Sempre que a realidade me parece intolerável em excesso, cultivo um pouco de escapismo para preservar minha saúde mental. Nada impede que este mundo seja só uma possibilidade entre outras, como apostam alguns cientistas. Pela teoria do multiverso, existiriam não um, mas incontáveis universos, todos mais ou menos semelhantes ao nosso, com diferenças pontuais.
Melhores ou piores? Quem sabe. Em uma dessas versões, talvez os nazistas tenham vencido a Segunda Guerra e agora desfilem por aí, dando as cartas e as ordens, governando países e dominando a vida no mundo inteiro. Em outro, talvez a Idade Média nem tenha acabado e os fanáticos ainda cacem e queimem bruxas em público, por puro amor a Deus e respeito pelos valores da família.
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Mas nem tudo precisa ser ruim (escapismo para pior, que sentido tem isso). Numa realidade alternativa, talvez não haja pedófilos nem outros criminosos sádicos (talvez nem exista a praga dos defensores de criminosos sádicos). O sistema educacional seria uma prioridade na prática, não só em discursos de palanque. Nosso salário mínimo seria igual ao calculado pelo Dieese (em torno de R$ 7 mil para janeiro deste ano) e os serviços de saneamento funcionariam de modo exemplar, sem adutoras arrebentando toda hora.
Imaginar ainda é de graça. E as possibilidades estão sempre latentes. A geografia do mundo visível não basta, porque há os lugares da imaginação. É o que Italo Calvino, escritor italiano, nos diz em um pequeno livro de “viagens” publicado em 1972: As cidades invisíveis.
Calvino apresenta ao leitor a descrição de 55 cidades que ele mesmo inventou, supostamente situadas na Ásia e visitadas pelo viajante Marco Polo no século 13. Todas essas localidades têm nomes femininos: Olívia, Cloé, Armila, Irene, Berenice e assim por diante.
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Muitos desses lugares na verdade contêm outros, que não surgem à primeira vista. Quem entra em Raíssa, por exemplo, vê de pronto um ambiente constrangido pela tristeza, onde os moradores “acordam de manhã com um pesadelo e logo começa outro”. Mas, ao mesmo tempo, “a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz que nem mesmo sabe que existe”, generosa em alegria, sorrisos, esperanças.
Já em Fedora, os habitantes souberam como manter a consciência de outros mundos possíveis. Nessa metrópole de pedra, há um palácio onde cada sala guarda uma esfera de vidro. E cada esfera contém uma cidade em miniatura que serve de modelo a outra Fedora: o que ela poderia ter sido se, por uma razão ou outra, não fosse o que é.
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Sempre que a realidade me parece intolerável em excesso, percebo que há algum realismo também no escapismo. Afinal de contas, tudo que existe de bom começou como sonho na mente de alguém. Na esfera vítrea da imaginação.
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