Caminhar por Santa Cruz do Sul com pressa é um pecado urbanístico. Quem anda olhando apenas para o relógio ou para o celular corre o risco de perder o melhor da festa: os detalhes que o tempo esqueceu de apagar. Basta um olhar mais generoso para cima e lá estão elas – as aberturas trabalhadas, os telhados que desenham o céu e as paredes que contam histórias de um desenvolvimento que não precisava de tanto concreto liso e sem alma.
A Catedral São João Batista é, claro, o nosso ponto alto. É o tipo de construção que, a cada visita, parece ter escondido um detalhe novo só para nos testar a atenção. Mas a beleza não vive apenas nos cartões-postais. Ela sobrevive, heroica, por trás de árvores frondosas ou sufocada pelo inevitável emaranhado de fios pretos que insiste em decorar nossos céus modernos. São marcas de uma identidade que resiste, provando que o passado não é um estorvo, mas um diferencial competitivo.
Se esticarmos o passo até Rio Pardo, o choque de realidade é ainda maior. No município vizinho, o conjunto histórico é uma aula viva de como o Rio Grande do Sul foi erguido. E, ao contrário do que reza a lenda do “progresso a qualquer custo”, prédio velho não é sinônimo de problema. É oportunidade. E a Cidade Histórica tem esse diferencial de todos os demais municípios, com um patrimônio arquitetônico como existe em poucos lugares em nosso País.
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O exemplo do Solar dos Panatieri, de 1798, agora convertido no restaurante Seu Domingos, mostra que é possível servir gastronomia e história na mesma mesa. A restauração feita por empresários locais não apenas salvou uma estrutura bicentenária, mas devolveu à cidade um ponto de encontro. É a prova de que o patrimônio pode – e deve – ser sustentável.
Aqui no Centro, o prédio do antigo Fórum aguarda sua vez de voltar a brilhar. Depois de serem cogitados alguns planos, que nunca saíram das boas intenções, nessa quinta-feira tivemos um passo mais concreto com o anúncio do projeto de implantação do Museu do Tabaco. Agora é esperar que saia do papel para transformar aquele silêncio de anos em um atrativo turístico e de conhecimento.
É claro que manter essas joias não é barato. A manutenção dói no bolso e, por isso, o poder público precisa entrar no jogo com inteligência. Políticas de incentivo, descontos no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e leis de captação de recursos são o combustível necessário para que o proprietário não veja o patrimônio como um fardo, mas como um troféu.
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Preservar a nossa arquitetura é, no fim das contas, um ato de humanidade. É o que nos separa de sermos apenas mais uma “selva de pedras” composta por caixas retangulares e sem rosto. Apoiar a manutenção da nossa história é garantir que a cidade continue tendo uma alma para chamar de sua. Afinal, uma cidade sem memória é como uma casa sem espelhos: a gente até vive nela, mas acaba esquecendo quem realmente é.
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