Cultura e Lazer

O mosaico literário de Umberto Eco, em Il nome della rosa

Se no nosso último encontro deciframos a arquitetura labiríntica da abadia de Umberto Eco como um tributo à geometria de Borges, hoje o nosso mergulho é na alma da narrativa. Para além dos corredores de pedra, O nome da rosa sustenta-se em uma complexa galeria de modelos literários que deram vida aos seus personagens e definiram o ritmo desta investigação medieval. Mas o que significa, na prática, fazer uso de modelos literários?

Como um grande estudioso da semiótica – a ciência que estuda os signos e os sentidos construídos a partir deles –, Eco permitiu que essa matéria guiasse o seu modo de criar durante toda a vida. Ele sabia que, para fascinar o público com o seu primeiro romance, publicado quase aos 50 anos após uma carreira dedicada apenas aos ensaios, o leitor precisaria de pontos de contato familiares. Por isso, em vez de criar tudo do zero, ele utilizou estrategicamente personagens e estruturas famosas da literatura e da cultura de massa. Um exemplo claro é a transposição de Sherlock Holmes para a figura de Guilherme de Baskerville, o nosso responsável pela investigação dos homicídios e protagonista, e de Watson para Adso de Melk, o narrador em primeira pessoa e ajudante do detetive.

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Longe de ser uma simples cópia, essa apropriação foi uma ferramenta inteligente para gerar conexão. Além de utilizar personagens já populares, Eco criou uma espécie de série dentro do próprio livro. Enquanto outros autores tiveram décadas e vários volumes para fidelizar seus leitores, Eco precisava fazer isso em uma única obra. Para resolver esse desafio, ele dividiu o livro em sete dias que seguem uma mesma estrutura: a cada dia surge um novo delito e a investigação avança. Esse modelo repetitivo funciona como as séries de televisão que gostamos de acompanhar, utilizando a familiaridade e a rotina da narrativa como uma estratégia de fidelização imediata do leitor.

Para nos aprofundarmos neste conceito, podemos mencionar o “Mito di Superman”, analisado por Umberto Eco em seu ensaio Apocalittici e integrati. Nele, o autor descreve a evolução do Übermensch nietzschiano – o “além do homem” que supera o homem comum, limitado por valores tradicionais – em heróis da cultura popular, como Superman ou os protagonistas dos romances de folhetim. Também chamados de feuilleton, esse gênero literário era muito difundido no século XIX e caracterizado pela publicação em episódios, mantendo leitores fiéis às aventuras publicadas em jornais.

Outro “Superman” amplamente conhecido é James Bond, que serve de modelo para o nosso protagonista Guilherme de Baskerville, sendo inclusive interpretado no cinema pelo mesmo ator, Sean Connery. É importante destacar que Eco analisa esse conceito pedindo para deixarmos de lado os vieses racistas que foram apropriados de maneira ideológica pelo sistema nazista na Alemanha.

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O Partido Nazista utilizou de forma distorcida ideias como o Übermensch e a potência para legitimar seu projeto totalitário, mas essa foi uma apropriação seletiva. O filósofo morreu em 1900, antes da ascensão do nazismo, e em diversos momentos criticou o nacionalismo alemão e o antissemitismo.

Encontramos traços do Übermensch de Nietzsche em Guilherme de Baskerville, visto que ele se opõe a diversos dogmas cristãos da Idade Média. A história nos apresenta um monastério fechado e isolado do mundo, ambiente que evidencia o extremismo do pensamento religioso sob a sombra da Inquisição. A filosofia do personagem demonstra estar muito à frente de seu tempo, aproximando-se do Iluminismo ao utilizar um método lógico e dedutivo profundamente racional, ainda que falível. Trataremos desse aspecto mais adiante para evitar revelações importantes da trama a quem ainda está lendo a obra.

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Além disso, embora represente um anacronismo, Guilherme possui óculos, tecnologia inexistente na época que simboliza sua capacidade de enxergar melhor em meio à indagação e de ver além. Esse detalhe nos remete novamente a James Bond, cujo status de super-homem é reforçado pelos dispositivos tecnológicos que utiliza, posicionando-o como superior aos demais agentes secretos.

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Para consolidar sua figura heroica, Guilherme compartilha raízes com seu antagonista: Bernardo Gui, o inquisidor que chega ao monastério por ordem do Papa de Avignon. Como um romance histórico, a trama nos conduz por eventos verossímeis, como os conflitos entre grupos religiosos e o contexto real do imperador Ludovico IV.

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Diferentemente de Guilherme, Bernardo Gui jamais se preocupou em encontrar os verdadeiros culpados; seu único objetivo é semear o pavor e abusar do poder, condenando os acusados à fogueira. A conexão profunda entre ambos reside no fato de que Guilherme também já foi inquisidor no passado, decidindo abandonar o cargo justamente por possuir uma postura contrária a qualquer tipo de extremismo.

Se o romance histórico bebe da fonte de I promessi sposi (Os noivos), de Alessandro Manzoni, o formato de suspense foi profundamente influenciado pelo modelo de Leonardo Sciascia em Todo Modo. Sciascia foi um dos primeiros a denunciar as atrocidades e a impunidade da máfia italiana através de tramas alegóricas, utilizando o thriller para tais denúncias. Em sua obra, o ambiente também é isolado: um hotel-eremo gerido pelo enigmático Dom Gaetano, onde políticos e religiosos se reúnem para retiros espirituais que ocultam seus verdadeiros desejos.

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Essa semelhança não é meramente estética, mas reflete uma visão crítica sobre o poder: em ambas as obras, o ambiente religioso funciona como espelho de uma sociedade corrompida. Enquanto Guilherme enfrenta um sistema que sacrifica a verdade pelo controle do conhecimento, o protagonista de Sciascia caminha por uma Itália dos anos 70 tão entranhada em corrupção que a resolução do caso na trama se torna impossível. No fim, a investigação não restaura a ordem. Portanto, o romance de Eco também pode ser lido como uma alegoria e crítica à Itália dos anos 70, assim como fez Sciascia.

Na próxima edição, falaremos sobre a escolha do romance histórico e como este se diferencia de Manzoni em I promessi sposi. Convido vocês, queridos leitores, a realizarem a leitura de O nome da rosa junto com essas edições e adoraria trocar impressões através do e-mail beatricedummer@gmail.com.

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Carina Weber

Carina Hörbe Weber, de 37 anos, é natural de Cachoeira do Sul. É formada em Jornalismo pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e mestre em Desenvolvimento Regional pela mesma instituição. Iniciou carreira profissional em Cachoeira do Sul com experiência em assessoria de comunicação em um clube da cidade e na produção e apresentação de programas em emissora de rádio local, durante a graduação. Após formada, se dedicou à Academia por dois anos em curso de Mestrado como bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Teve a oportunidade de exercitar a docência em estágio proporcionado pelo curso. Após a conclusão do Mestrado retornou ao mercado de trabalho. Por dez anos atuou como assessora de comunicação em uma organização sindical. No ofício desempenhou várias funções, dentre elas: produção de textos, apresentação e produção de programa de rádio, produção de textos e alimentação de conteúdo de site institucional, protocolos e comunicação interna. Há dois anos trabalha como repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações, tendo a oportunidade de produzir e apresentar programa em vídeo diário.

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