B. Duarte e outra estudante de graduação, Alethea de Moraes. No início deste ano, houve o lançamento da tradução de O almoço de domingo por Gabriela Porto Alegre, e em muito breve, ainda no primeiro semestre de 2026, será lançado As rainhas do baile, uma tradução de Les reines du bal (2024) também realizada por Kelley B. Duarte e o estudante Wendreo Salazar.
    Para cada uma dessas traduções, a professora Kelley B. Duarte e seus alunos foram recebidos na Bélgica na “Residência para tradutores e tradutoras de literatura belga francófona”, organizada anualmente no mês de agosto, na cidade de Seneffe, pela Casa internacional de literatura Passa Porta.
  • Para quem não esteja familiarizado com literatura e artes pelo grande mundo, como a senhora descreve a literatura atual na Bélgica (afinal, terra de Simenon e Marguerite Yourcenar…)? Junto com a obra da senhora, quem ler dos contemporâneos?
  • A literatura atual na Bélgica é muito diversificada e surpreendente. Tenho a impressão de que, a cada semana, surgem novos e excelentes autores. No momento, estou relendo Simenon e continuo fascinada por sua arte de, em duas ou três linhas, com naturalidade e sem grandes artifícios, criar de imediato uma atmosfera cativante.
  • Poderias deixar informações sobre sua rotina de escrita e se está trabalhando em alguma obra específica no momento?
  • Atualmente, estou trabalhando em uma coletânea de contos que exige uma escrita muito concisa, às vezes até lapidária, como gosto. Na verdade, não tenho uma rotina de escrita. Preciso dispor de tempo livre, de dias vazios, sem compromissos fora de casa. Solidão. Silêncio. Sempre escrevo em voz alta, recitando meu texto. E o releio em voz alta. Reelaboro cada frase inúmeras vezes. Recuo, reposiciono os fragmentos, como em uma colcha de retalhos ou em um quebra-cabeça. Um quebra-cabeça no qual sempre deve haver peças faltando, pois não se deve dizer tudo. É preciso evitar explicações, interpretações, comentários. Deixar espaço para o leitor. Espaço para que viva sua emoção.

Estante belga

Conheça as capas de quatro livros da belga Corinne Hoex lançados pela editora Bestiário, e que podem ser encomendados ou adquiridos no site da editora porto-alegrense.

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MAS MEU VESTIDONÃO FICOU AMASSADO2022, 100 páginas. R$ 42,00.
EU NÃO MORRI CONTIGO2025, 122 páginas. R$ 48,00.
O ALMOÇO DE DOMINGO2026, 92 páginas. R$ 48,00.
AS RAINHAS DO BAILE100 páginas. R$ 48,00.

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Romar Behling

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Romar Behling

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