Cultura e Lazer

Novo livro de Rodrigo Breunig é dedicado aos leitores imaginários

A priori, para um escritor, todos os leitores são imaginários. Mas o santa-cruzense Rodrigo Breunig dedica uma obra exclusivamente a eles. Talvez até feita… por eles. É nesse terreno, da homenagem ou do intertexto, que se estrutura O livro dos leitores imaginários, que chegará às livrarias em abril, sob o selo da editora Arquipélago, de Porto Alegre, e que se encontra em pré-venda. São 208 páginas com relatos em diferentes formatos ou gêneros de texto, alguns declaradamente inspirados em obras ou mestres referenciais da literatura nacional e internacional.

É o segundo projeto autoral de Breunig, escritor, tradutor e jornalista de 48 anos, após sua bem-sucedida estreia com o romance A última noite das bicicletas, de 2020. Ele já protagoniza uma elogiada carreira na tradução, tendo se ocupado de expoentes como Ambrose Bierce. H.P Lovecraft, Jane Austen, Charles Bukowski, Jack Kerouac e Agatha Christie, entre tantos outros.

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Mais recentemente, Breunig voltou a residir em Santa Cruz, ao lado da esposa Débora e da filha Clara, após temporada em São Paulo. E é nesse contexto que faz sua incursão pela narrativa curta: em parcela dos 101 textos, inspira-se em algumas das inúmeras obras que leu; mas amplo lote também traz a sua marca autoral, que os leitores (reais) agora podem apreciar.

Em primeira mão

Leia com exclusividade um texto de O livro dos leitores imaginários, novo livro do escritor santa-cruzense Rodrigo Breunig, lançamento:

Eu pretendia, diante de um copo de suco de laranja lima, reler o Werther depois de quinze anos. Mas não consegui. Não aguento mais romances epistolares, pensei. Não aguento mais romances de formação. Não aguento mais clássicos. Não aguento mais contemporâneos. Não aguento mais realismo. Não aguento mais autoficção. Não aguento mais escritores. Leio uma página, pensei, e me vejo incapaz de respirar. Não aguento mais prosa poética. Não aguento mais ações e descrições e transições. Não aguento mais trama. Não aguento mais personagens. Não aguento mais diálogos. Não aguento mais monólogo interior. Não aguento mais fluxo de consciência. Não aguento mais discurso indireto livre. Não aguento mais narrador não confiável. Não aguento mais narrador onisciente. Não aguento mais Grandes Ideias. Não agüento mais Grandiloqüência. Não aguento mais simplicidade. Não aguento mais técnica. Não aguento mais estilo. Não aguento mais ficção. Leio uma frase, pensei, e o meu dia está destruído. Não aguento mais traduções. Não aguento mais prêmios. Não aguento mais crítica literária. Não aguento mais influenciadores. Não aguento mais redes sociais. Não aguento mais e-books. Não aguento mais audiolivros. Não aguento mais newsletters. Não aguento mais editoras poderosas. Não aguento mais editoras indefesas. Não aguento mais livrarias. Não aguento mais sebos. Não aguento mais saraus. Não aguento mais festas literárias. Não aguento mais livros alienantes. Não aguento mais livros militantes. Não aguento mais livros censurados. Não aguento mais livros cancelados. Não aguento mais os mais vendidos. Não aguento mais os jamais lidos. Não aguento mais livros que falam de livros. Não aguento mais livros. Nem matar o tempo com o Náufrago eu consigo mais, pensei: conheço todos os seus absurdos de cor. Não leio mais uma palavra. Pensei: melhor contemplar os pássaros que não semeiam nem colhem e as árvores que não escrevem e o céu que não pensa e as nuvens que não sofrem e a chuva que não chora e o sol que mata e nunca morre.

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“Com os livros eu quero viver milhares de vidas”

Um recurso criativo no início de O livro dos leitores imaginários contribui para instaurar certa ambiguidade em torno da autoria do livro. Um “Parecer inicial dos editores” informa que um certo Lucas Bauman submeteu à casa editorial um conjunto de 101 narrativas, inspiradas em obras que leu ao longo de mais de três anos (mil e uma noites, mais exatamente), e o fez sob o pseudônimo de Rodrigo Breunig. Na capa do volume editado, portanto, fora mantido esse “pseudônimo”.

Em entrevista ao Magazine, Breunig brinca com essa estratégia. “Forjei as histórias buscando inspiração em quase todas as leituras mais marcantes dos meus 40 anos como leitor”, comenta. Em cerca de metade dos 101 textos, ele aproveita elementos como personagens, fatos, situações, ambientes, numa espécie de paródia ou paráfrase. Reaviva ou revisita, assim, aquelas mesmas passagens de obras clássicas, que são homenageadas por ele em diferentes gêneros e estilos: contos, verbetes, poemas, colagens, canções, anedotas, aforismos etc.

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No entanto, em meio à composição, como reconhece, passou a elaborar igualmente uma série de textos de autoria exclusiva sua. Assim, para o leitor, fica uma espécie de desafio: identificar, também a partir de sua experiência na literatura, eventuais referências ou menções. Para facilitar, os “editores” elencam ao final uma série de possíveis indicações de obras com as quais os textos do livro dialogam.

Entre “leitores imaginários” e supostos autores ocultos, o que se tem é uma grande e eficiente homenagem a algumas das páginas mais perenes da literatura mundial. São vidas literárias que enriquecem, e muito, a vida real de sucessivas gerações.

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Entrevista

Rodrigo Breunig
Escritor e tradutor

  • O livro dos leitores imaginários, que estás em vias de lançar, estabelece intertexto com As mil e uma noites, numa tentativa de, em cento e uma narrativas, inspiradas em livros lidos, preservar a vida na luta contra a morte. Conte-nos, Rodrigo, das motivações para o empenho pela vida, lançando mão de contar histórias.
  • Perdi muitas pessoas amadas em tragédias difíceis de aceitar, ao longo de quatro décadas, desde os meus 12 anos até o ano passado. E a literatura me apresentou a morte bem antes dos meus 12 anos. Desde a infância, os livros, com uma constelação infinita de maravilhas e terrores, numa profundidade inigualável, não dissolveram as minhas angústias, não me tornaram mais feliz, mas me ajudaram a sobreviver cada vez melhor. Nós amamos as pessoas porque a morte existe. Aceitando a morte, tentamos amar melhor as que ficam. Nas Mil e uma noites, uma leitora conta histórias para não ser assassinada por seu ouvinte. Em O livro dos leitores imaginários, um leitor conta histórias para manter seu ouvinte vivo. Esse ouvinte é um irmão morto, e também sou eu, somos todos nós. Com os livros, eu vivo cada dia e cada noite, e quero sobreviver mais quatro décadas, e quero viver milhares de vidas.
  • Para o narrador destas histórias, todos os potenciais leitores são imaginários, não é mesmo?
  • Totalmente. Toda escrita anseia por olhos imaginários, mas o meu livro, além disso, talvez seja um manuscrito abandonado nas gavetas reais ou virtuais de uma casa editorial, destinado a jamais ser lido por ninguém além dos editores. Ou talvez ele fale de um país ou mundo em que as criaturas interessadas por livros já estão em avançado estado de extinção.
  • Num “Parecer inicial dos editores”, há o reconhecimento de um esforço em identificar, nos textos do livro, as possíveis obras ou os personagens envolvidos. São elementos literários que o “autor” homenageia, ou reconhece como importantes em sua vida?
  • São. Forjei as histórias buscando inspiração em quase todas as leituras mais marcantes dos meus 40 anos como leitor – desde o Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, que tentei ler na infância e não consegui, até o Frankenstein de Mary Shelley, que li pela primeira vez três anos atrás e reli três meses atrás.
  • Para os leitores, fica também o mesmo convite ou o mesmo desafio, de, com sua bagagem literária, ir em busca das possíveis fontes?
  • Eu adoraria saber que alguém reconheceu esse ou aquele personagem num conto enigmático. E adoraria que o livro provocasse em alguém a vontade de sair lendo as fontes. Mas espero que os contos também funcionem para quem só quiser ler umas boas histórias engraçadas, ou tristes ou loucas.
  • És, de longa data, tradutor. Nas histórias de teu novo livro, lidas com personagens ou passagens que se amplificam ou reverberam de traduções que fizeste?
  • Os personagens de Jane Austen e Charles Bukowski, por exemplo, chegaram a mim pela tradução. Quando comecei a traduzir Austen e Bukowski, eu nunca tinha lido nem Austen nem Bukowski. Os dois não saíram de mim nunca mais. E o meu livro em grande parte é obra de um tradutor maluco. Em certos contos, traduzi Dostoiévski sem entender patavina de russo, traduzi Goethe conhecendo meia dúzia de palavras em alemão.
  • Aliás, não apenas os leitores são “imaginários”. Também o espaço e o tempo. Quando “Dom Quixote” entra em cena, “Cinquenta anos atrás, em princípios de 2002, ele foi votado a melhor história que já tinha sido escrita”. Propõe-se, então, também uma viagem ao futuro?
  • Sim, pensei bastante nos leitores ou não leitores do futuro. Meu Dom Quixote talvez provenha de uma desinteligência humana ou inumana num tempo (daqui a vinte e poucos anos) em que ninguém mais lê Dom Quixote. Outro conto cita um longo trecho de uma tradução do Werther realizada no século 22. Em outro, um personagem vende uma coleção rara de Machado de Assis por alguns litros de água.
  • O que a imaginação significa ou representa para ti?
  • É a minha liberdade total, a minha pequena imortalidade, a única riqueza que eu nunca vou parar de acumular.
  • Se pudesses optar por ser um leitor imaginário de algum escritor da atualidade, quem escolherias ou quem seria tua preferência?
  • Eu seria uma traça fantasma nos livros da poeta Ana Martins Marques. Ela provavelmente não imagina que um leitor nascido 41 dias antes dela decorou na primeira leitura estes versos: “Tenho 39 anos. / Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. / Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. / Bem mais recentes são meus cabelos / e minhas unhas. / Pela manhã como um pão. / Ele tem uma história de 2 dias. / Ao sair do meu apartamento, / que tem cerca de 40 anos, / vestindo uma calça jeans de 4 anos / e uma camiseta de não mais que 3, / troco com meu vizinho / palavras de cerca de 800 anos / e piso sem querer numa poça / com 2 horas de história / desfazendo uma imagem / que viveu / alguns segundos.”

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Romar Behling

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Romar Behling

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