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Maurício Goulart: “A natureza – e nós”

“A realidade deve ter prioridade sobre as relações públicas, pois a natureza não pode ser enganada.” A vantagem de ter olhos e orelhas e um cérebro bem desenvolvido, dentro de certos padrões, é ser capaz de acompanhar os acontecimentos e tirar conclusões. Como tem sido rotineiro há alguns anos, no fim de semana mais duas cidades brasileiras enfrentaram os fenômenos da inundação e da enxurrada, que é quando uma grande quantidade de água invade locais habitados e provoca danos. Desta vez, os problemas ocorreram em São Bernardo do Campo e Sorocaba, no Estado de São Paulo, onde os moradores experimentaram o pânico que veio depois de uma chuva forte.

Entre relatos que são sempre comoventes, uma moradora descreveu o momento em que seus cachorros foram levados pela água, apesar de todo o esforço que fez para salvá-los. Em outras regiões dessas cidades, eram as mortes de duas pessoas que se lamentava. Para quem vê de longe, além das lembranças do que passamos em 2024, surgem perguntas como por que essas situações acontecem e o que se poderia fazer para evitá-las.

O motivo de tantas pessoas serem afetadas em eventos climáticos extremos, todos sabemos: as cidades se expandem cada vez mais; asfaltamos ruas e avenidas, o que impermeabiliza o solo e dificulta o escoamento da água; invadimos incessantemente áreas que deveriam ser preservadas. A tudo isso chamamos de “desenvolvimento”, palavra presente em 11 de dez discursos que ouvimos. Aparentemente, é só o que se almeja em todos os lugares.

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Mas qual é a lógica por trás de tanto sofrimento? Parece óbvio. Uma pessoa pode ter muitos desejos, muitos planos, muitos projetos, ser cheia de boas intenções e até honesta, mas nada disso importa para a natureza, para quem somos invisíveis, já que ela segue sua trajetória nos ignorando por completo.

Conseguimos, quando muito, identificar seus mecanismos e fazer previsões mais ou menos confiáveis, mas nunca impedimos que imponha sobre nós sua vontade. Insistimos em achar que temos algum controle, que nos destacamos em meio a tudo o que vive, que somos o resultado final da “evolução”. Até que a água vem e leva tudo embora, nesse contexto das inundações.

E não ajuda o fato de que, vez em quando, até simulamos colocar a mão na consciência, dizendo que nosso estilo de vida é a causa desses desequilíbrios. Sem nunca questionar aspectos da nossa vida como o crescente apego ao consumo, que tudo justifica.

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A frase que abre esse texto é de Richard Feynman, físico americano que morreu em 1988, e sempre me vem quando de eventos naturais extremos. Ela lembra, de forma simples, que apenas vivemos neste mundo, não o criamos. Portanto, ele é indiferente a nós, não se importa com o que acreditamos ser o limite que não pode ser ultrapassado até que estejamos desconfortáveis – ou mortos. Pensar nisso deveria ser o ponto inicial de qualquer reflexão sobre o que precisamos fazer como humanidade – se me permitem, em todas as áreas, não apenas quando falamos de eventos climáticos. Precisaria ocupar o lugar nobre que hoje reservamos a palavras como “desenvolvimento” e “progresso”. Enquanto isso, esperemos pela próxima catástrofe.

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