Cultura e Lazer

“O problema hoje está em saber quanto ainda é produto natural”, diz René Gertz em entrevista à Gazeta

Dia 25 de julho: a data remete ao início da colonização alemã, com a chegada das primeiras famílias à atual São Leopoldo. E foi ali que um dos principais estudiosos da imigração europeia em realidade gaúcha, René Ernaini Gertz, fez parcela de sua formação, ocupando-se de temas diretamente associados ao ambiente colonial. Em sua caminhada, tornou-se um dos mais respeitados historiadores e professores brasileiros, vinculado à Pontifícia Universidade Católica (PUCRS) e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Ao longo de décadas, inspirou gerações de estudantes.

A Trajetória de um professor-colono, Oikos, 2020

Todo esse percurso iniciou-se justamente em espaço forjado pela imigração. Gertz nasceu em Machado, interior de Santa Rosa, no Noroeste gaúcho, que hoje corresponde ao município de Novo Machado, à margem do Rio Uruguai. Nessa nova área colonial ele veio ao mundo em 10 de fevereiro de 1949, em um contexto no qual conviviam famílias de várias origens étnicas, de perto e de longe.

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Licenciado em História pela Unisinos, com mestrado em Ciência Política pela Ufrgs e doutorado pela Universidade Livre de Berlim, é autor de livros essenciais, como O aviador e o carroceiro: política, etnia e religião no Rio Grande do Sul dos anos 1920, bem como de obras que investigam o período das guerras do século XX, como O perigo alemão. Mas foi em A trajetória de um professor-colono, de 2020, que refletiu a fundo sobre o que a colônia mais fortemente imprimiu em seu imaginário enquanto legado, como ele, aos 77 anos, conta em entrevista exclusiva à Gazeta do Sul, concedida por e-mail.

Entrevista com René Ernaini Gertz; professor, historiador e escritor

Gazeta do Sul – Chegamos a 25 de julho, Dia do Colono e do Motorista. O senhor tem livro cujo título é A trajetória de um professor-colono, o que sugere que essa expressão faz parte da identidade do autor. O que a expressão professor-colono inspira no senhor?

René E. Gertz – Para iniciar, devo agradecer pelo novo convite para falar à Gazeta do Sul. Em julho de 2023, nossa conversa esteve focada nos festejos do bicentenário da imigração e colonização alemã, festejos então previstos para 2024, que não aconteceram nas dimensões imaginadas, em função
dos conhecidos eventos climáticos. Agora, o interesse está afunilado sobre meu livro autobiográfico A trajetória de um professor-colono. Talvez se volte ao tema para referir outros detalhes, mas destaco
que a palavra “colono” foi colocada no título do livro para acentuar dois aspectos: a) minhas origens familiares em um processo de imigração, e, sobretudo, b) num consequente contexto social que me marcou de forma profunda, que influenciou minhas condutas de vida, minha lebensführung.

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Gertz lançou “A trajetória de um professor-colono”

Por que foi tão importante mencionar não apenas que é professor, mas professor-colono? O que o senhor busca salientar?

Quando, como professor universitário, fui pela primeira vez a um congresso de historiadores (lá nos anos 1980), foi feito convite aos congressistas para jantar, no espaço reservado de um restaurante. Me dirigi ao local, e sentei junto a colegas que conhecia. Quando saí e passei no caixa para pagar, levei um enorme susto, pelo valor que me foi cobrado. Ponderei que só havia consumido a comida e bebido um refrigerante, que aquilo não podia custar tanto assim. O caixa me explicou que quando chegou o primeiro grupo os garçons perguntaram se deveriam abrir uma comanda individual para cada um, mas receberam a resposta de que tudo deveria ser debitado numa comanda única, coletiva. Como teriam sido consumidas muitas doses de uísque de 18 anos, mais muitas garrafas de vinho com valor equivalente a centenas de reais, o montante rateado entre todos resultara naquilo que estava sendo cobrado de mim.

Nessa ocasião, me dei conta das origens sociais de muitos professores universitários brasileiros, da época – sobretudo os de universidades públicas. No mínimo, parte não desprezível deles provinha de estratos sociais que ficavam alguns degraus acima do meu. Esse é um dos motivos pelos quais fiz questão de me identificar como “professor-colono”, na verdade, me senti “coloninho”.

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Ampliando um pouco a reflexão, colono é, a um tempo, substantivo e adjetivo. Hoje se pode dizer que, em ambos os casos, há orgulho envolvido em se dizer assim?

“Colono”, como substantivo, em princípio, significa trabalhador na agricultura – lembro que os imigrantes vindos para as fazendas de café em São Paulo, no século XIX, eram tratados como tais. No Rio Grande do Sul, penso que houve uma pequena mudança de significado, pois aqui – ao menos como tendência –, quando alguém usa a palavra, refere-se a um proprietário de pequeno lote de terra, já que grandes proprietários são chamados de “estancieiros” ou “fazendeiros”. Como a pequena propriedade foi típica nas regiões em que se estabeleceram imigrantes e descendentes de alemães, italianos e poloneses (principalmente estes três), a palavra, muitas vezes, também envolve a ideia de pequeno proprietário
de descendência “estrangeira”.

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Já o adjetivo “colono”, historicamente, tendia a possuir clara conotação pejorativa. Classificar alguém como “colono” costumava ser a mesma coisa que chamá-lo de “grosso”, “ignorante”, “tosco”. Minha memória registra que somente na década de 1980 o antropólogo Sérgio Teixeira publicou um pequeno livro chamado O recado das festas, no qual afirmava que a situação estava mudando, pois a vida e o trabalho rurais estavam recebendo uma avaliação mais condescendente, nas manifestações em festas e comemorações.

Não tenho estudos próprios a respeito, mas arrisco palpitar que o estresse da vida urbana tenha levado muita gente a mudar de ideia sobre a vida rural – a valorização do turismo rural, da “produção familiar” de alimentos (suposta ou efetivamente sem agrotóxicos) e outros fatores podem estar na raiz dessa tendência. Claro, os velhos fantasmas não desapareceram de todo e afloram com alguma frequência.

O pequeno René, em foto junto aos seus pais

O senhor nasceu em 1949, no Noroeste gaúcho, nas “novas colônias”. Em que medida, mais de um século depois da colônia de São Leopoldo (ou exato um século após a de Santa Cruz), esses novos núcleos seguiam tão desafiadores como os primeiros?

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Em algum sentido, as colônias novas “pioraram” a situação, pois os lotes de terra foram diminuindo; se no início vigorava um padrão de 75 hectares, em muitas colônias fundadas nas regiões mais interioranas do estado, já no século XX, as parcelas eram de apenas “meia colônia” (12,5 hectares).

De “positivo”, às vezes, já havia alguma infraestrutura material e institucional. Mas, mesmo assim, fico imaginando as condições relatadas por meus avôs, que vieram em torno de 1910 para a colônia Guarani. Comerciantes e colonos se uniam para ir, em vagarosos comboios de carroças puxadas por bois, de lá até Santo Ângelo (50 quilômetros) para despachar sua “produção agrícola” e trazer mercadorias, isso sem lonas de tecido minimamente impermeável e muito menos com coberturas protetivas de plástico, contra a poeira e a chuva.

Sua caminhada de formação o levou para longe da colônia, mas a colônia nunca deixou de estar presente em seu imaginário?

Como aposentado, passo grande parte do tempo no Vale do Taquari. Numa das rádios de Lajeado, fala todos os dias uma jornalista chamada Daniély Schwambach. No final da apresentação de suas matérias, ela invariavelmente se autoidentifica como “Daniély Schuuamba” [sic]. Não consegui identificar seu lugar de nascimento, mas estudou Jornalismo na Univates. Considero hilária essa aparente tentativa de “esconder” sua origem “colona”. Claro, não brigo com o vendedor de passagens na rodoviária, se ele me chama de “Jertis”, mas em meios mais “cultos” corrijo a pronúncia do meu sobrenome. Além disso, não abro mão de comer (com muito gosto) um pão com melado junto com um pepino em conserva.

Hoje, por várias razões (guerras, perseguições), milhões migram a fim de (tentar) recomeçar. Ainda há espaço para acolhimento como na colonização dos séculos 19 e 20?

Os imigrantes que vieram ao Brasil nos séculos XIX e início do XX eram “fugitivos” socioeconômicos ou políticos. Aqueles que vêm no século XXI também o são. Mas hoje não existe um projeto de assentá-los no meio rural, para criar “colônias”. Isso tem como consequência que os resultados das imigrações atuais não darão origem a uma tradição “colonial”, como esta de que estamos tratando nesta conversa.

O que o senhor apontaria como especificidades das colônias do Noroeste gaúcho? Eram formadas por gente de origens muito distintas, não é, que ali recomeçaram?

Tenho defendido a tese de que as colônias do Noroeste do Rio Grande do Sul, onde se localiza “meu povo”, apresentam algumas características distintivas em relação às “velhas colônias”. Basicamente, tenho destacado os pluralismos étnico-nacional e religioso. Mesmo que nas regiões mais antigas tenham
existido colônias “mistas” do ponto de vista religioso, eram relativamente poucas, e a diversidade se restringia a católicos e luteranos. Já na região noroeste a diversidade é muito maior, com variedade expressiva, muitas décadas antes da chegada da atual onda de “igrejas evangélicas”. Mas a diferença também é evidente em relação ao pertencimento étnico-nacional – trata-se tanto de “nacionais”
quanto de originários dos mais diferentes países (afora Alemanha, Itália, Polônia).

Não consigo provar todas as minhas teses, mas cultivo mais uma em relação ao “meu povo”. Nas décadas de 1930/1960, as “colônias antigas” passavam por uma crise de estagnação – antes que alguém fique
brabo comigo, destaco que esse tempo parece ter passado. As “colônias novas” pareciam mais dinâmicas. Minha tese, simplificada, é que se numa família dois irmãos sentiam os mesmos efeitos da crise (como a falta de terra para se estabelecer), o menos “dinâmico”, menos “empreendedor” se deixava ficar, de qualquer jeito; o de maior capacidade de iniciativa dizia que a situação estava ruim, mas não ficaria assim para o restante da vida e migrava. Com isso, acontecia certa “seleção” natural no tipo humano que
ia ocupar as “colônias novas”.

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Em que aspectos do cotidiano as marcas da colônia mais se fazem sentir em família?

Do ponto de vista “negativo”, até hoje não consigo manejar, de forma natural e “correta”, garfo e faca num almoço ou num jantar elegante; só depois de ter cometido muitas gafes, alguém me disse que não se lambe os dedos quando estão engraxados depois de pegar uma comida gordurosa – mas se limpa
num guardanapo. Do ponto de vista “positivo”, eu me criei numa sociedade relativamente igualitária – quase todo mundo tinha 12,5 hectares de terra. As diferenças de posse e de bem-estar decorriam da presença ou ausência de habilidades para administrar essa propriedade, ou, então, de fatores de sorte – pessoas poderiam ser mais pobres porque havia doença na família, ou porque um raio matou, pela terceira vez, as vacas de leite.

Em seu livro de memórias o senhor menciona um núcleo de “santa-cruzer”, grupo oriundo do Vale do Rio Pardo. Que lembranças guarda dessas famílias?

Estas pessoas se estabeleceram num lugar chamado Barra Funda, naquilo que é hoje o município de Novo Machado. Nós não morávamos perto deles, mas tínhamos conhecidos que viviam entre eles, os quais visitávamos com alguma frequência. Minha memória registra duas coisas a seu respeito: minha
mãe dizia que não era totalmente fácil comunicar-se com eles, pois falavam “schwäbisch” (suábio), na verdade “hunsrückisch”. “Meu povo” falava uma língua totalmente desconhecida no Brasil, o “cachúbio” ou “cassúbio”, língua de uma “tribo” muito pequena que habitava o nordeste da Alemanha e parte da Polônia – seu representante mais conhecido é Günter Grass, detentor de um Prêmio Nobel em literatura.

A outra coisa que nos diferenciava dos “santa-cruzer” era o entusiasmo com que festejavam o kerb. Apesar de sermos luteranos – como eles –, esse tipo de festa era totalmente desconhecido entre nós. Como crianças, ficávamos fascinados ao ouvir que a festança deles se estendia por três dias.

Quando o senhor mira o ambiente colonial gaúcho, que maiores legados o senhor entende que ele deixou para a sociedade?

O historiador Mário Maestri considera a fundação das “colônias” no Rio Grande do Sul como o maior projeto de reforma agrária do Brasil. Claro, ele era problemático em sua essência. Os idealizadores não pensaram na “fertilidade” dos imigrantes e de seus descendentes. Meu avô materno chegou a Guarani
em 1913, mas em 1936, 23 anos depois, já se viu forçado a migrar com toda a família, de 12 pessoas, para Machado, pois na região onde morava não havia terra em que os filhos pudessem se estabelecer. Mesmo assim, uma sociedade em que a propriedade está relativamente distribuída marca grande parte do território deste estado

Primeira e Segunda Guerra Mundial, entre outros momentos, alimentaram tensões internas com descendentes de alemães, a ponto de ter se cunhado o termo “perigo alemão”. Isso hoje está mais superado?

Apesar de o sentido da existência de um “perigo alemão” ter mudado – nenhuma pessoa mentalmente normal acredita numa possível invasão alemã ao Brasil, nos dias de hoje –, apesar disso, esse “perigo” está presente nas frequentes manifestações sobre uma suposta ou efetiva “tendência” profunda dos “alemães brasileiros” em serem extremamente racistas e entusiasmados neonazistas. Como esse tema é muito complexo para ser abordado em poucas frases, só posso remeter eventuais interessados a meus livros e outros textos em que trato do assunto. Meu site, na internet, pode ajudar.

O espírito de colônia ainda impera, em alguma medida, ou o novo modelo de exploração do agro, em modo intensivo e empresarial, já não permite pensar em uma organização produtiva como a pioneira?

Penso que essa questão varia, ao longo do território gaúcho. Nas colônias mais antigas, principalmente naquelas dos tradicionais “vales”, até a paisagem está se refazendo em alguma medida. Parte da cobertura vegetal foi recuperada, certos animais silvestres estão reaparecendo. Isso ocorre paralelo à substituição da agricultura tradicional pela fruticultura e pela horticultura, eventualmente pela introdução
de avicultura. E esses são elementos de preservação – ao menos parcial – de comunidades centradas no trabalho familiar.

Em contrapartida, esse processo é bem diferente daquilo que acontece no quadrante noroeste do Rio Grande do Sul, com a consolidação de uma agricultura em grande escala mecanizada, que continua expulsando habitantes do espaço rural.

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O que o senhor entende que ainda persiste, ou resiste, na identidade gaúcha, dos ideais ou dos propósitos da colonização?

Esta é a pergunta mais difícil de todas até aqui formuladas. Quem anda pelas “colônias alemãs” vê uma infinidade de registros visuais, e também verbais, destacando o caráter “alemão” das mesmas (estou pensando nos portais de entrada em que se lê “willkommen” [bem-vindos], e nas casas de “enxaimel”, que vêm depois). O grande problema, o problema insolúvel para quem não quer emitir um veredicto
apressado, um juízo irresponsável, é saber que e quanto daquelas manifestações representa um produto natural, autêntico de identificação, e quanto não é nada mais que uma manipulação proposital para atrair turistas incautos, para ganhar dinheiro.

Como foi, ao longo de sua caminhada, a relação com Santa Cruz?

Vou contar duas historinhas bem diferentes entre si, como exemplos de meus “encontros” com Santa Cruz. Um primeiro foi decepcionante. No início dos anos 1980, li na imprensa de Porto Alegre que uma das grandes atrações da Oktoberfest, em andamento, eram sensacionais “jogos germânicos”. No domingo, minha mulher e eu nos deslocamos para a cidade, a fim de apreciar o espetáculo. Foi uma frustração. No final de prolongada busca no parque da exposições – com suas máquinas de plantar e colher fumo, e coisas parecidas –, achamos o cantinho onde estavam os tais “jogos”, mas não havia gente “jogando”, nenhuma sensação. A situação mostrava que a divulgação dos “jogos” não servia para muita outra coisa do que para atrair pessoas aos interesses econômicos da festa, para os negócios.

A outra história é a seguinte. Lá por 1987 fui procurado pela santa-cruzense Silvana Krause para orientar sua dissertação de mestrado sobre “Economia, política e religião em Santa Cruz do Sul na República Velha”. Foi aí que fiquei sabendo muita coisa sobre a história do município. Foi um trabalho pioneiro, que exigiu mais pesquisa que o leitor pode imaginar – pesquisa ampla, minuciosa. Mas, além de conhecer a história mais antiga do município, Silvana também me contou muita coisa sobre a atualidade de então. Fiquei sabendo, por exemplo, quais eram as confeitarias que produziam as melhores cucas da cidade. Se me lembro bem, esses dois episódios estão referidos, de passagem, no meu livrinho “O perigo alemão”, que é de 1991.

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Como historiador, que tarefa entende que falta cumprir, em sociedade, a fim de fazer melhor proveito do legado da colonização?

Quem conhece aquilo que escrevi sobre imigração e colonização alemã sabe que me concentrei nos aspectos historicamente apontados como menos edificantes deste processo – concretamente sobre racismo, nazismo, neonazismo. Até me tornei um historiador não muito benquisto, por isso, entre
algumas pessoas. E vejo que esse “legado”, que ainda circula no imaginário popular, merece continuar a ser tematizado. A história real é um pouco diferente daquilo que circula no senso comum.

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Paula Appolinario

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