Faz muito tempo – ainda no século passado – todas as escolas do Rio Grande do Sul tinham estreita supervisão da Secretaria de Educação. Os currículos, as provas, os concursos escolares, e algumas curiosidades vinham direto de Porto Alegre para todos os Grupos Escolares, que era como se chamavam as escolas. Então, cursava eu o primário no Grupo Escolar Visconde de Taunay, em Iraí, quando levamos um bilhete para casa, pedindo que trouxéssemos algum pequeno dinheiro no outro dia.

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Na manhã seguinte fomos todos trazidos ao pátio, em ordem, mas fervendo de curiosidade. Lá pelas tantas, a diretora apareceu, no alto da escada, e disse que veríamos uma situação inacreditável, sobre a força de vontade. É do que me lembro. Então, contou que um homem nasceu sem braços e sem mãos, mas mesmo sendo tão prejudicado, conseguiu trabalhar, casar-se e ter filhos. Tinha vindo com a filha, uma menina de uns 8 anos, como eu. Ela saiu pela porta, ao lado de um homem muito magro. Como ele não tinha mãos, ela o conduzia segurando-lhe a ponta da camisa. Ele sentou-se num banquinho que já estava ali. Então:

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a menina trouxe uma espiriteira (pequeno fogareiro), onde colocou uma pouco de álcool, e entregou ao pai uma caixa de fósforos;
o homem – acreditem! – abriu a caixa, pegou um fósforo, riscou-o e acendeu o fogo;
a menina entregou a ele uma frigideira com banha e um ovo.
o homem colocou a panela no fogo, esperou aquecer, abriu o ovo e fritou: tudo com os dedos dos pés. Repito: tudo com os dedos dos pés!

O homem perguntou se alguém queria comer o ovo. Ninguém quis.
A seguir, a diretora disse que poderíamos fazer algumas perguntas à menina e ao pai. Uma colega fez a pergunta que eu, por tímida, não fiz:
– Onde está sua mãe?
Ela respondeu:
– Na cidade onde moramos, cuidando dos meus irmãozinhos.
Ao homem perguntaram se gostava de viajar e de apresentar-se em escolas. Ele disse:
– Não é por gostar que faço isso. Mas foi o que aprendi, para viver. Desde criança. Minha mãe tinha outros filhos para cuidar.
Enquanto perguntávamos, uma professora passava um chapéu para darmos nosso dinheirinho a eles.

Meu irmão e eu voltamos para casa cheios de gratidão e remorsos. Gratidão, por termos dois braços, duas mãos, duas pernas e dois pés. Remorsos por sermos tão preguiçosos e não gostarmos nada de ajudar em casa. Também com muita pena da menina. Como ela vestia o pai? Como podia perder tantas aulas para viajar com ele? Como fazia para dar banho e limpar o pai quando ia no banheiro? Aquela garota nunca saiu de nós. Nunca, mesmo! Obrigada por me lerem!

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Carina Weber

Carina Hörbe Weber, de 37 anos, é natural de Cachoeira do Sul. É formada em Jornalismo pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e mestre em Desenvolvimento Regional pela mesma instituição. Iniciou carreira profissional em Cachoeira do Sul com experiência em assessoria de comunicação em um clube da cidade e na produção e apresentação de programas em emissora de rádio local, durante a graduação. Após formada, se dedicou à Academia por dois anos em curso de Mestrado como bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Teve a oportunidade de exercitar a docência em estágio proporcionado pelo curso. Após a conclusão do Mestrado retornou ao mercado de trabalho. Por dez anos atuou como assessora de comunicação em uma organização sindical. No ofício desempenhou várias funções, dentre elas: produção de textos, apresentação e produção de programa de rádio, produção de textos e alimentação de conteúdo de site institucional, protocolos e comunicação interna. Há dois anos trabalha como repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações, tendo a oportunidade de produzir e apresentar programa em vídeo diário.

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