Legado: o diretor paulista Manoel Carlos faleceu no dia 10 de janeiro, aos 92 anos
No dia 10 de janeiro, os noveleiros despediram-se de Manoel Carlos, que faleceu aos 92 anos. Nascido em 1933, em São Paulo, o escritor se consagrou pela criação de algumas das telenovelas mais marcantes da Globo, incluindo Laços de Família, Por Amor e Mulheres Apaixonadas.
Para além das intrigas e dos dramas típicos do formato, Maneco (como ficou conhecido) incluía na narrativa temas sociais em voga no período em que escrevia as suas histórias. Questões como violência contra a mulher, dependência química e até doação de medula foram incorporadas, fomentando debates entre os espectadores.
Também fez história ao criar as Helenas, protagonistas marcantes por traços de personalidade fortes e inspiradores. A primeira foi Lilian Lemmertz, em Baila Comigo. Maitê Proença, Regina Duarte, Vera Fischer, Christiane Torloni e Taís Araújo também assumiram o papel criado por Maneco.
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A novela Em Família, exibida entre fevereiro e julho de 2014, ficaria marcada como seu último trabalho na teledramaturgia. A trama envolve Helena (a nona do autor, papel de Julia Lemmertz, filha da primeira Lilian) e Laerte, em uma história que envolve amor, ciúme e obsessão. O elenco incluía ainda Gabriel Braga Nunes e Bruna Marquezine.
Parte das gravações ocorreu em Goiás. Entre os integrantes da equipe, formada por 120 profissionais, estavam os irmãos Diego (no cargo de assistente de direção) e Pablo Müller (supervisor executivo de produção). Os cineastas gaúchos, responsáveis por InfiniMundo (gravado no interior de Santa Cruz do Sul e na região), cresceram assistindo às novelas de Maneco; de espectadores, passaram a trabalhar na última obra do autor.
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O primeiro encontro de Diego e Manoel Carlos foi na TV Globo. Enquanto trabalhava na novela Flor do Caribe, de Walther Negrão, entrou na pré-produção de Em Família. O contato se estreitou durante a etapa do teste de elenco, ao lado de Jayme Monjardim.
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Um dia, o cineasta foi até a casa do escritor para levar vídeos testes que havia editado, para assistirem juntos. E foi recebido pelo escritor vestido com trajes inusitados: uma bermuda curta, camisa aberta e chapéu panamá. No seu colo estava um gato. Com o apoio da sua bengala, Manoel levou Diego até o lugar onde trabalhava. “Fui bem cedo e passei até o fim da tarde com ele. Conheci o local no qual ele escrevia e conversamos bastante sobre o processo de criação. É uma lembrança muito boa.”
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Certa vez, Manoel assistia a um teste e constatou que o ator fazia gestos e caretas, e gritava. Diante da cena, disse a Diego: “se o ator se expressa de forma exagerada, tira o volume na televisão; se continuar ouvindo-o, ele está exagerando”. “Já fiz isso algumas vezes quando fiz alguns testes e tenho dúvida se as expressões não são exageradas. E repito isso quando tenho que defender uma escolha minha. Realmente, quase sempre funciona”, admite.
Já Pablo recorda de quando viu Maneco pela primeira vez. Toda a equipe e o elenco estavam reunidos para a leitura do texto, no chamado “mesão”. “Lembro dele chegando no Projac idolatrado. Em todo o trajeto dele até o local onde estávamos fazendo a leitura, o carrinho parava para alguém cumprimentá-lo e idolatrá-lo. E, quando chegou, não foi diferente”, recorda.
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Outra cena inusitada foi a festa de lançamento da novela. Pablo e Diego estavam na mesma mesa com o escritor, mais Jayme, Bruna Marquezine e Neymar. “Foi um momento inusitado ver Manoel Carlos sentado ao lado do Neymar”, comenta.
Para os irmãos Müller, trabalhar com Manoel Carlos foi uma experiência marcada por vários ensinamentos. Diego, que também é roteirista – sendo responsável por escrever Porongos, seu próximo longa-metragem –, afirma que, através de Maneco, entendeu o quanto é importante incluir no enredo o cotidiano dos personagens, algo que influenciou na maneira como escreve hoje.
Segundo ele, trata-se de uma maneira de o espectador se identificar com o elenco. Tal legado, na avaliação de Diego, está presente em outros autores, incluindo Lícia Manzo, criadora da novela Sete Vidas.
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“Procuro encontrar outros momentos na história dos personagens que de alguma forma contribuem para a construção do perfil deles e não necessariamente sejam fundamentais para a trama”, afirma.
Pablo ressalta a qualidade dos diálogos criados por Maneco e o prazer de ler os roteiros do escritor. “Em todas as novelas que fiz, e foram mais de 12, tem textos que você se preocupa em entender o que vai acontecer e como vai gravar. Mas o do Maneco você lia com prazer. Eu chegava em casa e pegava os textos como se fosse ler um livro na praia.”
Para o produtor, Em Família, último trabalho de Manoel Carlos, representa o fim de um formato de novela, mais lento, diferente das atuais, mais dinâmicas. “A novela vem de novelo. Ela vai se desenrolando devagarzinho, enquanto hoje em dia tudo é muito rápido. O Manoel Carlos foi o último a escrever nesse formato mais lento e contemplativo.”
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