Regional

“O que pode mudar as coisas é nosso comportamento”, diz Ailton Krenak em entrevista

No âmbito da memória coletiva, da política e da socioeconomia, as lutas e as reivindicações dos povos originários do Brasil nas últimas décadas foram salientadas por uma de suas mais importantes lideranças: Ailton Krenak. Aos 72 anos, ele divulga para o mundo a cultura de sua etnia, em seu próprio sobrenome. Ambientalista, filósofo e escritor, fez história também como o primeiro indígena a ser eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual ocupa a cadeira de nº 5 desde outubro de 2023.

A atuação de Krenak chama a atenção da sociedade brasileira desde a década de 1980. Naquela época, participou da Assembleia Nacional Constituinte responsável por elaborar a nova Constituição, promulgada em 1988. Naquele contexto, uma cena ganhou o mundo: a do jovem Krenak com o rosto pintado com a tinta preta do jenipapo em protesto contra a forma como os povos indígenas estavam sendo tratados. Ao longo dos anos seguintes, mais e mais fortaleceu a sua voz na luta pelo seu povo, e pelo Brasil. O fez também sob a forma de inúmeros livros, amplamente lidos, como Ideias para adiar o fim do mundo (2020), O amanhã não está à venda (2020), A vida não é útil (2020) e Futuro ancestral (2022).

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Na terça-feira, dia 23 de dezembro, véspera de Natal, Krenak concedeu entrevista exclusiva à Gazeta do Sul em ligação por WhatsApp. A partir de sua residência, na reserva indígena Krenak, no município de Resplendor, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, conversou conosco por cerca de meia hora. Enfatizou que a reserva possui 4 mil hectares e ela também foi afetada pelo desastre ambiental de Mariana, em 2015, com o rompimento da Barragem do Fundão, que espalhou rejeitos de mineração por ampla área. “A lama passou a 500 metros da janela da minha cozinha. Eu não falo de um lugar como observador, eu falo de dentro do desastre”, frisa.

Entre os temas da conversa, Krenak repercutiu a realização da COP30 das mudanças climáticas, em Belém, no Pará, em novembro de 2025, e refletiu sobre a complexidade do cenário global em termos de governança voltada ao meio ambiente e à paz. E alerta que a sociedade de consumo, na prática,
o que faz é… consumir o planeta.

Entrevista

Ailton Krenak
Escritor

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  • Gazeta do Sul – O Brasil sediou em novembro, em Belém, no Pará, a COP30 sobre mudanças do clima. Como se encerrou essa edição da conferência, na avaliação do senhor?
    Ailton Krenak – Eu acho que a gente ficou focado mais na questão do Brasil, da Amazônia. E, no caso de se pensar a Amazônia, a referência mais imediata são os povos indígenas, pois é onde está o maior contingente de etnias. Além da soma total, se você for considerar a população indígena, é também a região onde há mais terras indígenas, por extensão e por número: 70% dessas terras estão na Amazônia.
    Pensar a floresta como objeto de uma preocupação global significa, de certa maneira, dar peso e relevância à demarcação das terras indígenas naquele bioma da Amazônia. Acho que essa era a principal intenção dos movimentos organizados em torno da questão da conservação da floresta e da proteção à vida dos povos indígenas. Nesse quesito, saímos muito bem, digamos, contemplados. E os povos indígenas, numa perspectiva ampla, para além do continente americano, puxaram também uma agenda onde as conferências futuras vão ter a participação desses povos, uma coalizão de povos indígenas participando dessa agenda com peso relativo.
    Eles vão estar bem representados nas próximas conferências, sendo que até agora assistiam e participavam de maneira marginal dos documentos, das decisões que saíram da conferência. Essa foi a principal conquista que os povos indígenas, globalmente, obtiveram na COP30. E isso foi resultado do fato de ela ter acontecido em Belém, e ter sido exposta a um tipo de pressão que, nos outros países, onde aconteceram as conferências anteriores, seria impossível.
  • O senhor chegou a se envolver ou houve convites para que participasse de agendas?
    Bom, desde novembro do ano passado [2024] fiz uma apreciação muito negativa, dizendo que apropriar-se da imagem da Amazônia para receber uma conferência em Belém era um certo oportunismo, e segui fazendo essas críticas durante o ano inteiro. Eu não tive engajamento em nenhuma comissão, nem em nenhuma etapa de organização da conferência, porque, desde cedo, vi com desconfiança essa conferência e cheguei a dizer que ela seria um balcão de negócios.
    Ela não deixou de ser um balcão de negócios. Só que entre os negócios saiu alguma coisa do interesse comum, e eu digo que a COP-30 salvou-se. Ela conseguiu sair de um lugar que podia ser muito ruim. O próprio governo brasileiro, em algum momento, achou que a gente podia ter um revés com a conferência em Belém. Mas, no fim, superaram-se os problemas mais visíveis e prevaleceu o fato das potências que deveriam estar presentes. E assumir compromissos… elas fugiram dessa agenda, fugiram desse compromisso. Tenho repetido isso em várias ocasiões: com medo de ter que pagar a conta, os Estados Unidos e parte dos países europeus não se fizeram presentes.
    Bom, teve muito ruído, né? Inclusive aquela do primeiro-ministro da Alemanha [Friedrich Merz] de fazer aquele comentário grotesco, dizendo que Belém é um lugar feio e eles tinham ido embora porque estavam com saudade de Berlim. Teve muito mal-entendido. Acredito que a gente ainda vai prosseguir para assegurar que aquele fundo para florestas tropicais, o TFFF, se consolide e os países que devem contribuir para a constituição desse fundo façam a contribuição e assumam compromissos até agora não assumidos. Esse parece que está sendo um dos grandes dramas, uma das angústias em relação à gestão climática, à gestão ambiental como um todo. Parcela dos países diretamente responsáveis por esse cenário de aquecimento global o tempo inteiro está desviando de assumir compromissos mais efetivos.
  • Existirá alguma alternativa para que, de fato, as regiões do planeta, especialmente as mais responsáveis pelo aquecimento, possam ser comprometidas, ser chamadas a assumir seu papel?
    Tem muita gente que acompanha a agenda da transição e acredita que esse jogo é de vai e vem mesmo. A China está assumindo cada vez mais um compromisso unilateral de mudar sua matriz energética. Eles vão puxar muitos outros países junto. E quem sabe daqui a, sei lá, cinco anos, a gente tenha cenário muito mais favorável a que se comprometam com a transição de verdade, considerando que ela vai até 2045, podendo se estender até um pouco mais. Mas, se continuar a dramática situação de países afundando e outros pegando fogo, isso pode levar governos a mudar de atitude.
    É bom a gente não esquecer que os governos têm esse comportamento cíclico de acordo com as tendências. Há um avanço grande de governos negacionistas. O Trump puxa essa bandeira negacionista com alguns outros, que acham que não existe mudança climática e podem continuar acelerando. Quando isso estiver mesmo atormentando, suas populações, essas vão para cima de seus governos. É bom a gente lembrar que não são só governos que decidem. A própria COP30, em Belém, saiu do controle do governo. O que resultou da conferência não foi o desenho de governo nenhum. Foi o resultado da pressão e, de certa maneira, da inanição de alguns setores que poderiam ter estado mais proativos na agenda da conferência. Não precisavam deixar ela se tornar lugar de disputa tão visível. Os negociadores não precisavam ter perdido o controle da banca do jeito que perderam.
    Mas, de qualquer maneira, eu tinha dito que a COP30 ia servir uma xícara de café e uma xícara de petróleo no café da manhã. Esse prognóstico não mudou, porque o Brasil vai tirar petróleo na Amazônia. E os Estados Unidos provavelmente forçarão o Brasil a fazer um acordo em torno da exploração de terras raras.
    O balcão de negócios está ativo e tudo pode acontecer. Não tem nada, não tem nenhuma profecia sobre mudança climática. A única coisa que pode mudar essa cena é o nosso comportamento. Se, globalmente, a gente continuar consumindo, consumindo, vamos esquentar mais e mais o planeta. E quando chegar a 2 graus globalmente no clima, vai ser tanta questão agravada no campo da saúde… A gente pode ter situações muito críticas, que ninguém previu e vão obrigar os governos a tomar decisões contrariando mais as intenções do mercado.
    Hoje, quem está decidindo o tempo dessa transição é a indústria: é a indústria fóssil, são os países produtores de petróleo e aqueles que querem se tornar também produtores com grandes reservas, fazendo caixa nos seus países a partir de uma matriz energética que polui e esquenta o planeta. Quer dizer, tem gente de todo lado. Tem os que querem ainda ganhar alguma coisa, tem os que sempre ganharam e não vão sair de cima. Os Estados Unidos não vão sair dessa posição deles tão logo. Mesmo que as eleições nos EUA ponham pessoas muito diversas dessas que estão lá hoje, eles têm uma matriz energética que, para transicioná-la, não vai se conseguir fazer isso em menos de 20, 30 anos.
  • A sua obra, em mais de uma ocasião, apontou a condição insustentável da nossa sociedade de consumo. Há alguma esperança de sair desse círculo tenebroso?
    O capitalismo como religião está prosperando e também o mercado como possibilidade de confortar. Com as pessoas, inclusive as que nunca tiveram acesso a consumo com renda, podendo consumir mais, você tem um contingente muito grande no mundo inteiro que ignora as mudanças climáticas em favor de vantagens imediatas. Alguém pensa “bom, não vou viver 50 anos, então quando tudo piorar não vou estar mais aqui, vou aproveitar enquanto estou aqui”. Esse pensamento negacionista está na cabeça de muita gente que não tem poder nenhum, mas consome e vai continuar sendo consumidor, animando o mercado, animando a aceleração desses combustíveis que são fósseis e o uso da terra, do solo, de maneira irresponsável.
    Nós não mudamos o nosso comportamento de uma hora para outra. Você vê o consumo das sacolas plásticas, das embalagens plásticas. A pessoa pede alguma coisa para comer e não está nem aí se o alimento vem embalado num plástico que vai durar o resto da vida dela ou se aquilo está sendo resolvido por alguém, que não vai ser ela mesma. A gente sempre passa o problema para alguém resolver, e não nós mesmos. E isso vai durar muito tempo, Romar, vai durar muito tempo, e talvez a gente ainda tenha que esperar o pior acontecer para os governos tomarem atitude.
    Alguns acham que os governos não vão tomar atitude nenhuma e isso terá que ser resultado de uma grande mobilização das pessoas. Não dos governos, mas dos cidadãos em diferentes lugares do mundo. Estamos vendo o que está acontecendo na Europa agora. Ela está totalmente fragmentada; eles não conseguem tomar nenhuma decisão em conjunto.
    A América Latina tenta fazer alguma coisa, negociando acordos. A gente está fragmentado, não tem nenhum bloco muito organizado para propor as mudanças necessárias, nem no continente americano, nem na Europa. Por isso eu te disse que a China, talvez por seu tamanho, possa puxar mudanças nos próximos dez anos a favor de uma redução do consumo, de uma mudança de verdade no padrão das economias regionais.
  • Os povos originários, que permanecem exercitando outra forma de coexistir, teriam muito a ensinar. Por que o Brasil reluta tanto em aprender com eles?
    Bom, se a gente olhar nosso país em relação a muitos outros países, talvez a gente vá se surpreender com o fato de o Brasil, ciclicamente, ter integrado alguns valores que são próprios dos povos originários. Esses valores têm influenciado positivamente uma certa ordem cooperativa entre os povos. Me parece que o modo comum que os povos indígenas empregaram ajudou na formação do pensamento brasileiro.
    Você não poderia dizer o mesmo com relação, talvez, aos países africanos, à Europa, mas acho que com relação ao Brasil, bom, comparando com os Estados Unidos, infinitamente o Brasil é influenciado pela presença e pelo pensamento dos povos indígenas. Os Estados Unidos já fez o que fez; eles limaram o pensamento dos povos originários da escolha do caminho que aquela grande nação norte-americana tomou. Eles são esse império bélico e não estão nem aí para os povos indígenas que sobreviveram às guerras e à ocupação que eles fizeram do território do norte da América, ao ponto de eles acharem que a América é só o norte.
    Bom, a gente vai ter muita coisa mudando, Romar, muita coisa. Tomara que mude para melhor. E eu não acredito que o Brasil fique em desvantagem com relação a outras nações no sentido de assimilar valores próprios dos povos originários. Se até a década de 1990, até a virada do século, parecia que isso não ia acontecer, você observando bem os últimos 20 anos, temos o Ministério dos Povos Indígenas, temos políticas públicas voltadas aos territórios dos povos indígenas, há fortalecimento da presença desses povos no contexto dos nossos estados, da República Brasileira, da Federação Brasileira.
    Em outros países da América Latina, você não vê uma política tão atrativa dessa maneira. Talvez no México. Então, é bom a gente considerar que no Brasil os povos indígenas seguem influenciando o pensamento, digamos, de políticas públicas, e ainda vai avançar. Tem um anúncio da primeira universidade federal dos povos indígenas. Estou citando isso para confirmar que o pe nsamento político das lideranças do governo brasileiro não é tão indiferente à demanda dos povos indígenas. Senão a gente não tinha conquistado tanta representatividade nos últimos anos, inclusive dentro das agências que governam o país. Tenho uma avaliação positiva do que vem acontecendo.
  • Sua eleição para a ABL também acabou contribuindo para dar uma visibilidade muito interessante. Como tem sido possível contribuir a partir dela?
    Eu nem tenho uma apreciação muito ampla do que significa cada um desses acessos que vamos obtendo a partir de uma permanente crítica e de uma contribuição consciente para que os povos indígenas sejam respeitados na sua diversidade linguística e cultural, nas possibilidades que esses povos têm de trazer para o concerto das nossas comunidades brasileiras. Que não são só, obviamente, os indígenas: tem gente do mundo inteiro aqui formando essa sociedade que está cada vez mais diversa. Ela é plural, ela é diversa, e ela está muito crítica também.
    Se a gente tem um visível dilema do racismo, que ainda impera; de uma tendência de discriminar populações inteiras, como fazem com o Nordeste ou com regiões como a Amazônia, por outro lado, conseguimos avanços pequenos. Mas a gente consegue avanços; não é só retrocesso, como a gente vê em algumas regiões, onde tem gente que acena com a possibilidade de a direita governar a Europa, por exemplo, ou situações de guerra como o caso de a Rússia promover uma situação de ameaça contra a Europa.
    Não podemos esquecer que há um mês Putin estava dizendo que se a Europa quisesse participar da briga, a Rússia estava pronta. Diante de um cenário desses, deveríamos considerar que estamos vivendo até em condições razoáveis de respeito à ordem democrática, a uma visão, digamos, esperançosa sobre o futuro. Não estamos enterrando a nossa história, como a Europa está tentando fazer, que é uma coisa dramática, e fico mesmo pensando que a Europa pode ter chegado a um ponto de não retorno do ponto de vista da sociedade mais complexa.
    A gente fica olhando nossas dificuldades no Brasil como se a gente não estivesse no mundo, num mundo em chamas. Eu faço crítica, Romar, mas não sou ignorante das dificuldades que os outros povos estão passando e do risco que temos diante de problemas muito mais urgentes do que o clima, por exemplo. A questão do clima é dramática, mas a gente pode se meter em guerras, que vão nos por em situação ainda mais crítica.
    Sigo propondo outras cosmovisões acerca da humanidade e da nossa vida no planeta; não é só essa agonia em que somos o tempo inteiro provocados a achar que estamos no fim do mundo. Questiono isso. Há muitos outros mundos. Considerando a diversidade de povos, esses têm outros mundos para propor. A questão é que ainda estamos reféns dessa ideia de que tecnologia e capitalismo são as duas matrizes de pensar o mundo. Isso é bobagem. Podemos pensar o mundo fora dessas matrizes que sempre nos condicionaram, que é a ideia do capitalismo avançando sobre o corpo da Terra e a ciência tentando atualizar ferramentas para tornar a vida dos humanos mais folgada, digamos assim. É o que eu chamo de religião do capitalismo.
  • Algum sonho para 2026 que o senhor entenda que o leitor deve sonhar junto?
    Que nós todos, individualmente, possamos pensar bem antes de comprar o segundo carro, antes de comprar o segundo item e lembrar que é consumindo itens do dia a dia que esquentamos o planeta a ponto de ele torrar com a gente aqui. É essa a mensagem. Ao invés de um sonho, é um convite.

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Romar Behling

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Romar Behling

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