Foto: Luana Backes
O triplo homicídio registrado em Linha Arroio do Leite, no interior de Santa Cruz do Sul, continua repercutindo mesmo após a conclusão do inquérito policial. Em entrevista concedida ao programa Estúdio Interativo, da Rádio Gazeta FM 107,9, o delegado Guilherme Dill, titular da 1ª Delegacia de Polícia, revelou detalhes da investigação e classificou o caso como um dos mais graves e incomuns de sua trajetória profissional.
O crime ocorreu no dia 22 de maio e resultou na morte de três moradores da localidade rural. O investigado, de 36 anos, foi indiciado por três homicídios qualificados, praticados por motivo fútil e mediante recurso que dificultou a defesa das vítimas. Ele permanece preso preventivamente.
Segundo Dill, o fato chamou a atenção não apenas pela gravidade, mas também pelas circunstâncias em que ocorreu. “Foi a primeira vez que trabalhei em um triplo homicídio. Já vi muitas tragédias durante minha carreira, inclusive quando fui bombeiro militar, mas esse caso tinha características muito particulares”, afirmou.
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O delegado contou que foi informado da ocorrência no fim da tarde de uma sexta-feira. Após receber a notícia, deslocou-se até a localidade acompanhado do comissário Gilmor Comassetto, policial com amplo conhecimento da região.
A viagem até o local levou cerca de uma hora. Quando chegaram, já era noite e chovia. “Era um cenário muito triste. Não me abalo com facilidade, mas aquilo realmente impressionou”, relatou o delegado. Entre os elementos que mais marcaram a equipe de investigação estava a presença de duas crianças, filhas de uma das vítimas, nas proximidades do local do crime. As meninas têm quatro e nove anos de idade.
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O delegado também destacou a atuação da Brigada Militar. “A Brigada Militar fez um trabalho operacional de excelência na prisão do indivíduo. Eles foram acionados antes que nós, chegaram no local e o suspeito estava escondido dentro da casa dele. Ele havia escondido a arma de fogo nas proximidades da residência. E a Brigada Militar fez um trabalho ali de verbalização. Ele não queria sair. Fizeram todo um processo de negociação, convencimento, até que ele saiu da residência e efetuaram a prisão dele”, relatou.
Um dos aspectos mais incomuns da ocorrência foi a descoberta de que o suspeito havia sofrido um grave acidente de trânsito instantes antes dos homicídios. Conforme a investigação, o homem conduzia um Volkswagen Gol quando saiu da estrada, desceu um barranco de aproximadamente 20 metros e capotou.
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Apesar da gravidade do acidente, conseguiu sair do veículo e, logo em seguida, efetuou os disparos que mataram as três vítimas. “Quando vi as fotografias do local, achei difícil acreditar. Depois, chegando lá, constatei pessoalmente. Ele sobreviveu a um acidente gravíssimo e, logo depois, executou três pessoas”, afirmou o delegado.
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Segundo a Polícia Civil, as vítimas haviam se aproximado para prestar auxílio ao motorista acidentado quando foram surpreendidas pelos disparos.
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Outro elemento considerado decisivo para o esclarecimento do caso foi o surgimento de testemunhas oculares ocasionais. De acordo com Dill, um veículo da Prefeitura de Santa Cruz do Sul passava pelo local exatamente no momento dos disparos.
Os ocupantes do automóvel presenciaram parte da ação criminosa e relataram ter visto o suspeito efetuar os últimos disparos contra uma das vítimas que já estava caída no chão. “Foi algo muito raro. Não havia câmeras, não havia registros visuais. De repente, aparecem quatro testemunhas presenciais que estavam passando pelo local e viram exatamente o que aconteceu”, destacou. As testemunhas são servidores da Secretaria Municipal da Agricultura. Para a investigação, os relatos foram fundamentais para a reconstrução dos fatos.
Segundo Dill, a motivação do crime ficou esclarecida durante as diligências. Embora houvesse rumores antigos sobre conflitos envolvendo furtos de fumo na região, a investigação apontou que a principal causa dos homicídios estava relacionada a uma dívida financeira entre o suspeito e uma das vítimas.
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Conforme apurado, uma das vítimas havia trabalhado para o investigado e possuía uma dívida estimada entre R$ 1 mil e R$ 1,2 mil. “O que conseguimos comprovar foi que ele fazia cobranças frequentes dessa dívida. Havia mensagens e tentativas anteriores de receber o valor. Naquele dia, ele decidiu resolver a situação da forma dele”, explicou.
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A vítima que possuía a dívida foi morta, assim como o primo e o pai. Segundo o delegado, o pai não possuía qualquer envolvimento na desavença. “Era uma pessoa extremamente trabalhadora e acabou perdendo a vida sem ter qualquer participação naquele conflito”, lamentou.
Durante a entrevista, Dill também revelou que o investigado não possuía antecedentes relacionados a crimes violentos. A arma utilizada nos homicídios era uma pistola calibre .38 regularmente registrada em seu nome.
Segundo o delegado, o homem havia cumprido todas as exigências legais para aquisição do armamento, incluindo testes psicológicos e capacitação técnica. Apesar disso, moradores relataram à polícia que ele apresentava mudanças significativas de comportamento quando consumia bebida alcoólica.
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“Os relatos indicam que era uma pessoa trabalhadora e respeitada. Porém, quando bebia, tornava-se agressivo. Havia comentários sobre episódios envolvendo disparos de arma de fogo, mas nada havia sido formalmente registrado”, disse.
Professor da Academia de Polícia Civil do Rio Grande do Sul, Dill afirmou que pretende utilizar o caso como exemplo em atividades de formação de novos investigadores. Segundo ele, a ocorrência reúne diversos elementos raros, desde o acidente que antecedeu os homicídios até a existência de testemunhas presenciais e a rápida resposta das forças de segurança.
“É um caso extremamente rico sob o ponto de vista investigativo. Pela complexidade e pelas circunstâncias envolvidas, certamente será utilizado como material de estudo para formação policial”, afirmou.
O inquérito foi remetido ao Poder Judiciário na véspera do feriado de Corpus Christi. O Ministério Público já ofereceu denúncia contra o investigado por três homicídios triplamente qualificados.
*Colaboraram Marcio Souza e Ronaldo Falkenback
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