Ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-senador, Pedro Simon é um dos nomes históricos do MDB | Foto: Romar Beling
A cena política nacional tem decanos inquestionáveis, que pairam como ícones para sucessivas gerações: o ex-presidente José Sarney, maranhense de 96 anos completados em 24 de abril; o igualmente ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, carioca de 94 anos (completa 95 em 18 de junho); e um ilustre gaúcho, Pedro Jorge Simon, que, da altura de seus 96 anos, completados em 31 de janeiro, testemunha há quase oito décadas a rotina pública no Estado e no País.
Orador influente e respeitado, Simon hoje curte o ambiente familiar ao lado da esposa Ivete Fülber Simon, na Avenida Protásio Alves, limite entre os bairros Rio Branco e Petrópolis, em Porto Alegre. Ali, o político recebeu a Gazeta do Sul em uma tarde de terça-feira de meados de abril para conversar sobre sua trajetória política e, claro, para que fizesse uma leitura da realidade contemporânea.
Autoridade para tanto jamais lhe faltaria. Foi senador em dois períodos, o primeiro entre 1979 e 1987, ainda no regime militar, quando esteve diretamente envolvido no esforço pela reabertura democrática, ao lado de expoentes como Ulysses Guimarães; e o segundo entre 1991 e 2015. No meio tempo, foi o 30o governador do Rio Grande do Sul, entre 1987 e 1990, e, ainda antes, ministro da Agricultura entre 1985 e 1986, no governo de Sarney, que assumira no lugar do presidente eleito Tancredo Neves, que faleceu antes de tomar posse.
Publicidade
LEIA TAMBÉM: ACI inicia série de encontros com pré-candidatos ao Palácio Piratini
Em sua caminhada, uma legenda paira inconteste: a do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), do qual é um nome histórico. A entrevista, aliás, ocorreu poucos dias depois de o MDB ter comemorado 60 anos desde a fundação original, em 24 de março de 1966, para congregar a oposição no bipartidarismo implementado pelo Ato Institucional no 2, em 1965. E lá estava Simon nas fileiras do grupo que faria frente, com coragem, à Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido da direita, do poder. Na oposição, começava a dura e complicada luta pelo restabelecimento da democracia.
Mas Simon, então aos 36 anos, já estava na política desde antes, pois, no movimento estudantil, fundara a Ala Moça do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), em 1945, com Leonel Brizola, Sereno Chaise e Fernando Ferrari. No PTB teve um companheiro santa-cruzense, o deputado estadual Siegfried Heuser (1919-1986), que sempre elogia.
Publicidade
A ligação de Simon com Santa Cruz envolve outra situação: o julgamento de Floriano Peixoto Karan Menezes (o Marechal) pelo assassinato do deputado estadual Euclydes Nicolau Kliemann, em 31 de agosto de 1963. No júri em que ele seria julgado pelo homicídio, no dia 2 de maio de 1965, num ginásio do Corinthians Sport Club completamente lotado, Simon, jovem advogado natural de Caxias do Sul, já também deputado estadual, atuou na defesa de Karan Menezes,e obteve sua absolvição. Marechal acabou sendo condenado em um segundo julgamento, em 1965. A esposa de Kliemann, Margit, também fora assassinada, um ano antes do marido. Ficaram as três filhas do casal, órfãs, Suzana, Virgínia e Cristina.
LEIA TAMBÉM: Luciano Zucco é o primeiro pré-candidato ao governo do Estado a participar da série Diálogos ACI
O vínculo do político com Santa Cruz chega ao terreno afetivo. Ele é casado desde 1987 com Ivete, filha do santa-cruzense Geraldo Fülber, que deixou a terra natal ainda solteiro e migrou para a região de Capanema, no Paraná. Ali conheceu Dalcila, natural de Três Passos, e com ela casou, vindo a ser os pais da futura companheira do político. Pedro e Ivete estão juntos há 38 anos; uniram-se quando ela tinha 26 e ele 59, recém tendo assumido como governador gaúcho. Têm o filho Pedro Simon Filho, 31 anos, advogado como o pai, e casado com Luiza Thudium, promotora em São Paulo. De casamento anterior, Pedro tem o filho Tiago, deputado estadual, que é casado com Miriam e tem a filha Isabela. A primeira esposa de Simon, Tânia, faleceu em 1985, e eles ainda tiveram outros dois filhos, Tomaz e Mateus, ambos falecidos.
Publicidade
Na entrevista exclusiva, Pedro Simon repassa os diferentes momentos de sua vida, e adverte que o Brasil agora enfrenta uma séria encruzilhada em sua democracia.
LEIA TAMBÉM: Assembleia Legislativa aprova aumento de 5,35% no piso regional do Rio Grande do Sul
Pedro Simon – O interessante é ver as circunstâncias em que o PMDB foi criado. Uma época dolorosa, dramática, em que se estabeleceu um regime de terror, que foi a ditadura. Foi um período difícil, amargo, em que um grupo se aproveitou das circunstâncias anárquicas do Brasil e tomou o poder. Abusaram e abusaram; muita gente sofreu, muita gente foi torturada, muita gente morreu.
Publicidade
O PMDB nasceu em meio a essa circunstância, em meio a esse drama difícil. O partido surgiu com um grupo que estava fazendo política, e que de repente se juntou, em meio à ditadura. Que durou, e de certa forma está durando.
A direita se organizou na chamada Arena. E nós, do PMDB, nos transformamos em lutadores pelo reestabelecimento da democracia.
Sim, nós já estávamos participando da política; pertencemos ao antigo PMDB. Aliás, antes do PMDB, eu era do PTB, o Partido Trabalhista Brasileiro. O pessoal da Arena também se formava de uma junção de partidos, que se uniram e estabeleceram a Arena. Eram Arena e MDB, o partido do governo e o partido da oposição.
Publicidade
O partido da oposição era oposição sem direito de ser governo. Porque as regras democráticas não existiam, e essa turma que estava no poder longe estava de querer fazer uma democracia. Pelo contrário: queria ficar dominando, e dominaram esses anos todos. Foi um período muito complicado.
O MDB ali era um partido de luta, de resistência, mas sem história, sem força, sem atuação, sem poder de ir adiante. Começamos do zero. E nesse período aconteceu de tudo. Eles prenderam, promoveram tortura, violência, arbítrio. A imprensa era deles, a força era deles, os ministérios estavam lá para fazer o que eles queriam, tudo já estava determinado.
Começamos devagarinho, resistindo. Eu era líder do antigo MDB, e fiquei líder no novo MDB. Tivemos um grande nome de Santa Cruz, o Siegfried Heuser. Tivemos jovens que lutaram, debateram, resistiram, mas não tínhamos chance de chegar ao poder. Porque quem mandava era a Arena, nomeava um, determinava uma data, nomeava outro… E era nomeação, não era eleição. Faziam brutalmente o que queriam e o que não queriam.
Nós resistimos, e resistimos com dignidade, com seriedade. Por eles, isso teria durado uma vida inteira. E nós fomos crescendo, dando forma. Porque, na medida em que o governo é antidemocrático, ele não melhora, ele fica cada vez pior. Prenderam, a tortura apareceu, tivemos pessoas torturadas ao extremo. Tivemos cassações de mandato, prisões, o que podia ser imaginado num regime que transformou o Brasil num país dolorido, sofrido, machucado.
E nós na oposição, lutando, sem expectativa de como ia ser, do que nos esperava. Cassaram deputados, vereadores, prefeitos, gente que perdia os direitos políticos, ficava atirada em prisões cheias de pessoas. E os jovens começaram a se apaixonar, a entrar na luta.
Eu era dirigente do MDB. Éramos o [Siegfried] Heuser e eu. O Heuser foi cassado. E não tinha razão nenhuma, era um homem digno, correto, decente. Era um baita cidadão. E fiquei eu, resistindo. Fiquei eu resistindo. As pessoas devem ter acompanhado de algum modo o que aconteceu. Não precisa nem repetir. Foi um drama, o Brasil viveu na margem, viveu na sarjeta. A imprensa era deles, cassavam quando queriam cassar, prendiam quando queriam, matavam quando queriam matar, e nós resistíamos.
Sim, eu me elegi senador contra o arbítrio, em 1979. Foi uma reação fantástica. No meio daquela pressão, daquela coação, daquela montanha, contra tudo, tudo, ganhamos. O MDB ganhou espetacularmente, e eu me elegi senador. Essa é uma história bonita, por causa disso: que era o tudo contra o nada. Havia Exército, Marinha, Aeronáutica, cadeia, prisão, tortura, nomeação, demissão, era um regime de terror. E nós, nós, sem nada.
Aquela campanha que eu ganhei foi uma coisa… (emociona-se) Não dá pra explicar o que houve. A dor, a tristeza, os machucados, a falta de expectativa de para onde vai, nos deu um sabor muito especial. Nós, do MDB, nos identificamos com o povo. Ser Arena era ser governo, ser poder; era ter cargo, emprego, verba, era ter tudo. E, no entanto, nós conseguimos. Foi uma coisa bonita. Porque não apelamos para luta armada, porque nós, do MDB, sentíamos que se apelássemos para esse lado, teríamos perdido, não tínhamos força, não resistiríamos. Os canhões e os generais estavam do outro lado. Não apelamos para radicalização, e sim para as ideias, no sentido de reconquistar o direito, o amor à pátria e à liberdade. Até existia alguma tentativa de enfrentamento armado, em outras frentes, mas isso não no MDB.
Isso você disse muito bem. Isso pegou. A diferença era tão grande. Nós éramos tão machucados, tão pisados. E a nossa resistência era democrática, era livre, era aberta. Nós tínhamos um futuro. Os caras não matavam a gente só porque não queriam, pois poder para isso eles tinham. E isso o povo entendeu. E até muita gente deles recuou, e se deu conta de que o estilo que eles queriam não dava. Quando estourou realmente, foi uma espécie de… estouro da boiada.
O Rio Grande foi uma liderança nesse processo. Em primeiro lugar, porque o Rio Grande do Sul é o Rio Grande do Sul. A tradição de liberdade, de democracia, de amor, de justiça social, sempre se teve no Rio Grande do Sul. Não só os nossos; o Brizola, o João Goulart, o Getúlio, o Pasqualini, o Ferrari. Tantos nomes. Na linha democrática tinha gente de respeito. E até algumas pessoas do lado deles. O Raul Pilla é um homem fantástico. Nunca se identificou com aquela ditadura.
Então, vivemos esse embate. E de repente estourou… A democracia esteve por um fio. E no meio daquela dramaticidade, de repente, quando parecia que a ditadura tinha tomado conta, nós, o MDB, em meio àquela confusão, lançamos a campanha da Constituinte. Quer dizer, o Congresso estava fechado. Houve uma grande discussão: “vamos criar um Congresso novo”.
E a tese foi aceita: convocação da Assembleia Nacional Constituinte, para elaborar uma nova Constituição. E, na convocação da Assembleia Geral, o MDB teve prioridade no debate, na discussão.
E aí aconteceu uma coisa fantástica. Naquela eleição, o MDB teve ampla maioria na Assembleia Nacional Constituinte. O Brasil parecia uma democracia. Para lá e para cá, o Congresso debatendo, discutindo. As forças trazendo propostas. Parecia que o Brasil era um país da democracia e da liberdade.
E houve ainda a eleição para governadores. Nós elegemos todos os governadores, a não ser em Alagoas, que foi o Collor. O resto, elegemos todos.
De fato, uma Constituição que vale até hoje. Foi aberta, democrática, com liberdade, com garantia. Uma bela Constituição, do regime democrático. E essa Constituição que fizemos foi aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte. As eleições se reestabeleceram. E o Congresso funciona. Claro que tem a radicalização da antiga Arena, mas a democracia existe. Então, nessa Constituição, na Assembleia Nacional Constituinte, elegemos a maioria no Parlamento. E o Parlamento fez uma Constituição que está ali hoje, respeitada. É interessante dizer que, na votação da Constituinte, o Brasil viveu uma época fantástica de liberdade. O Congresso Nacional, a Câmara dos Deputados, lotava de gente que ia e vinha, debatia, discutia. É uma maravilha a democracia. E atravessamos essa fase.
Vieram a Constituinte, a nova Constituição, a democracia, as eleições. E aí… começou de novo a piorar: a se discutir o sentido disso e o que vamos fazer. Aí começaram a radicalizar. Começaram a dificultar, a complicar, obrigaram os partidos a mudar de nome… Na verdade, eles não queriam entregar o poder. E nós estamos nessa situação. O Brasil ficou na obrigação de restabelecer a democracia, mas nós estamos hoje nessa discussão…
Estamos nesse período de hoje. Não se sabe o que fazer. Se antes se tinha o MDB e a Arena, hoje tem partidos que não acabam mais. Nós somos o MDB. E é interessante que eles fazem de tudo para esconder o MDB. São uns 30 partidos. Cada um para um lado. E tem a eleição para eleger o Congresso. Agora, não é mais uma Arena, nem Arena tem. É PSD, PFL, é partido disso…
E no meio tem o MDB. Então, não se sabe o que vai acontecer, não se sabe para onde é que nós vamos. A verdade é que estamos numa eleição sem caldo de cultura para saber o que a gente quer. Nós, do MDB, estamos no debate. Estamos sendo atacados por 30 partidos. Eu defendo a tese de que precisamos ter muito cuidado. Muito cuidado. Para que nessa camaçada de confusão que está havendo aí, não se embarque em uma coisa pior.
O Brasil tem um encontro marcado com o seu destino. Na hora que a gente fez, fez. Fez a Assembleia Nacional Constituinte aberta, livre, democrática. Só que agora é um pandemônio. Infelizmente, não dá para cobrar do brasileiro em quem ele vai votar, porque é uma confusão.
Nós mesmos, do MDB, temos uma interrogação. Achávamos que, se fizesse dessa eleição um bloco geral para buscar um destino, seria positivo. Mas eles não querem. Eles não querem porque sabem que o destino deles não tem chance. Eles não têm chance: se abrir as portas e tiver liberdade para falar, o que nós temos que discutir é tão importante que eles não sabem o que fazer. Então, tem ali partido A, B, C, D, querendo dar sua opinião; candidato à presidência da República tem um, dois, três, quatro, cinco, e eles não sabem bem o que fazer.
Nessa campanha agora não. Porque está tudo misturado. É uma anarquia; quem é o candidato e quem não é o candidato, dois, três candidatos, é uma confusão. Virou uma anarquia geral. Eu até não sei o que eles vão fazer.
Não dá para dizer. Em outros tempos, a gente tinha o Heuser, que era o grande chefe. Tivemos o doutor Ulysses, um homem de bem, sério, correto, decente. Tivemos grandes nomes. Também estive lá. Já tivemos o Covas, o Montoro, o Arraes. Mas a ditadura fechou eles, o poder em si não queria isso, e, na verdade, não queria nem abrir.
Agora está essa eleição cheia de partidinhos. A eleição até é democrática, todo mundo pode falar, todo mundo pode discutir, mas não tem caldo de cultura algum, não tem nada. Não se espera nada, nem o que é, nem o que não é. Então, não sei.
O debate, sim. Tem gente: nós estamos preparados. Essa minoria, que tem força, é que impede de fazer as coisas. E lá, pela frente, eles vêm com a ameaça: “vamos fechar tudo!”. Então, é um regime de terror o que está acontecendo. O Brasil está vivendo uma época dramática. Pelo amor de Deus! E o nosso Supremo… Eu não sei nem o que dizer. Há ministro do Supremo que devia estar até na cadeia.
Isso conduz para não sei onde. O que se fala de corrupção no meio da elite não dá, não dá. O que é que vão querer? Nessa elite intelectual, na área superior, tem gente que… é muito triste.
Quando se fala em saída, eles já falam em fechar tudo. Então, digo que simplesmente não sei. Está todo mundo olhando para o Supremo. Olhando para o ministro tal, para o fulano, olhando se aquilo que tem com relação a fulano vai vir ou não vai vir à tona…
Votar eu pretendo. Porque, seja o que for, vou cumprir a cidadania, não tem nenhuma dúvida nisso. E vamos debater. Agora, sabe que eu assumo a interrogação. O homem que era lá responsável pelo negócio do banco especificava que ele ia contar as coisas. De repente, ele adiou. De repente, ele está pedindo prazo. De repente, não se sabe…
Não se sabe o que vai ser. O que vai ser do Supremo? O que vai ser das procuradorias? O que vai ser do nosso Brasil? E temos uma eleição no meio dessa confusão. No meio dessa dramaticidade, vamos escolher o presidente. Meu Deus do céu!
Olha, eu estou aqui, com 96 anos de idade, em minha cadeira, mas estou cumprindo a minha missão. Achando que o grupo da resistência, o grupo dos que defendem e querem o bem é tão positivo no Brasil que ele não se entrega. Na época nós éramos o MDB, não éramos quase nada. E nós resistimos. Na época, a ditadura era tudo. Meu Deus! E nós resistimos.
No meio dessa confusão toda, fizemos uma bela Assembleia Nacional Constituinte. E elegemos todos os governadores, menos o de Alagoas, e elegemos um Congresso Nacional e fizemos uma Assembleia Nacional Constituinte convocada, e foi feita uma Constituição de primeiro mundo. No meio de toda aquela confusão, de toda aquela briga, sem poder, nós, do velho MDB, e a sua gente, no meio de pessoas que não eram MDB, mas queriam a mesma coisa, resistimos.
Na hora mais difícil, estivemos presentes. Na hora mais dura, mais radical, em que eles prenderam, mataram, fizeram de tudo, nós resistimos. Não vai ser agora. Agora é anarquia. Esculhambaram o Congresso Nacional, esculhambaram o Supremo. É um regime de terror. Não é desse jeito que nós vamos chegar lá.
No mundo internacional, estamos vivendo uma época em que (risos). Em primeiro lugar, esse presidente americano não existe, é uma coisa que me nego a reconhecer. Como uma nação americana, querida, democrática, reconhecida, tem um homem que nem esse? Como é que os caras que fizeram a beleza daquele país veem um cara dizendo as bobagens que esse cara diz? “Vou prender”, “Vou lá e acabo com a vida dele”. Mas o que é isso? Isso está acontecendo! Por isso aqui no Brasil é essa confusão, porque, olhando para o lado, não tem ninguém a nos cobrar.
Modéstia à parte, nós, o velho MDB, nós que estamos nessa parte desde 1964,cá entre nós, vamos tirar o chapéu: a linha de respeito, de credibilidade, de confiabilidade. Repito: quando, lá na convocação da Constituinte, ganhamos a Constituinte, elegemos uma linha do MDB, elegemos a Constituinte, elegemos o Congresso Nacional, fizemos a Assembleia Nacional Constituinte, fizemos uma nova Constituição, e estivemos ali.
Eu creio, sim. Olha, repara você (visivelmente emocionado, com voz embargada)… Eu tenho 96 anos. Nós começamos lá atrás. O Brasil é um belo país. Vivíamos grandes momentos. De repente, não sei, eu não sei o que aconteceu. Explodiu tudo. Explodiu. E nós estamos agora nessa confusão. A gente já não sabe hoje o que vai ser amanhã, para onde é que nós vamos.
Eu, com meus 96 anos, já mal consigo levantar as mãos, mal me levantar de pé, porque estou de cadeira de rodas. Mas estou resistindo. O nosso partido está resistindo. Não é só o nosso partido; é a gente, o povo, essa organização que está se formando, esses estudantes que estão aí, que estão com uma nova ideia de liberdade.
A sociedade brasileira hoje tem força real. Tem esses jovens que estão debatendo, discutindo, estão falando e participando. Nós estamos, no meio dessa cultura, dessa anarquia, dessa coisa toda, vendo a formação de um Brasil, o que esse país vai ser. E eu tenho certeza de que nós vamos vencer isso.
Vamos ser um baita país. Vamos ser um país da liberdade, da democracia, do respeito, do amor. Um país onde temos uma agricultura fértil, progresso, desenvolvimento. Não é um país para ter fome, nem para ter miséria. O Brasil vai ter um destino espetacular. Eu vejo meus filhos e digo: eu confio no nosso Brasil.
Até os filhos desses generais, dessa gente que está aí, quem não se meteu, quem não se misturou nessa coisa nojenta, quem está resistindo de um lado e do outro, volta e meia me procuram. Me procura um filho de general, me procura um filho de doutor. Nós estamos assim, temos o vento, temos o ar, um sentimento que cresce, que cresce. E, se Deus quiser, nós vamos chegar lá.
Eu acho que sim. O Rio Grande viveu esse drama todo, mas nós estamos saindo disso. E tem uma coisa positiva. Nós não temos uma oposição contra o Rio Grande do Sul. Não, não tem que deixar de olhar para o Rio Grande do Sul. A nossa oposição é de amor, de paz, de crescimento.
Quer dizer, para nós, quanto mais crescer, melhor. Então, hoje não tem ninguém querendo… A não ser esses que querem criar um esquema de ditadura. Mas esses são a minoria; temos o povo, a gente, os velhos partidos. A gente respira o ambiente da liberdade e, se Deus quiser, podemos nos dar as mãos e fazer um grande Rio Grande.
Pela nossa experiência, o Brasil todo lutou, o Brasil todo viveu, mas, de fato, acho que não existe nenhum outro Estado que nem o Rio Grande do Sul.
O Rio Grande é o Rio Grande. A nossa história de amor, a liberdade, a justiça, a nossa tradição, nossa história, ela é uma história emocionante. Ser brasileiro é bacana, mas ser brasileiro e gaúcho é formidável, porque aí são as duas coisas juntas, o Brasil, o nosso Brasil e o nosso querido Rio Grande.
E nesse Rio Grande, eu tenho certeza de que nessa confusão que vai ter, nessas eleições, nessa trapalhada toda, nós vamos encontrar uma saída. Sinceramente, vamos encontrar uma saída. Eu confio nisso.
Eu de fato fiquei com uma história com Santa Cruz. Porque o drama que vivemos lá, na questão do caso Kliemann, e a minha participação nisso, foi muito significativo. Aquele povo sofreu muito. Eu me lembro daquele ginásio do Corinthians, com a sua capacidade esgotada. Aquele povo que não vibrou nas coisas alegres, nem chorou nas coisas tristes, mas se sentia que ali era gente que estava sofrendo. E aquilo não era Santa Cruz. Aquilo é um capítulo à parte.
Santa Cruz foi ensinar a mim aquela coisa de ser aplaudido. Quando as filhas do Kliemann chegaram me falando e cumprimentando… O ambiente que a gente viveu foi de muito respeito. Eu tinha muito carinho pelo Kliemann. Achei que ele sofreu um drama cruel, realmente.
Mas o povo de Santa Cruz viveu uma página épica. Ali, naquele final, se abraçando, rindo, chorando… Viveram uma página magnífica, que ficará para o resto da vida na história de Santa Cruz. Ali, as filhinhas dele falando com doçura. Eu vou ser muito sincero: eu vivi e sofri muito. Sofri algo que vai me acompanhar para sempre. Mas, graças a Deus, terminou, e eu me abracei com os dois lados, dizendo: “Se Deus quiser, a vida vai recomeçar”.
Muito, muito. Tenho muita amizade com Santa Cruz. Tive amizade muito forte com o Heuser, e também com toda a nossa equipe do PTB, depois do MDB. Com muita solidariedade, com muito sofrimento. E eu acho que Santa Cruz transformou o drama numa página histórica de amor, de concórdia e de entendimento.
LEIA MAIS NOTÍCIAS DE POLÍTICA
QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!
This website uses cookies.