Cultura e Lazer

O vínculo de Carlos von Koseritz com Santa Cruz do Sul

A história de um dos mais importantes políticos da segunda metade do século 19 no Rio Grande do Sul com a então jovem Colônia Santa Cruz ainda está por ser contada em pormenores. Mas é impossível ignorar o apreço e a admiração que o imigrante alemão Karl von Koseritz (cujo nome foi aportuguesado para Carlos von Koseritz a partir da obtenção da nacionalidade brasileira) tinha por esse núcleo colonial.

Quase 200 anos após seu nascimento, em 7 de junho de 1830, e 136 anos após sua morte, aos 59 anos, em 30 de maio de 1890, seu nome é pouco lembrado na realidade cultural ou memorial do Vale do Rio Pardo. Ao contrário de Porto Alegre, que o homenageia em uma rua no Bairro São João, ou mesmo Lajeado, onde é lembrado em via pública da região central da cidade.

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No entanto, em Santa Cruz esteve presente, na condição de Grão-Mestre, no ato de fundação da loja maçônica Lessing 61, no dia 15 de março de 1880. Ligavam-no à comunidade, além do amplo conhecimento sobre a situação da colônia, sua amizade com a família Trein, tanto com o patriarca Carlos Trein quanto com Carlos Trein Filho, eminente diretor da colônia entre 1870 (em sucessão ao belga Alphonse Mabilde) e 1878, quando esta se emancipou de Rio Pardo e se tornou município. Após, Trein Filho seguiu como intendente, o equivalente a prefeito, além de ter desempenhado outras funções.

A relação de Koseritz com Carlos Trein Filho deve ter se fortalecido ainda mais no ambiente da maçonaria, já em Porto Alegre, onde o segundo ingressou na ordem. Mas as famílias conviviam provavelmente já a partir de 1962, quando os Trein chegaram à capital gaúcha (onde também tiveram moradia) e logo se fixaram em Santa Cruz.

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Por essa época, Koseritz já estava com mais de 30 anos e acumulava uma aventuresca experiência. Carl Julius Christian Adalbert Heinrich Ferdinand von Koseritz, em Dessau, na Prússia, em uma família bem estabelecida, logo mostrou pendor para as manifestações políticas e também pretendeu ingressar na Marinha de algum país. Em 1850 veio parar na Bahia, vivência que o frustrou. Mas no ano seguinte se apresentou como soldado para lutar pelo Brasil na Guerra contra Rosas, os populares Brummers.

Desligado desse grupo, optou por ficar no Rio Grande do Sul, entre Rio Grande e Pelotas, onde logo passou a colaborar em jornais, passando a conviver com alguns dos principais nomes da cultura daquela época. Além do jornalismo, produziu diversos livros, em diferentes gêneros, entre os quais relatos de viagens. Quando se mudou para Porto Alegre, só refinou ainda mais seu pendor como jornalista e escritor, e se familiarizou com a situação das inúmeras colônias alemãs espalhadas pelo Estado, tendo se tornado, efetivamente, agente intérprete da colonização.

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A partir dessa atuação, um documento consta até hoje como basilar. O Relatório da Administração Central das Colônias da Província de S. Pedro do Rio Grande do Sul que Koseritz apresentou ao presidente da Província, Francisco Ignacio Marcondes Homem de Mello, em 1867, impresso na Typographia do Jornal do Commercio, em Porto Alegre. Como ele frisa, assumira como agente em 10 de janeiro daquele ano, ainda que já fosse ajudante desde 11 de setembro de 1866. O relatório, ao qual a Gazeta do Sul teve acesso na íntegra por cópia disponibilizada pelo pesquisador Carlos Heuser, tece amplos elogios a Santa Cruz.

Um ferrenho defensor

A ligação de Carlos von Koseritz com Santa Cruz fica muito salientada em documentos como os reproduzidos no volume 16 da Série Perfis, dedicada pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul a importantes parlamentares gaúchos, e que contempla esse político dentro do projeto Memória do Parlamento.

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O livro, de 760 páginas, apresenta a trajetória de Koseritz, em detalhado relato biográfico, e seus discursos na Assembleia Provincial, ao longo de quatro legislaturas, entre 1883 e 1889, como membro do Partido Liberal e representante do quarto distrito (São Leopoldo, Montenegro e São Sebastião do Caí).
Já desde as suas primeiras manifestações como legislador, Koseritz citava Santa Cruz, entre as quatro colônias provinciais então existentes, ao lado de Santo Ângelo (atual Agudo), Nova Petrópolis e Monte Alverne, a qual posteriormente seria incorporada ao território do município de Santa Cruz.

Em mais de uma ocasião, usava o rápido desenvolvimento de Santa Cruz como exemplo do acerto da Província em fomentar a colonização com alemães, rechaçando toda e qualquer crítica em contrário. Como dizia, o crescimento vertiginoso na produção agrícola nas pequenas propriedades, bem como a transformação em produtos industrializados, aliados a um comércio pujante e uma prestação de serviços, mostravam a pujança dessas áreas. Em seu entender, em questão de poucos anos o retorno econômico compensava, e muito, os investimentos iniciais feitos.

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Uma colônia modelo

O Relatório da Administração Central das Colônias da Província, que Carlos von Koseritz elaborou em 1867, permanece como um documento precioso sobre a presença alemã a partir de meados do século 19 no Rio Grande do Sul. Ele começa por historicizar esse movimento de ocupação de espaços com imigrantes europeus. Por fim, dedica páginas especificamente a cada um dos núcleos coloniais, começando justamente por Santa Cruz, da página 16 à página 27.

Compartilha inúmeras informações sobre a realidade social e econômica, que contempla o período no qual a colônia estava sob cuidados do diretor Alphonse Mabilde, entre 1864 e 1970. Era igualmente o período em que o jovem engenheiro Carlos Trein Filho intensificava a sua formação para assumir a direção em sucessão a Mabilde.

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Na página 19 do relatório, derrama-se em elogios (em grafia da época). “Finalisando aqui a parte deste trabalho incompleto que se reporta à povoação de Santa Cruz, seja-me lícito observar que esta povoação, nova como é, tem tomado tal grau de desenvolvimento, que em breve talvez pouco tenha de invejar a S. Leopoldo, de quem em alguns anos será rival feliz, e quiçá victoriosa, sendo por isso mesmo digna da solicitude e do particular interesse do Exm. governo provincial”.

Elenca, então, uma série de melhorias de que linhas e picadas estão carentes, bem como o próprio núcleo urbano. Em suas observações, enfatiza também que a rotina da colônia de Monte Alverne, mais ao Norte, volta-se toda no sentido de Santa Cruz, justificando assim a pertinência de vincular essas duas. Koseritz enxergava em Santa Cruz um polo regional natural: afinal “seu progressivo desenvolvimento a torna hoje [em 1867] uma povoação de bastante importância”, e que a povoação de Santa Cruz “será algum dia um rico emporio commercial”.

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Romar Behling

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