Memórias. Quantas memórias um lugar é capaz de guardar e um objeto é capaz de despertar? Ao colecionarmos momentos, a vida se encarrega de nos oferecer espaços extras na memória para que vez ou outra a gente os revisite. São recordações da infância, do despertar da juventude, do início da caminhada adulta. Lembranças que provocam sentimentos e por vezes despertam sensações, aromas, sabores, sorrisos ou então lágrimas, porque a nostalgia costuma trazer consigo a saudade do que se foi. Tempos que não voltam mais.
Na localidade de Boa Esperança, interior de Ibarama, quando as portas de um casarão centenário se abrem a mente se volta ao passado e as lembranças se escalam, quase como um livro aberto, com dezenas de capítulos e frases que se desprendem das páginas, buscando dar voz a histórias distintas, mas ao mesmo tempo tão similares.
O acervo de antiguidades da família de Marcos de Castro (conhecido como Toiço), natural de Sobradinho, e Mônica Lúcia Da Cas, de Boa Esperança, transporta para diferentes períodos e histórias que se diferenciam, apesar de cada objeto exposto no local poder fazer parte das memórias de muitas famílias.
A construção por si só já carrega uma proximidade para muitos. O hall de entrada, em uma única e grande peça, onde por anos funcionava um armazém; o sótão e o porão, tão característicos da época em que fora construído, a 100 anos atrás; as madeiras e aberturas, além da capela situada no outro lado da estrada, um convite a reviver as lembranças dos domingos em família, das missas matinais, dos almoços em comunidade, do vai-e-vem na estrada por onde ainda hoje passa a produção agrícola.
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Do lado de dentro, logo de cara chama a atenção o balcão, no estilo dos armazéns ou bodegas. Neste, diferentemente de comidas, atualmente estão expostos alguns objetos antigos, incluindo uma coleção de isqueiros, pois foi justamente com um isqueiro ganho por Marcos que a ideia de preservar a história desta forma se iniciou. “A primeira peça com a qual comecei a coleção foi um isqueiro, que ganhei em 2014 de um colega, e pertencia ao pai dele. Tem mais de 70 anos e ainda funciona. Antes disso, meu sonho era ter um carro antigo. Há 16 anos consegui adquirir a Variant, que data de 1971. Depois, começamos a viajar e, ao chegar em casas de antiguidade, passei a me interessar por guardar estas peças que muitas vezes acabam indo fora”, destaca o servidor público, que tem no acervo um hobby.
Do primeiro isqueiro, montou uma pequena coleção, e a esposa Mônica, professora, também passou a se atentar aos objetos antigos que guardam histórias. Vieram então as lanternas e lampiões, de itens do acervo pessoal, da família e de conhecidos, que passaram a doar objetos antigos. O primeiro ponto de armazenamento do material foi um quarto de casa, mas, aos poucos, já não era mais o suficiente, conta Mônica, lembrando que é preciso organização para que os itens sejam preservados.
Atualmente, em Boa Esperança, um grande acervo foi tomando conta nas prateleiras já existentes no local, com peças das mais variadas. São máquinas de escrever, de costura, rádios, aparelhos de televisão, discos, fitas-cassetes, câmeras fotográficas, telefones, relógios e uma infinidade de lampiões, de diferentes tamanhos e cores. Há ainda móveis de madeira, como cristaleiras, com relíquias que guardam valor sentimental, por serem conjuntos de louça ganhos como presentes de casamento de familiares do casal.
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Tem também bicicletas, artigos de decoração de diferentes décadas, e coleções de itens de cozinha e de mantimentos antigos, como as latas de óleo de soja, de fermento, de cerveja e refrigerante, vasilhas que guardam em suas ferrugens o desgaste natural do passar dos anos.
Chama ainda atenção a parede colorida com placas de automóveis, incluindo a que seria a primeira de Ibarama, além de placas utilizadas em carroças de tração animal. Com a luz iluminando pela grande janela, também se veem ferramentas utilizadas especialmente no ramo agropecuário, antes das mais recentes modernizações, mostrando que a necessidade dos antepassados levava a criações para facilitar o dia a dia.
O acervo que iniciou despretensiosamente, com um presente, revelou o gosto de Marcos pelas antiguidades. De um objeto, foi arrecadando dezenas de materiais doados por familiares, amigos e conhecidos que passaram a contribuir com a coleção, com o intuito de preservar e manter vivas as memórias, um resgate entre gerações.
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No ano passado, com a realização do Encontro da Família Da Cas e Donatti, o casal recebeu pela primeira vez um grupo de visitantes. Tempo depois, uma turma da Escola Catarina Bridi, com colegas de Marcos, também visitou o espaço, bem como um grupo de Lomba Alta.
De experiências como estas, onde muitas lembranças afloraram sentimentos nos visitantes, eles esperam, futuramente, poder receber mais pessoas. No momento, estão em fase de organização e planejamento de melhorias necessárias para um dia poder abrir à visitação sob agendamento. Por enquanto, o tempo para dedicar às relíquias têm sido alguns finais de semana. O desejo, conforme eles, que contam com a parceria do irmão de Mônica para uso do casarão, é de que o espaço se expanda, garantindo com que as peças que chegam aos poucos encontrem um lugar. “É gratificante ver que estas peças estão guardadas e que as gerações mais novas, que não conheceram e não utilizaram destes objetos, um dia poderão ver, saber mais sobre elas”, ressalta o casal.
A Variant vermelha que percorre o trajeto da cidade até a Boa Esperança, também é relíquia. Cortando a estrada de chão, em meio às áreas verdes e a paisagem do horizonte que transporta para um local onde as horas parecem passar mais devagar, o veículo ajuda a contar a história, quase que como em uma cena de filme, daquelas em que as famílias saiam com o carro cheio de malas para passar o dia. E o intuito talvez seja exatamente esse, desacelerar, olhar, lembrar e sentir, mesmo quando os dias insistem em passar rápido demais.
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