Educação

“O mais importante é formar leitores”, afirma António Nóvoa à Gazeta do Sul

Uma das maiores autoridades contemporâneas em realidade global em torno dos temas do ensino e da aprendizagem estará em Santa Cruz do Sul na próxima semana. Professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e reitor honorário da mesma universidade, o português António Manuel Seixas Sampaio da Nóvoa será uma das atrações do 35º Congresso da Rede Sinodal de Educação, que terá como sede o Colégio Mauá. Nóvoa profere palestra nesta segunda-feira, 20, a partir das 15 horas, no palco do Teatro do Mauá. Cerca de mil pessoas estarão envolvidas, entre público local e representantes de dezenas de instituições de outras regiões.

Aos 71 anos, Nóvoa é requisitado palestrante e interlocutor em educação na atualidade. Natural de Valença, a cerca de 435 quilômetros de Lisboa, tem ampla e eclética formação, com doutorado em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra, na Suíça, e em História Moderna e Contemporânea pela Sorbonne, em Paris, na França.

Além de sua liderança no ambiente educacional, como professor, gestor e estudioso, autor de mais de 150 publicações, entre livros e artigos, atuou na esfera pública e na política. Em 2016, por exemplo, foi candidato independente às eleições presidenciais em Portugal, com apoio de expoentes à esquerda, como os ex-presidentes da República Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.

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No Brasil, marcou presença em inúmeras ocasiões, em missões oficiais e também como professor visitante em universidades. Integra ainda academias e recebeu uma série de honrarias. Além do amplo currículo, Nóvoa é reconhecido por ter tomado importantes medidas que buscaram aproximar a sociedade, e não apenas a comunidade escolar, dos espaços da universidade, em sintonia com o próprio significado desse termo.

Na iminência da vinda a Santa Cruz, o professor António Nóvoa concedeu entrevista exclusiva à Gazeta do Sul, com encaminhamento de perguntas e, posteriormente, de respostas via WhatsApp. Na entrevista, nestas duas páginas e na próxima, reflete sobre a realidade educacional dentro e fora das escolas.

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Entrevista António Nóvoa — professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e reitor honorário da mesma universidade

Gazeta do Sul – O senhor tem enfatizado que não há educação sem relação humana. Como administrar o ensino em tempos tão marcados por mediação tecnológica, e à distância? Que tipo de relação humana precisa ser preservada na escola?

António Nóvoa – A escola existe para construir relações humanas em torno de um trabalho comum. É preciso reunir os estudantes em torno da mesma mesa para que possam estudar, pensar, pesquisar, criar e aprender juntos. A escola não deveria ser o lugar onde se vai apenas assistir a aulas, mas o lugar onde professores e estudantes trabalham em comum. As tecnologias podem ampliar as possibilidades desse trabalho, mas não podem substituí-lo. A educação nasce do encontro entre pessoas comprometidas com uma mesma aventura intelectual e humana.

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Em algum momento na caminhada de formação, a relação humana é mais forte ou vital do que em outros? Que fases ou momentos seriam esses?

A relação humana é indispensável em todas as etapas da educação, da infância à universidade. Nunca existiu um ser humano que tenha se educado sozinho. Aprendemos sempre com outras pessoas, graças à presença, ao diálogo e ao cuidado daqueles que nos acompanham. Na infância, esses vínculos são particularmente importantes, como ficou evidente durante a pandemia, quando percebemos que a escola é muito mais do que um lugar de transmissão de conhecimentos. Mas isso também vale para a universidade. Os momentos mais ricos da vida universitária acontecem quando professores e estudantes se reúnem para formular boas perguntas e buscar respostas em comum. É essa experiência compartilhada que dá sentido à educação.

Como o senhor acompanha o avanço da IA no universo educacional, e no que ela pode ser positiva ou, em outro extremo, negativa? Como lidar com ela na educação?

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A humanidade sempre precisou de tempo para incorporar as grandes transformações tecnológicas. Foi assim com o domínio do fogo, com a escrita, com a imprensa, com a eletricidade. A diferença é que, agora, tudo acontece numa velocidade sem precedentes, e ainda estamos aprendendo a compreender o alcance dessa mudança.

Recentemente, o CEO da OpenAI, Sam Altman, disse que no futuro a inteligência será um produto de uso comum, como a eletricidade ou a água, que poderá ser comprado de acordo com as necessidades de cada pessoa. É uma imagem poderosa e, provavelmente, verdadeira. Mas ela também revela o limite da tecnologia. Podemos comprar inteligência, mas não podemos comprar educação. A inteligência pode ser um produto; a educação nunca será. A educação é um processo de transformação de cada pessoa, uma experiência de estudo, de criação e de encontro com os outros. Ninguém pode fazer esse caminho por nós.

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Que experiências ou que medidas o senhor adotou, ou viu serem adotadas, no sentido de que as relações humanas no ensino prevalecessem? Quais os modelos que se pode ou deve seguir?

Não acredito em modelos. A educação não avança pela reprodução de fórmulas, mas pela capacidade de criar experiências que façam sentido em cada contexto. O que uma escola pode oferecer a outra não é um modelo a ser copiado, mas uma experiência capaz de inspirar novas experiências. Foi essa convicção que orientou o relatório da Unesco “Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação”, cujo comitê de redação tive a honra de coordenar.

O relatório organiza-se em torno de cinco grandes ideias: uma pedagogia baseada na cooperação; um currículo que promova a convergência entre diferentes saberes; professores que trabalhem em colaboração; escolas que cultivem a convivência; e uma educação comprometida com a cidadania e o bem comum. Não são receitas. São princípios que podem inspirar cada comunidade escolar a construir o seu próprio caminho. A educação não avança quando copiamos modelos. Avança quando uma experiência inspira outra experiência.

Pela percepção do senhor, os dilemas ou os desafios na educação hoje são muito parecidos ou similares em Portugal e no Brasil, por exemplo, ou mesmo em outras nações? O que é comum e o que difere?

Hoje, os grandes debates sobre educação são surpreendentemente semelhantes em quase todo o mundo. Discutimos inteligência artificial, desigualdades, formação de professores, currículo, inclusão, avaliação. Durante o período em que trabalhei na Unesco, tive a oportunidade de visitar escolas e universidades em todos os continentes e sempre me impressionou essa espécie de linguagem comum da educação.

Mas os desafios nunca existem no vazio. Eles assumem formas muito diferentes em cada país. No caso do Brasil, existe uma extraordinária vitalidade pedagógica, mas também desigualdades históricas que ainda não foram superadas. O grande desafio continua sendo garantir a todas as crianças e jovens uma escola pública de qualidade. Essa é uma promessa democrática que o Brasil continua construindo.

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Se o senhor tivesse de identificar uma ou algumas grandes ameaças na esfera da educação, quais seriam, e por quê?

Vejo duas grandes ameaças. A primeira é a ideia, aparentemente sedutora, de que a educação está em toda parte e, por isso, a escola deixou de ser necessária. É verdade que aprendemos em muitos lugares: em casa, na cidade, nas redes digitais, no trabalho. Mas é justamente por isso que precisamos preservar a especificidade da escola. Ela é o único lugar da sociedade inteiramente dedicado ao estudo, ao conhecimento e à formação das novas gerações. Reconhecer que há aprendizagem em toda parte não pode significar o enfraquecimento da escola.

A segunda ameaça é a privatização da educação pública. Não me refiro à existência de escolas privadas, que fazem parte de uma sociedade democrática. Refiro-me à crescente transferência para empresas privadas de funções que pertencem ao espaço público: materiais didáticos, plataformas digitais, sistemas de avaliação, formação de professores e até decisões pedagógicas. Quando isso acontece, a educação deixa de ser tratada como um bem público e passa a ser organizada segundo lógicas de mercado. Esse é um risco que merece toda a nossa atenção.

Em um mundo cada vez mais digital e apoiado em recursos de IA, onde fica a leitura de impressos (jornal, inclusive)? Como eles podem e devem ser entendidos e inseridos nesse contexto? E qual o papel que cumprem?

O mais importante não é opor o impresso ao digital, mas formar leitores. Precisamos de pessoas capazes de ler com atenção, interpretar, comparar, duvidar, estabelecer relações e construir um pensamento próprio. Isso vale para um livro, um jornal, uma tela ou qualquer outro suporte.

Dito isso, continuo convencido de que nada substitui a experiência da leitura de um livro. Um livro nos ensina a desacelerar, a sustentar uma ideia, a acompanhar um raciocínio até o fim. Pertenço a uma geração que cresceu entre livros, e eles continuam fazendo parte da minha vida cotidiana. Não consigo imaginar uma educação sem livros, porque não consigo imaginar uma educação sem leitura profunda.

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Hoje, em diferentes níveis de formação, pais costumam intervir ou interferir, por vezes ostensivamente, na esfera educacional, quase exigindo o que querem que seja ensinado ao(s) filho(s). A que leva tal comportamento, e como o senhor o classifica?

A participação das famílias é indispensável para a vida da escola. Mas é preciso distinguir participação de interferência. A escola é uma instituição pública, não um serviço prestado a clientes. Por isso, os pais são chamados a participar como cidadãos, preocupados com o bem comum e com a educação de todas as crianças, e não apenas com os interesses dos próprios filhos.

O que me preocupa é a crescente desvalorização da autonomia profissional dos professores. Em muitas partes do mundo, eles passaram a ser permanentemente questionados, supervisionados e pressionados por atores externos. Uma sociedade que desconfia dos seus professores fragiliza a própria escola. Educar exige diálogo com as famílias, sem dúvida, mas exige também respeito pela responsabilidade profissional dos professores e confiança no seu trabalho.

Que papel a escola ou a instituição de ensino cumpre para além da família? Como ela, a escola, precisa ser resguardada?

A escola não existe para substituir a família, nem para prolongá-la. A sua força está justamente em ser diferente. É uma instituição pública onde crianças e jovens entram em contato com pessoas, ideias, conhecimentos e modos de vida que ultrapassam o universo familiar. É esse alargamento do mundo que torna a escola insubstituível. Por isso, a colaboração entre escola e família é tão importante. Não porque uma deva ocupar o lugar da outra, mas porque são instituições diferentes e complementares. O centro dessa relação não são os interesses dos adultos, mas o direito de cada criança e de cada jovem a uma educação plena, fundada no conhecimento, na diversidade das culturas e nos direitos humanos.

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Para que um aluno, um estudante, uma pessoa deve aprender? Em sua avaliação, para que e o quê?

Aprender é uma das formas de nos tornarmos humanos. Ninguém nasce pronto. Tornamo-nos humanos na relação com os outros, com a cultura, com o conhecimento e com o mundo que recebemos das gerações anteriores. É por isso que a educação não serve apenas para preparar uma profissão ou adquirir competências. Ela nos ajuda a compreender melhor o mundo, compreender melhor os outros e a compreender melhor a nós mesmos.

Hoje, diante das extraordinárias transformações tecnológicas que estamos vivendo, essa missão se torna ainda mais importante. As máquinas poderão responder a muitas perguntas, mas não poderão decidir quais são as perguntas que realmente importam. Precisamos de uma educação que fortaleça a capacidade de pensar, de julgar, de imaginar, de criar e agir em situações de incerteza. Educar continua sendo preparar cada pessoa para compreender o mundo, participar da sua transformação e assumir responsabilidade por ele.

O senhor tem contato de longa data com o Brasil e suas instâncias de ensino. Nele, o que aponta de positivo ou promissor na esfera educacional e o que ainda vê como afastado do que seria melhor?

O Brasil tem uma extraordinária capacidade de invenção pedagógica. Ao longo de mais de 30 anos de convivência com educadores brasileiros, encontrei pessoas, escolas e comunidades realizando experiências de uma criatividade e de um compromisso raros. Há uma energia educativa no Brasil que continua a me impressionar.

Ao mesmo tempo, essa riqueza convive com uma grande fragilidade institucional. Muitas experiências extraordinárias não conseguem ganhar continuidade nem transformar-se em políticas públicas duradouras. Além disso, chama a atenção o espaço crescente ocupado por empresas e organizações privadas na definição dos rumos da educação pública, desde os materiais didáticos até à formação de professores. Não conheço outro país em que essa influência seja tão ampla.

O grande desafio do Brasil é transformar a sua extraordinária capacidade de criação em instituições públicas fortes, capazes de garantir continuidade, qualidade e equidade. E acrescento: as universidades públicas brasileiras, que alcançaram um nível de excelência reconhecido, têm de assumir um compromisso maior com a educação básica. As boas escolas não nascem apenas de boas ideias. Nascem de instituições fortes e de professores reconhecidos.

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Como o ser humano, na atualidade, deve lidar com o ensino e com a educação? É possível em algum momento interromper a aprendizagem?

Durante muito tempo, pensamos a educação como uma preparação para a vida adulta. Primeiro estudávamos, depois trabalhávamos e, finalmente, nos aposentávamos. Esse ciclo está mudando profundamente. Vivemos mais, mudamos várias vezes de profissão, convivemos com transformações tecnológicas permanentes e com várias gerações ao mesmo tempo. A educação deixou de ser uma etapa da vida para tornar-se uma dimensão da própria vida.

Por isso, já não faz sentido perguntar quando termina a aprendizagem. Ela não termina. Mas também não pode ser reduzida a uma permanente atualização de competências para o mercado de trabalho. Aprender ao longo da vida é continuar ampliando a nossa compreensão do mundo, cultivando a curiosidade, participando da cultura e reinventando a própria existência. Talvez esta seja uma das maiores mudanças do nosso tempo: a educação deixa de ser apenas uma preparação para a vida e torna-se uma maneira de habitar o mundo.

A questão da inclusão e de oportunidade igual ou universal para a formação, como isso está sendo visto e tratado nos dias atuais?

A inclusão tornou-se uma palavra central no discurso educacional. O desafio, agora, é transformá-la em realidade. E isso não acontecerá apenas com mais recursos ou mais boa vontade. A verdadeira inclusão exige uma mudança profunda da organização da escola, da pedagogia e do trabalho dos professores. Não basta colocar todos os alunos no mesmo espaço; é preciso criar condições para que todos participem efetivamente da vida comum da escola.

Gosto de recorrer à imagem de uma mesa. Numa sala de aula, sempre corremos o risco de esquecer um aluno sentado na última fila. Mas, quando estamos todos em volta da mesma mesa, ninguém pode ficar invisível. Incluir não é apenas garantir a presença de todos. É assegurar a participação de cada um. A inclusão começa quando cada estudante deixa de ocupar apenas um lugar físico e passa a ocupar um lugar no trabalho comum, na conversa, no estudo e na criação.

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Sempre me espantou ver alguns jovens capazes de atenção extrema e de um esforço extraordinário nos treinos de futebol ou nos ensaios de grupos de música e que, na escola, são incapazes de um mínimo de atenção ou de esforço. Já vi muitos jovens demonstrarem uma disciplina admirável nos treinos esportivos, nos ensaios de música, no teatro ou na dança e, ao mesmo tempo, parecerem completamente desligados na escola. Isso mostra que o problema não é uma incapacidade de se concentrar ou de fazer esforço. O desafio é outro: criar, na escola, experiências que convoquem os alunos a estar verdadeiramente presentes.

O estudo exige essa presença. Exige atenção, tempo, envolvimento e desejo de compreender. Não é muito diferente do que acontece com um músico diante do seu instrumento ou com um atleta diante do treino. Em todos esses casos, aprender significa dedicar-se por inteiro a uma atividade que nos transforma. Talvez a escola deva recuperar essa experiência do estudo: não como obrigação, mas como uma forma de descoberta de si, dos outros e do mundo.

Em nível internacional, que países o senhor entende que poderiam funcionar como ótimo modelo no que tange a educar? E por que se reluta em seguir o que está dando certo?

Tenho alguma desconfiança em relação à ideia de países-modelo. Durante muitos anos falou-se da Finlândia. Hoje fala-se de Singapura. Amanhã será outro país. A educação não funciona pela importação de modelos. O que produz bons resultados em determinado contexto pode fracassar completamente noutro.

O que realmente vale a pena conhecer são as experiências que nascem dentro das escolas. É aí que a educação se renova. Quando professores trabalham juntos, têm liberdade para experimentar, refletem sobre a própria prática e compartilham o que aprendem, surgem novos caminhos. A mudança em educação não nasce dos decretos nem dos rankings internacionais. Nasce do trabalho dos professores. As políticas públicas são fundamentais, mas sua principal responsabilidade é criar condições para que esse trabalho possa florescer. A educação não avança quando copiamos modelos. Avança quando uma experiência inspira outra experiência.

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O senhor estará em Santa Cruz do Sul. O que já sabe ou conhece sobre o Colégio Mauá e sobre a cidade, e como tem sido sua relação com o Rio Grande do Sul?

A minha primeira viagem de trabalho ao Brasil foi em 1994, para um encontro com Paulo Freire, em Águas de São Pedro (SP). Desde então, o Brasil tornou-se parte da minha própria trajetória intelectual. Não foi apenas um país onde dei conferências ou participei de projetos. Foi um país com o qual aprendi a pensar a educação.

Tenho uma relação muito especial com o Rio Grande do Sul, sobretudo com a Universidade Federal de Santa Maria. E guardo um fascínio antigo pela região das Missões, um dos lugares mais belos e significativos que conheço. Agora será uma alegria conhecer Santa Cruz do Sul, dando continuidade a uma conversa com o Brasil que dura há mais de 30 trinta anos.

Algum sonho que o senhor alimenta em relação ao ensino, à educação, que ainda espera ver concretizado?

Nesta conversa falamos muito da escola, dos estudantes, da inteligência artificial e das transformações da sociedade. Mas, no fundo, minha maior preocupação são os professores. Hoje existe, em praticamente todo o mundo, um discurso muito favorável aos professores. Todos reconhecem que eles são indispensáveis.

Paradoxalmente, porém, nunca a sua autonomia profissional foi tão fragilizada. Multiplicam-se as plataformas, os materiais padronizados, os sistemas de controle, as prescrições e os especialistas que dizem aos professores como devem ensinar. Aos poucos, corre-se o risco de transformar uma profissão intelectual, relacional e criadora numa atividade de mera execução.

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O meu maior sonho é exatamente o contrário: que os professores voltem a ser reconhecidos como autores do seu próprio trabalho, com liberdade para pensar, criar, decidir e assumir responsabilidades em colaboração com os seus colegas. A educação só mudará quando voltarmos a confiar nos professores. Costumo dizer que, hoje, os professores são alvo de tudo, mas não são o centro de nada. E, no entanto, o futuro da educação depende, antes de tudo, deles.

Que papel o senhor entende que cumprirá, do presente para o futuro, a sala de aula, e de que sala de aula ideal estamos falando?

Devemos desconfiar de todos aqueles que anunciam o fim da sala de aula ou prometem uma revolução permanente na educação. A história da escola é uma história de metamorfoses, não de rupturas. Em educação, o desafio nunca foi inventar tudo de novo. Foi sempre reinventar, à luz de novos tempos, aquilo que merece ser preservado.

Não sei como serão exatamente as salas de aula daqui a 20 ou 30 anos. Talvez tenham outras formas, outros espaços, outras tecnologias. Mas espero que conservem o essencial: que continuem sendo lugares de estudo, de encontro entre gerações, de cooperação e de criação. Lugares onde professores e estudantes trabalham juntos para compreender o mundo e construir um mundo comum. Talvez essa seja, ainda hoje, a mais bela definição da escola: uma instituição pública dedicada ao estudo, ao encontro entre gerações e à construção de um mundo comum.

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Romar Behling

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