Bea no Café Histórico Baratti & Milano em Turim, que escritores frequentam | Foto: Alessandro Vargiú
Queridos leitores, feliz 2026! É um prazer retomar nossa coluna quinzenal. Se no último ano celebramos juntos a herança dos 150 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul, agora o convite é para uma imersão diferente. Em 2026, iniciamos um novo projeto em parceria com a Gazeta do Sul.
Como estudante de Ciências da Comunicação na Universidade de Turim, poderei compartilhar descobertas inéditas que unem a vida cotidiana à vida acadêmica na Itália. Estou construindo um repertório renovado para abordar temas como literatura, arte e análises da cultura italiana – pela qual todos nós somos apaixonados.
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Confesso que, nos meus primeiros meses na universidade, levei um susto. O italiano acadêmico, antes de tudo, me apavorou. Estudar na sua língua materna já é um desafio; fazê-lo em uma língua aprendida há poucos meses é ainda mais exigente. Mas se colocar em situações desafiadoras funciona como um “empurrãozinho extra” para alcançar novos conhecimentos. E assim começou minha primeira disciplina: Literatura Italiana Contemporânea.
Durante o primeiro semestre, analisamos o romance histórico e pós-moderno de Umberto Eco, Il Nome della Rosa, obra que alcançou tamanho sucesso a ponto de Hollywood adaptar o enredo para o cinema, com Sean Connery no papel principal. Umberto Eco foi, sem dúvida, um gênio. Trata-se de um livro com inúmeras camadas a serem absorvidas – e que eu adoraria ler em conjunto com vocês. Algumas edições desta coluna serão dedicadas ao aprofundamento dessa obra, que é um verdadeiro labirinto.
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Eco se inspirou no modelo dos contos labirínticos de Jorge Luis Borges. O mundo moderno já não é representado de forma lógica e racional, mas como um universo infinito do saber – assim como o mosteiro milenar que serve de cenário ao romance. Isolado no alto de uma montanha de mais de mil metros, no norte do Piemonte, o local é palco de assassinatos misteriosos, em que tudo parece impedir a descoberta do culpado.
Há um crime sem solução, uma biblioteca secreta e a presença constante da ironia, com a qual o autor joga com o leitor. O leitor culto capta as referências; o leitor “comum” se deixa levar pela narrativa, acreditando tratar-se apenas de um romance policial. Mas, na verdade, estamos diante de uma obra aberta, na qual o leitor participa ativamente da construção do sentido.
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É mistério, mas também alegoria – uma crítica à Itália dos anos 1970. É conto filosófico, romance de formação e documentação histórica da Idade Média. Um conjunto de textos, como uma grande receita composta por ingredientes diversos, aparentemente divergentes, mas que juntos criam algo único. E serão justamente esses ingredientes que descobriremos ao longo das próximas colunas.
Mas qual é a importância de estudar literatura? E por que decidimos seguir esse caminho aqui na coluna? Em um mundo marcado pela inteligência artificial, pela velocidade extrema e pelo dinamismo constante, a literatura tem o poder de nos trazer para a presença. Ela força o cérebro a simular o estado mental de outra pessoa, nos faz sentir, desenvolve nosso lado humano e cria jornadas emocionais e empáticas por meio de personagens profundos.
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Da “Jornada do Herói” às tragédias gregas, a literatura mapeou praticamente todos os conflitos humanos possíveis. Quando dominamos a literatura, compreendemos os arquétipos que funcionam em qualquer cultura. Ela nos ensina a ler nas entrelinhas, a ir além do superficial.
E, sobretudo, desenvolve o senso crítico – algo fundamental nos dias de hoje. Estamos nos tornando cada vez mais passivos, passando horas diante das telas, enquanto algoritmos selecionam exatamente o conteúdo que nos manterá conectados por mais tempo.
As redes sociais nos oferecem apenas aquilo em que já acreditamos. A literatura, ao contrário, nos provoca, nos faz refletir e nos transforma em sujeitos ativos na sociedade. Ela nos oferece repertório histórico, político e ético. Se aprendermos com a literatura, talvez possamos evitar conflitos. Não por acaso, em períodos de ditadura, a literatura e a arte são censuradas. Foi assim na Itália durante o regime fascista de Mussolini – uma forma de silenciar o protesto.
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Fundada em 1933 por Giulio Einaudi, então com apenas 21 anos, na cidade de Turim, a editora Einaudi – até hoje uma das maiores da Itália – nasceu sob o enigmático lema latino Spiritus durissima coquit (“O espírito digere as coisas mais duras”) e com um logotipo curioso: um avestruz. Longe de ser decorativo, o animal simbolizava a capacidade vital da cultura de processar, metabolizar e sobreviver aos períodos históricos mais violentos.
Autores como Cesare Pavese, Elio Vittorini, Elsa Morante, Primo Levi e tantos outros foram verdadeiros soldados da cultura. A editora tornou-se uma trincheira antifascista. Em 1945, enquanto o Plano Marshall atuava na reconstrução da infraestrutura do país, a literatura reconstruía a identidade e a alma dos italianos. E a Einaudi foi protagonista desse processo: seus funcionários eram os maiores escritores de sua geração, trabalhando juntos diariamente.
A Itália é um país maravilhoso, conhecido por suas belezas, mas também marcado por guerras e por muita dor. Estudar sua literatura é aprender sua história, sua cultura e a verdadeira alma do povo italiano. Hoje, sinto-me honrada por poder ler e apreciar uma das literaturas mais belas do mundo em sua língua original – e ainda mais honrada por poder compartilhar esse conhecimento com vocês, leitoras e leitores da Gazeta do Sul.
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