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O peso da coroa

Eu me lembro do peso da coroa. Lembro da energia das torcidas antes de entrar para o desfile. Uma espécie de eletricidade coletiva percorrendo o Poliesportivo. Por alguns segundos, parecia que a esperança tinha aprendido a fazer barulho. Há 13 anos, eu viveria uma sequência de meses tão bonitos que, durante muito tempo, tive medo de admitir em voz alta: e se esse for o melhor momento da minha vida? A gente pensa essas coisas quando é jovem.

Olhando de fora, a memória costuma devolver apenas brilho. Os cristais Swarovski refletindo as luzes, o veludo bordado, a saia armada ocupando espaço suficiente para transformar qualquer corredor comum em cenário. Mas eu me lembro do peso. Não era desconfortável. Era outra coisa. Era a sensação de carregar na cabeça algo que, até pouco tempo antes, parecia existir apenas no território das meninas que recortam sonhos. Porque existe uma idade em que a gente acredita profundamente em princesas, num tipo raro de encanto que faz parecer possível atravessar a vida inteira em estado de contemplação. E durante um tempo, eu vivi dentro dessa espécie de feitiço.

Mas os contos de fadas raramente contam o que acontece depois do “felizes para sempre”. Hoje penso que aquela fase foi uma espécie de ponte. O lugar exato onde a menina terminou de arrumar as malas e a mulher começou a chegar. Acho que crescer tem disso, descobrir que os sonhos mudam de roupa. Aos 22, eu imaginava que a magia morava nos grandes acontecimentos. Nas coroas, nos vestidos, nas luzes, nos momentos que parecem feitos para caber em fotografia. Mas o tempo faz um trabalho silencioso. Ele pega os encantos mais barulhentos da vida e os transforma em pequenas permanências.

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Porque a menina que vestiu a coroa achava que o extraordinário era viver um conto de fadas. A mulher descobriu que extraordinário mesmo é perceber, anos depois, que algumas magias continuam existindo quando a música para. Hoje, olhando para trás, penso que o que ficou não foi a faixa cuidadosamente guardada na gaveta, nem os vestidos, nem os cristais. O que ficou foram as pessoas. Os encontros improváveis. As viagens antes do amanhecer, quando a cidade ainda dormia e o dia começava cedo demais. As madrugadas em que eu acordava para mais uma divulgação, carregando sono e entusiasmo na mesma medida. A descoberta bonita de que existem momentos que passam, mas encontram um jeito teimoso de permanecer. De que certas fases da vida não acabam quando terminam, só mudam de endereço.

Hoje, ao pensar nas dez meninas que entrarão no Arnão na noite deste domingo, confesso que uma parte de mim também entra numa espécie de reconhecimento silencioso. Como quem encontra uma fotografia antiga e sorri ao perceber que continua enxergando a mesma magia daquela época. Por isso, se eu pudesse dizer alguma coisa a essas meninas, não falaria sobre ganhar. Nem sobre faixa, coroa ou resultado. Diria para prestarem atenção no barulho das torcidas, na respiração presa segundos antes de entrar, nos abraços apertados e naquela sensação rara de estar vivendo algo grande demais para caber dentro do peito. Porque alguns sonhos não chegam para durar, chegam para inaugurar versões novas da gente. E, olhando hoje, penso que talvez aquele não tenha sido, exatamente, o melhor momento da minha vida, mas o primeiro instante em que aprendi que amadurecer não precisa significar abandonar a magia.

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Marcio Souza

Jornalista, formado pela Unisinos, com MBA em Marketing, Estratégia e Inovação, pela Uninter. Completo, em 31 de dezembro de 2023, 27 anos de comunicação em rádio, jornal, revista, internet, TV e assessoria de comunicação.

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