Os netos Henrique e Thiago e o avô Ivan Seibel enfrentaram frio intenso durante parada nas Ilhas Falklands, ou Malvinas
Existem muitas maneiras de viajar, muitos destinos a conhecer e muitas motivações para sair de casa. Uma jornada realizada por um médico radicado em Venâncio Aires e dois de seus netos, residentes em Santa Cruz do Sul, foge ao perfil convencional. Tudo porque, com as seis décadas de vida que separam os pontos de vista e as perspectivas de mundo entre eles, decidiram empreender uma visita à Antártida, o continente gelado ao Sul do planeta.
A viagem, que se concretizou ao longo de duas semanas em janeiro de 2025, agora resulta em livro que acaba de ser lançado, em edição do autor. Nas 142 páginas de Uma viagem à Antártida em boa companhia, além de um relato das influências que tiveram para essa incursão ao sul da América e das providências que precisaram ser tomadas, Seibel descreve o avanço diário do périplo (primeiro por carro, até Porto Alegre; depois em avião, até Buenos Aires, e por fim em navio, ida e volta, à Antártida; e novamente o percurso aéreo e rodoviário no retorno para casa).
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Para o leitor, além das informações detalhadas sobre o que vivenciaram e testemunharam, dezenas de fotografias transportam até as paisagens que viram. Como Seibel frisa, em ocasião anterior tiveram a oportunidade de visualizar o recuo de geleiras na Escandinávia, próximo ao Círculo Polar Ártico. Impressionados com os efeitos do aquecimento global, motivaram-se a ir verificar o estado das coisas no polo oposto, ao Sul. E uma vez mais constataram a forte mudança da paisagem, em poucos anos, decorrente da ação humana intensiva sobre o planeta.
Mais do que um deslocamento no espaço, em direção ao extremo sul do planeta, o que a obra de Seibel evidencia é uma mudança forte na tomada de consciência. Se para o avô algumas conclusões se afiguram preocupantes e dramáticas, ele, de certo modo, revela no próprio texto a sua confiança de que as novas gerações, às quais pertencem seus netos, possam interromper, de algum modo, a ameaça humana ao planeta.
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Capixaba radicado há quase quatro décadas no Rio Grande do Sul, e residente em Venâncio Aires, onde é médico, Ivan Seibel conduz em paralelo carreira como escritor e pesquisador. Estudou em especial a imigração alemã e pomerana para o Brasil e a formação de colônias em território nacional, do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul. Sobre esses temas, elaborou artigos científicos e publicou livros, aos quais se junta o relato da viagem que ele e dois netos, Thiago e Henrique, fizeram à Antártida, com a devida autorização de sua filha Vanessa e de Carlos Eduardo Kämpf, pais dos dois jovens santa-cruzenses.
Ivan Seibel
Médico e escritor
O senhor fez viagem à Antártida na companhia de seus netos, Thiago e Henrique, em janeiro de 2025. Passado mais de um ano da experiência, quando o senhor recorda dela, que imagens voltam à lembrança?
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Toda experiência produz consequências. As experiências frustrantes costumam ser rapidamente esquecidas, porque pouco acrescentam à nossa caminhada. Já aquelas verdadeiramente gratificantes permanecem vivas na memória e continuam produzindo crescimento muito tempo depois de terminadas. A viagem à Antártida pertence, sem dúvida, a esse segundo grupo.
Quando recordo aqueles dias, naturalmente me vêm à mente as imagens grandiosas do continente branco: os enormes icebergs, as montanhas cobertas de neve, as colônias de pinguins, as baleias surgindo junto ao navio, o silêncio impressionante daquele ambiente e a sensação de estarmos diante de uma natureza praticamente intocada pelo homem. São imagens difíceis de esquecer.
Mas, curiosamente, essas lembranças acabam ficando em segundo plano diante daquilo que considero o verdadeiro patrimônio da viagem: a convivência diária com meus netos durante quase três semanas. Foram conversas demoradas, debates sobre História, Medicina, política, ciência, religião e sobre a própria vida. Houve momentos de descontração, de bom humor, de descobertas e de muita cumplicidade. Esse convívio foi tão rico que senti necessidade de registrá-lo em um livro, para que essa experiência não permanecesse apenas em nossa memória familiar, mas pudesse também inspirar outras pessoas a viverem momentos semelhantes.
São seis décadas entre avô e netos. O que o senhor mais aprendeu com eles e o que pensa que eles aprenderam com o senhor naqueles dias?
Popularmente costuma-se dizer que existe um enorme conflito entre gerações, quase como se avós e netos falassem idiomas diferentes. Eu nunca enxerguei dessa forma. Acredito que essa aproximação não acontece espontaneamente; ela precisa ser construída ao longo de toda a vida.
Desde que meus netos eram muito pequenos, procurei participar efetivamente do seu crescimento. Descobri que, para conversar com uma criança, é preciso literalmente abaixar-se, colocar-se de cócoras e olhar nos seus olhos. É uma atitude simples, mas profundamente simbólica. Significa entrar no universo da criança antes de esperar que ela compreenda o nosso.
Ao longo dos anos, fui aprendendo quais assuntos despertavam sua curiosidade. À medida que cresceram, nossas conversas também amadureceram. Hoje debatemos História, geopolítica, medicina, tecnologia, viagens, cultura e tantos outros temas. Não existem temas proibidos entre nós.
Durante essa viagem, percebi claramente que a aprendizagem ocorre nos dois sentidos. Compartilho com eles minha experiência acumulada ao longo de quase oito décadas de vida, mas também aprendo muito com a visão contemporânea que eles possuem do mundo, com a facilidade que têm para lidar com novas tecnologias e a naturalidade com que enfrentam desafios que não existiam na minha juventude. Essa troca permanente talvez seja uma das maiores riquezas da relação entre avós e netos.
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De que forma a questão do aquecimento global e das mudanças climáticas se apresenta hoje nas conversas do senhor com Thiago e Henrique?
Curiosamente, essa viagem nasceu quase como brincadeira. A ideia de uma “expedição à Antártida” parecia algo distante, quase impossível, e acabou sendo tratada com bom humor, inclusive pela imprensa local. Entretanto, aquela brincadeira transformou-se numa extraordinária oportunidade de aprendizado. Antes mesmo da Antártida, já havíamos conhecido regiões glaciais da Patagônia e de países da Escandinávia. Essas experiências despertaram nossa curiosidade sobre os grandes fenômenos naturais que moldam o planeta.
Na Antártida observamos de perto enormes massas de gelo, blocos desprendendo-se das geleiras e paisagens que revelam uma natureza em permanente transformação. Isso nos levou a estudar ainda mais a história climática da Terra. Aprendemos que o planeta nunca foi estático. Ao longo de milhões de anos ocorreram períodos glaciais e interglaciais, grandes aquecimentos e grandes resfriamentos.
Essas observações fortaleceram em nós uma convicção importante: antes de formar opiniões, é preciso estudar. Questões ambientais são extremamente complexas e não podem ser reduzidas a explicações simplistas. A natureza costuma ser muito mais sofisticada do que imaginamos. A viagem despertou em todos nós ainda mais curiosidade científica e respeito pela dinâmica do planeta.
As gerações que hoje comandam e decidem são em grande parte responsáveis pelo modelo de sociedade calcado na exploração e no consumismo que dilapidam o planeta. Podemos esperar que as mais novas, em escala global, corrijam essa rota?
Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis de responder. Vivemos em uma sociedade que incentiva permanentemente o consumo. Somos estimulados diariamente a comprar mais, trocar produtos ainda em perfeito estado e acreditar que felicidade depende daquilo que possuímos. Basta observar alguns exemplos. Enquanto parte da população dos países desenvolvidos enfrenta problemas relacionados ao excesso de consumo e à obesidade, milhões de pessoas em países extremamente pobres ainda lutam simplesmente para conseguir alimento. O contraste é impressionante.
No Brasil, também percebemos um fenômeno semelhante quando analisamos o elevado endividamento das famílias. Muitas vezes consumimos muito além das nossas necessidades reais. Talvez devêssemos nos perguntar com mais frequência se realmente precisamos de tudo aquilo que compramos.
Por isso, acredito que qualquer transformação passa necessariamente pela educação. Não apenas pela educação escolar, mas pela formação de valores. Uma sociedade que aprende a pensar criticamente tende também a consumir com mais responsabilidade, respeitar melhor os recursos naturais e planejar seu futuro com maior equilíbrio. Tenho esperança de que as novas gerações consigam construir esse caminho, mas isso dependerá muito da qualidade da educação que lhes oferecermos hoje.
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O que muda na reflexão e na percepção de mundo quando se vai lá olhar? Não ver, não saber, é mais fácil para fazer de conta que nada acontece?
Viajar sempre amplia nossa percepção da realidade. Podemos ler centenas de livros, assistir a documentários e estudar mapas, mas poucas experiências substituem o contato direto com aquilo que estamos estudando. Conhecer a Antártida permitiu compreender melhor a dimensão dos fenômenos naturais e perceber como nosso planeta funciona de maneira extremamente complexa. Muitas vezes formulamos opiniões sem conhecer os fatos. Quando estamos diante da realidade, passamos a enxergar nuances que antes não percebíamos.
Sempre preferi buscar conhecimento em vez de permanecer apenas repetindo ideias prontas. A observação direta desperta humildade intelectual. Quanto mais conhecemos, mais percebemos o quanto ainda precisamos aprender. Talvez seja exatamente essa a maior lição da viagem: a natureza é muito mais grandiosa e muito mais complexa do que imaginamos.
Que expectativa o senhor alimenta do papel que o livro sobre a jornada de vocês cumpra na vida da geração do senhor e também na geração de seus netos?
Meu desejo é bastante simples. Espero que este livro preserve uma memória familiar que talvez se perdesse com o passar dos anos. Mais do que narrar uma viagem, ele registra uma convivência extremamente rica entre um avô e seus netos, construída ao longo de décadas de carinho, respeito e amizade.
Foram momentos únicos da minha vida. Não apenas pela beleza da Antártida, mas pela oportunidade de compartilhar essa experiência justamente com duas pessoas pelas quais tenho enorme admiração e com quem mantenho uma relação muito próxima.
Também espero que o livro desperte nos leitores o desejo de viajar, estudar, conhecer outras culturas e, principalmente, de investir tempo na convivência entre as gerações. Vivemos uma época em que as famílias passam cada vez menos tempo juntas. Talvez a maior mensagem seja justamente mostrar que as melhores viagens não são apenas aquelas que nos levam aos lugares mais distantes do planeta, mas aquelas que fortalecem os laços entre as pessoas que amamos.
Se daqui a algumas décadas Thiago e Henrique abrirem esse livro junto de seus próprios filhos e netos e relembrarem aqueles dias vividos na Antártida, sentirei que ele cumpriu plenamente sua missão. Afinal, as grandes viagens terminam; as boas lembranças permanecem para sempre.
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