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Ivan Seibel lança livro sobre o legado da imigração germânica e pomerana no Brasil

A história da imigração alemã (e, se for estendida para a europeia como um todo, os temas se multiplicam muito mais) revela-se de abordagens inesgotáveis. Há mais de 200 anos, de forma programática, mas desde bem antes por presenças esporádicas, colonos e seus descendentes compõem o mosaico étnico e cultural do Brasil. E é ao estudo desse legado, e dessas contribuições, que um capixaba radicado em Venâncio Aires se dedica. O médico Ivan Seibel, de 78 anos, investiu muito tempo em pesquisas a fim de compreender as circunstâncias e as decorrências da colonização.

Um novo livro de sua autoria junta-se a uma série de obras anteriores que lançou sobre o assunto. Contribuições ao estudo da imigração germânica no Brasil, seu novo título, foi editado pela Traço, de Venâncio Aires. Em 354 páginas, Seibel compartilha com o leitor informações valiosas sobre os contextos sociais, culturais, políticos e econômicos, tanto na Europa quanto na América, antes, durante e depois do período de auge do movimento migratório. Exemplares estão à venda por R$ 60,00, já considerando também o custo de envio, e podem ser encomendados com o autor pelo WhatsApp (51) 9 8184 4828.

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Se em sua abordagem Seibel contempla o panorama da imigração alemã de maneira abrangente, das mais diversas regiões do amplo território, percebe-se sua atenção demorada em torno do caso pomerano. Por uma razão simples: ele é descendente de pomeranos, tendo nascido no interior de Afonso Cláudio, no Espírito Santo, Estado que concentrou uma grande leva de migrantes desse grupo, oriundo do litoral do Mar Báltico.

No início da década de 1960, na adolescência, ele se transferiu para o Rio Grande do Sul a fim de seguir nos estudos. Que culminaram com a graduação em Medicina pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (Ufcspa), com pós em Urologia. Há mais de quatro décadas atua como médico em Venâncio Aires, tendo ainda sido professor da Unisc. Em paralelo, desenvolve atividade como jornalista e pesquisa sobre imigração para a elaboração de revistas, a exemplo da Folha Pomerana, e para livros, com vários publicados.

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Em seu esforço de pesquisa, concretizado no livro Contribuições ao estudo da imigração germânica no Brasil, o médico e jornalista Ivan Seibel repassa algumas das principais fontes bibliográficas associadas à imigração europeia. A partir delas, ilumina muitos dos pontos nem sempre transparentes ou consensuados da colonização. A partir de suas origens (pomeranas, das áreas rurais, montanhosas, de Espírito Santo), ele reforça em especial as especificidades desse povo, em meio às populações de tantas outras regiões germânicas.

Ele comenta que atualmente, em território brasileiro, a herança cultural pomerana pode ser observada com maior intensidade justamente no Espírito Santo. “Ela está bem visível em especial em Santa Maria de Jetibá, Domingos Martins e Laranja da Terra, mas também em regiões aqui do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, Paraná e Rondônia”, salienta.

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Em várias dessas localidades, conforme Seibel, a língua pomerana continua sendo falada, ao lado do português. Em 2014, inclusive, o idioma pomerano foi reconhecido como patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), evidenciando a importância histórica dessa preservação.

Além da língua, outros traços permanecem bastante visíveis, enfatiza Seibel: a religiosidade luterana, os costumes alimentares, as festas típicas, a arquitetura rural, a organização familiar e a forte ligação com a agricultura. “Em muitas comunidades pomeranas, ainda se observa um padrão de vida marcado pela valorização da família, pela disciplina no trabalho e pelo sentimento comunitário”, afirma o jornalista e escritor.

Entrevista – Ivan Seibel, médico, pesquisador e escritor

  • Em geral, aponta-se a imigração como um esforço para a ocupação de áreas ainda pouco povoadas ou pouco habitadas em território brasileiro. No entanto, fatores na Europa foram tão ou mais determinantes para que milhares de pessoas e famílias fossem em busca de novas terras, não é? A imigração europeia para o Brasil, especialmente ao longo do século XIX, costuma ser apresentada apenas como uma estratégia do Estado brasileiro para ocupar territórios pouco povoados e fortalecer economicamente determinadas regiões. Embora isso seja verdadeiro, essa interpretação é insuficiente para compreender a profundidade e a complexidade do fenômeno migratório. A colonização foi resultado de uma combinação de fatores econômicos, políticos, sociais e culturais que atuavam simultaneamente tanto no Brasil quanto na Europa. Foi justamente essa conjugação de interesses e necessidades que permitiu que o processo colonizador alcançasse êxito em várias regiões do País.
  • O senhor é descendente de pomeranos. Em que medida esse grupo específico se diferencia no conjunto ou no mosaico étnico da colonização? No caso específico dos pomeranos, essa realidade foi particularmente dura. A Pomerânia era uma região essencialmente agrícola, marcada por invernos rigorosos, baixa produtividade e forte concentração fundiária. Grande parte da população rural vivia em condições precárias, subordinada a grandes proprietários e sem perspectivas de ascensão social. Para muitas famílias, emigrar não representava uma aventura, mas uma necessidade de sobrevivência. Nesse sentido, a imigração não pode ser entendida apenas como um deslocamento físico. Ela representou uma ruptura emocional e cultural profunda. Homens e mulheres deixavam para trás suas aldeias, idiomas, cemitérios familiares, tradições religiosas e toda a referência afetiva construída ao longo de gerações. A travessia atlântica era longa, difícil e cercada de incertezas. Muitos sequer sabiam exatamente para onde estavam indo. Ainda assim, a esperança de possuir terra própria e garantir um futuro melhor aos filhos funcionava como poderosa motivação. Se hoje nos colocássemos na condição daqueles milhares de imigrantes, provavelmente compreenderíamos melhor a dimensão humana desse processo. Em um mundo contemporâneo marcado por migrações forçadas, guerras e deslocamentos econômicos, talvez percebêssemos que os imigrantes do século XIX também carregavam medos, angústias e sonhos semelhantes aos dos migrantes atuais. A decisão de abandonar a terra natal quase nunca é simples; normalmente ela nasce da combinação entre necessidade e esperança.
  • O senhor menciona a segunda fase da colonização, a da migração interna. Sair da sua terra e buscar novos lugares estaria já fixado no inconsciente dos descendentes, motivando-os nesse sentido? Um aspecto importante da trajetória dos descendentes foi a chamada “migração da migração”, fenômeno muito característico do Sul do Brasil ao longo do século 20. As primeiras colônias agrícolas, estabelecidas no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Espírito Santo, baseavam-se em pequenas propriedades familiares. Com o passar das décadas, o crescimento das famílias tornou insuficiente a divisão das terras entre os numerosos filhos. Isso obrigava novas gerações a buscar outras regiões onde ainda existisse disponibilidade de terras agrícolas. Assim iniciou-se um intenso movimento migratório interno. Da mesma forma como os descendentes de alemães e italianos, também os pomeranos partiram para novas fronteiras agrícolas em direção a Paraná, Mato Grosso, Rondônia, Minas Gerais e até ao Amazonas. Esse deslocamento permanente acabou gerando a expressão alemã “Wanderbauern”, literalmente “agricultores migrantes”. Embora muitas vezes utilizada de forma pejorativa, ela descrevia um comportamento fortemente associado à busca contínua por novas oportunidades agrícolas.
  • E acabou mudando o mapa… A literatura sociológica e histórica mostra que essa mobilidade não foi apenas econômica. Ela acabou se incorporando ao imaginário cultural das populações. O pioneirismo, a disposição para enfrentar regiões isoladas e a capacidade de adaptação tornaram-se características frequentemente associadas aos descendentes desses colonizadores. No caso de Rondônia, por exemplo, muitas comunidades formadas nas décadas de 1970 e 1980 receberam forte presença de descendentes sulistas, incluindo pomeranos. Eles participaram ativamente da abertura de áreas agrícolas e da consolidação de municípios inteiros. Esse processo demonstra como a experiência da colonização inicial acabou sendo reproduzida em novas fronteiras internas do Brasil. Portanto, a imigração europeia e a colonização brasileira precisam ser compreendidas como processos históricos complexos, marcados por sofrimento, coragem, adaptação e reconstrução cultural. Os pomeranos, em particular, deixaram marcas profundas na formação social brasileira, não apenas pela capacidade de trabalho, mas também pela impressionante preservação de sua identidade cultural. Mais de um século depois, essas marcas continuam visíveis na língua, na religiosidade, nos costumes familiares e na própria paisagem rural de diversas regiões brasileiras. Elas revelam que a imigração não foi apenas um movimento demográfico, mas também um processo de transmissão cultural que ajudou a moldar a diversidade e a identidade do Brasil contemporâneo.
  • O que o senhor entende como tendo sido mais determinante para que, por fim, a colonização tivesse alcançado o objetivo pretendido, de povoar? Estaria no grande contingente que foi mobilizado? Do lado brasileiro, havia necessidade evidente de ocupação territorial. Após a independência, o Império buscava consolidar sua soberania sobre áreas ainda pouco povoadas, sobretudo no Sul do país. A presença de colonos europeus era vista como instrumento de defesa territorial, produção agrícola e desenvolvimento econômico. Além disso, o governo brasileiro pretendia substituir gradualmente o trabalho escravo por mão de obra livre, sobretudo após o avanço das campanhas abolicionistas e a proibição do tráfico negreiro em 1850. Entretanto, reduzir a imigração apenas a um projeto brasileiro seria ignorar as profundas transformações que ocorriam na Europa naquele período. Em muitas regiões do continente europeu, especialmente nos territórios germânicos, na Pomerânia, na Prússia e em partes da atual Polônia, milhares de famílias viviam sob extrema pressão econômica. O crescimento populacional, a fragmentação das pequenas propriedades rurais, as crises agrícolas, os conflitos políticos e as guerras criavam um ambiente de insegurança permanente. Muitos camponeses simplesmente já não conseguiam sobreviver da terra.
  • Em que medida os pomeranos se diferenciaram, por sua cultura, de outros grupos de imigrantes?Quando chegaram ao Brasil, os imigrantes encontraram uma realidade extremamente difícil. As terras prometidas frequentemente eram cobertas por matas densas, sem estradas, escolas ou assistência médica. A adaptação ao clima, às doenças tropicais e ao isolamento exigia enorme capacidade de resistência. A sobrevivência dependia diretamente do trabalho familiar. Foi nesse contexto que se consolidou uma das características mais marcantes da cultura pomerana: a valorização intensa do trabalho. Entre os descendentes pomeranos, ainda hoje circula a conhecida expressão: “o pomerano não trabalha para viver; vive para trabalhar”. Embora dita muitas vezes de forma bem-humorada, essa frase traduz uma ética construída historicamente. O trabalho era visto como virtude moral, instrumento de dignidade e condição indispensável para a sobrevivência. A pequena propriedade rural exigia esforço permanente, disciplina e participação de todos os membros da família. Os pomeranos acabaram se diferenciando dentro do mosaico étnico brasileiro justamente pela força com que preservaram determinados elementos culturais. A manutenção da língua pomerana talvez seja o exemplo mais expressivo. Mesmo após mais de um século no Brasil, comunidades inteiras ainda utilizavam o pomerano no cotidiano familiar, nas celebrações religiosas e em manifestações culturais. Trata-se de um fenômeno muito próprio desse grupo de imigrante.

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Romar Behling

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